A valise
por Paulo Sacaldassy
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NA SALA DE UM APARTAMENTO, UM HOMEM FALA AO TELEFONE.
Homem – A gente leva tudo na minha valise!… Cabe, sim!… Ela é bem espaçosa!
ENTRA A EMPREGADA COM UM ESPANADOR NA MÃO, LIMPA OS MÓVEIS. O HOMEM CONTINUA AO TELEFONE.
Homem – Você precisa ver! Ela é linda!… Americana… Tô te falando!… Já dormi várias noites em cima dela!… Ela agüenta o tranco!
A EMPREGADA PÁRA DE LIMPAR E PRESTA A ATENÇÃO NO HOMEM, QUE AINDA FALA AO TELEFONE.
Homem – Não, não aconteceu nada com ela!… Olha só, a gente faz assim: Eu ponho as minhas coisas na frente dela e você põe suas coisas atrás dela… É… Se você preferir, eu ponho atrás e você na frente!… É um pouco apertado, mas ela agüenta!… Claro! Já falei pra você!
A EMPREGADA FAZ CARA DE ESPANTADA.
Homem – Então tá fechado!… Vou pegar a valise e já passo aí pra te pegar!… Um abraço!
O HOMEM DESLIGA O TELEFONE.
Homem – Que foi, Maria?
Empregada – Não foi nada, não, seu Zé Roberto!
Homem – E que cara é essa?
Empregada - É que…
Homem – Deixa eu ir que já estou atrasado!
O HOMEM SAI.
Empregada - Ai, meu Deus! Como é que pode um homem tão distinto que nem seu Zé Roberto trair a Dona Ana Maria? Logo com uma Americana!… E a safadeza? Ele, o amigo e a Americana! Cruz credo! (Se benze)… Coitada da Dona Ana Maria!
ENTRA A MULHER.
Mulher – Coitada por quê?
Empregada - Não foi nada, não!
Mulher – Como não? Você acha que sou uma coitada por nada?
Empregada - Sabe o que é, dona Ana Maria…
Mulher – Não sei, Maria! Não sei!
Empregada - Foi sem querer que ouvi a conversa. Eu juro que não queria!
Mulher – Que conversa?
Empregada - Deixa pra lá, dona Ana Maria. Deixa pra lá!
Mulher – Desembucha, Maria! Coitada por quê?
Empregada - O seu Zé Roberto tá traindo a senhora!
Mulher – O quê?
Empregada – E ainda tá fazendo safadeza com a Americana e com o amigo!
Mulher – Que Americana? Que amigo?
Empregada – Foi assim, ó! Eu vinha entrando pra passar os espanador nos móvel, quando ouvi o seu Zé Roberto falando no telefone.
Mulher – O que é que tem?
Empregada – Eu ouvi ele falá pro outro que tem uma americana lindona! Que já drumiu num sei quantas noites em cima dela. E se outro quiser, pode colocar as coisa, na frente, ou atrás dela!
Mulher – Que conversa é essa, Maria?
Empregada – Como é mesmo o nome da Americana?
Mulher – E ele falou o nome?
Empregada - Falou sim! É que não consigo me alembrar! Acho que é Vasile!
A MULHER RESPIRANDO ALIVIADA.
Mulher – Não seria, valise?
Empregada – Isso! A senhora conhece ela?… Ai, meu Deus (E SE BENZE)
Mulher – Valise não é gente, Maria! Valise é uma mala pequena!
Empregada – A senhora tá brincando!
ENTRA O HOMEM TRAZENDO UMA VALISE.
Mulher – Olha aí o Zé Roberto com a valise!
Homem – Que é que tem, a valise?
Empregada – Mas… E aquela conversa no telefone?
Mulher – (APRESENTANDO) Maria! Valise!… Valise! Maria!
Homem – Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui?
A EMPREGADA OLHA ADMIRADA PARA A PEQUENA MALA.
Mulher – Vamos que eu te acompanho. No caminho, te explico!
Homem – Vamos eu tô atrasadíssimo! Até a volta, Maria!
Empregada – Inté!
O HOMEM E A MULHER SAEM.
Empregada – Diacho! Mania que esse povo da cidade grande tem de colocar nome difícil nas coisas! Mala é a mala, uai! Mas, quer saber de uma coisa? Deixa eu cuidar da vida, senão acabo perdendo o emprego!
A EMPREGADA SAI DE CENA, PASSANDO O ESPANADOR NOS MÓVEIS.
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Crédito de imagem: Horst P. Horst for Hanes “Round the Clock” 1987
http://blogdofavre.ig.com.br/2008/06/horst-p-horst-suas-fotos-de-moda-sempre/
