
O Retrogesto
por PEDRO DU BOIS
O soldado assenta o fuzil ao ombro e dispara
a esmo, o tiro pela culatra destrói seu corpo:
o defeito como negócio rende ao dono
lucros para corromper o burocrata
que em refrigerado escritório aspira
se tornar gerente e garante
ao vendedor astuto a metade na divisão
escabrosa das atividades
o soldado sofre a explosão do osso
sob a carne exposta ao relento
e a primeira mosca se aproxima
o chefe em carro oficial – ar refrigerado
e motorista – segue ao encontro do assessor
do ministro (que também viaja)
nenhuma viagem tem por destino o ambulatório
do hospital improvisado onde o corpo
exausto do soldado não lhe permite saber
a extensão da perda: o braço e parte
do pulmão em retro-descarga
a família do ministro honrada com o convite
do alto escalão: a festa nos salões do palácio
o médico trata os ferimentos do soldado e sonha
palácios encantados intercalados em monstros
e florestas habitadas por gnomos: a droga cessa
o efeito: a cabeça estala e o mundo cai sobre os ombros
em depressão: treme as mãos e os olhos embaçam
fogos de artifício iluminam a comemoração
pela guerra em laços de vitória:
mais algumas ações de alcance limitado
e os soldados voltarão para casa
ilesos como saíram
inúteis como se foram
imersos como estavam
no que não havia
o brinde transmitido pelas ondas de rádio
chega ao soldado aos poucos acordado
na ausência de sua parte
o médico acode aos gritos desencontrados
o brinde explode bebidas em taças cristalizadas
de imaculadas imagens
o soldado geme a perda
o médico repensa a armadilha
o filho do fabricante das armas que explodem
ao contrário agita a bandeira desfraldada em papel
e madeira: pátria conquistada.
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Imagem: Max Ernst