Arquivo para junho, 2008

Dançando no vento

Posted in literature, poesia on 28 junho, 2008 by Marco Aqueiva

por Saide Kahtouni

_______________

Uma valise branca perdida

no Soho

perdida como um sopro

no meio do vento.

Quase voa esta valise branca

levada pela brisa quente de julho

do hemisfério norte.

 

Ele quer partir mesmo.

Prolongar sua estada

bem longe daqui.

Então a valise fugiu por si só

durante o sono do dono.

 

 

+++++++++++++++++ 

 

Crédito de imagem: René Magritte, La Grande Famille

Anúncios

Valise à frente

Posted in literature, narrativa on 27 junho, 2008 by Marco Aqueiva

por Marco Aqueiva

______________

Chegou, valise à frente, com os olhos pardos da rotina turva. Ele olhando à volta as naus perdidas. Ela observou os ventos contrários, o frio de fim de ano e a conta vencida. Duas vozes se diziam águas cansadas fluindo sem economia. Perguntaram-se do dia, da oficina mecanizada das revisões e concluíram que o céu estrelado prometia mais frio. Ela então estranhou que o sorriso suficiente desprendesse um hálito de fome. Ele pressentindo a ocasião abriu a valise e retirou um folheto de agência de viagens, parcelamento em até 60 meses e uma pequena estampa de Gaugin.

+++++++++++++++++

Crédito de imagem: Paul GAUGIN – De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? (1897-988)

Insólita valise

Posted in literature, narrativa on 21 junho, 2008 by Marco Aqueiva

por Carmen Silvia Presotto

—————————— 

 

 

Passeio ao luar. Turba na avenida. Brigadiano na esquina. Plátanos invernais. Lua nova no céu. Rinocerontes do anoitecer. Cronistas na rua… Renascença, teatro, povo, títulos, pensamentos, várias conexões: Zona Sul, Viamão, Menino Deus, Azenha e enquanto o ônibus parava, mirei uma valise vermelha pendurada num jacarandá.

Fato estranho! Singular…

Mas, ao ligar as imagens acima, percebo alguém, com um olhar apatetado, aproximar-se, delimitando uma fronteira entre o muro do teatro e ao que deduzo ser seu guarda-roupa. É! Só podia ser dele aquela valise vermelha cheia de roupas.

Roupas?! Dedução simplista, porém se eu morasse na rua, também penduraria as minhas em alguma árvore que não desse muito na vista. E por que seriam roupas? Bem… Comida se come. Bebida se bebe. Que mais poderia ser guardado?

Humm! Talvez fotos, pertences de família, recuerdos, cacarecos pessoais, dinheiro… Dinheiro?!

Meu Deus, tudo de novo!

Um brigadiano guarda a esquina, quando surge uma turba de cronistas. A lua, pressentindo perigo, some do céu. Disfarça-se de nova em pleno 4 de junho, noite dos rinocerontes. Então, um moço salta do ônibus para apanhar o roubo, surpreende-se com tanta gente próxima ao seu tesouro. Mantém um olhar vago, desorientado, analiso melhor, ouço seus assobios dissimulados. Isso mesmo! Disfarçava…

Tá na cara! O ladrão viera em busca de sua valise e sente medo, porque sentiu meus olhos fixos em seu tesouro.

Meu Deus! Ele sabe que sei. E agora?

Bem, se ele não me encontrar até amanhã. Volto lá, agarro a maldita valise e caso não a encontre, ainda me resta dar uma de dona da história e mudar toda a trajetória ou catar outro fato menos insólito.

Tipo:

Escândalo, roubo, passeio e trama de cronistas, descobrem uma insólita valise junto a baratas no Teatro Renascença de Porto Alegre. Culpa-se Kafka pela tragédia tecida, pois há boatos que depois de Uma Carta ao Pai, nunca lida por ele, escreve O Processo feito um advogado do diabo. Porém há testemunhas, milhares de leitores, entrelaçados a esta misteriosa rede. Uns dizem ser testemunhas de defesa, outros cúmplices por guardarem em mil páginas o melhor antídoto, livros que comprovam quão divina pode ser uma barata contra o abandono e a solidão que desde Praga segue curando as mazelas de nosso dia- a- dia, entre as quatro paredes de um mesmo.

Ah, Kafka! Insólita sim, mas vermelha… ok! Então era uma vez uma Valise Viva, vermelha de livros que…

 

+++++++++++++++++

Crédito de Imagem: www.toutfait.com

A modelo, a valise e o pintor

Posted in literature, narrativa on 19 junho, 2008 by Marco Aqueiva

por Marco Aqueiva

———————-

A primeira vez que a vi escondia-se por entre rodos, escovões e o balde da limpeza. Um grupo de estudantes seguia as explicações do professor. Passava e tremeu emocionada quando ouviu que a moça da pintura, mulher cheia de vergonha, pudesse também ela ter sido empregada, uma criada do pintor.

 

A segunda vez que vi Lúcia, nunca soube seu verdadeiro nome, lustrava o espelho do banheiro masculino. Já passava das nove da noite, e por alguns momentos interrompia-se, quando seus ombros dorso e braços pareciam refluir à posição da figura feminina da tela de Almeida Júnior. Eu, importuno, percorria cuidadoso a pose de Lúcia. O artificioso recato, a silenciosa pureza fingida sob a licenciosidade palpitante e colhida pelo mestre dA Pintura. Embevecido, percorria-lhe então suas formas sedutoras entrevendo não mais a tela, mas um determinismo obscuro.

 

Inquieto e exaltado, uma obsessão roía-me dias e noites. Pouco saía de casa. Os poucos amigos estranhavam. Uma perversão sem dúvida, que muito mais omito por brevidade, sovava-me a alma. Perdendo a paciência com o presente, freqüentava antiquários e brechós. Buscava corseletes, anáguas e calçolas, toda sorte de roupas íntimas femininas antigas. Depois, a custo, retomava as lições de desenho e pintura da faculdade. O cavalete e a paleta moviam-se sem possibilidade nenhuma de evasão.

 

Em razão do ardor cego, voltei decidido ao trabalho. Difícil era controlar-me ante a presença muda de Lúcia. No dia anterior às curvas cicloidais da verdade, já tinha preparado tudo. Na valise, as peças íntimas que conseguira, mais um substitutivo para o cavalete e a paleta. No dia mesmo em que talvez vivêssemos a experiência dos grandes mestres, ela esbarrara na valise. Olhou-a restituindo-se de palavra. Bela maleta, como a de meu finado pai.

 

À noite, museu fechado, deixei sobre a pia do banheiro a valise semi-aberta. Ela, curiosa, olhou insegura ao redor e passou a retirar timidamente peça por peça. Examinava cada uma não sem se perturbar. Ataviava o belo tronco com o corselete quando a surpreendi. Vendo-me, mostrou-se pouco surpresa. Ganhei coragem, propus-lhe reproduzir a cena da tela. Seus olhos derramavam uma branda ondulação entre inocência e vaidade. Diz que sempre sonhou ser estrela de cinema.

 

Sem nenhum outro artifício, defini-lhe a identidade fictícia e o jogo. Passou a ser Messalina e Cleópatra, Morgana e Lou Salome, Marlene Dietrich e Claudia Cardinale, a Garota de Ipanema, Madona, a Garota Melancia, e apenas Lúcia, semanalmente nas telas de um despretencioso pintor da Praça da República.

+++++++++++++++++

Crédito de imagem: O Importuno (1898), Almeida Junior

A Moça e a Valise

Posted in literature, narrativa on 17 junho, 2008 by Marco Aqueiva

por Carlos Pessoa Rosa

—————————

O nome pouco diz sobre a coisa: mala de mão. Pobre signo de conteúdo invisível. Mas é da escritura dar corpo a este nada dizer. A valise remexe o dentro humano. Essa serventia aos pequenos objetos, como os frascos de cheiros, os sais e os cristais, o terço árabe e o crucifixo, os medicamentos, a arma, os segredos amorosos, os escritos e os manuscritos, faz o motivo literário. É quase sagrado o interior de uma valise. Rosto de uma clausura, de uma capela, do quarto dos pais com seu silêncio intrigante e seus ruídos irritantes. Só quem abre uma valise é capaz de reconhecer o não-lugar.

Ninguém abrirá uma valise esquecida em alguma dobra – é das dobras e dos cantos o refúgio de uma valise – de primeiro momento. Não! Há um ritual de reconhecimento antes tomar tal decisão. Uma valise é como o sexo ainda não explorado, barroca nas dobras e nos cantos. Ninguém estupra uma valise. Uma valise deve ser olhada, tocada, cheirada, acariciada antes de ter seus segredos violados. Abrir uma valise pode acordar paixões antigas, trazer o cheiro da mãe ou do perfume usado pelo pai… Daí o medo. Não o medo de carregar um chip localizador, quem perde uma valise não quer jamais encontrá-la, mas medo de o desejo adentrar a dor, não o prazer, ou de descobrir ali um poema que seria superior a qualquer outro que um poeta pudesse escrever.

Tivesse uma valise, nela guardaria as palavras simples. É isso! Para quando a vida estivesse muito difícil e a inspiração perdida. Valério Zurlini retirou duas palavras de sua valise para fazer “A moça com a valise” e falar sobre as vicissitudes da paixão. Lou desfez os nós e abriu silenciosamente uma valise, deslumbrando-se ao encontrar em seu interior, entre outros, Balzac, Baudelaire, Tolstoi, Gogol e Dostoievski. Pena os tempos surpreenderem homens públicos carregando em uma valise o fruto da corrupção…

+++++++++++++++++

 

Crédito de imagem: “La Ragazza con la valigia” (1960), Valerio Zurlini

 

A valise e eu

Posted in literature, narrativa on 14 junho, 2008 by Marco Aqueiva

por Tânia Du Bois

 

 

 

      

 

            Lembro de uma situação acontecida há trinta anos que me deixou de saia justa.

 

            Meu marido chegou em casa depois do trabalho e, muito cansado, irritou-se facilmente comigo.

 

            Fiquei muito magoada e comecei a gritar uma série de cobranças para cima dele: de quanto eu também estava cansada e precisando muito da sua companhia.

 

            Claro que ele retrucou, dizendo que botava comida dentro de casa, que pagava as contas e por aí afora.

 

            Ofendi-me. Fui até a área de serviço e peguei a escada para alcançar a minha valise. Coloquei-a sobre a cama e pus dentro dela o que tinha de mais importante para mim. O que me lembraria dele, ou levar um pouco dele comigo, para quando longe estivesse. Aos prantos arrumei a valise.

 

            Ele, assustado, pedia pelo amor de deus (era ateu) que eu não fosse embora.

 

            Tentava tirar a valise das minhas mãos, mas a minha dor era muito maior, pois pensava que indo embora, ele poderia ser feliz. Levar a vida do jeito que quisesse.

 

            De valise em punho, ainda aos prantos, andei rapidamente pelo corredor fui até a porta de saída. Bati a porta.

 

            Do lado de fora, apenas a valise e eu, pensei: e agora, como faço para ir embora? Não sabia sair da cidade. Então, voltei e perguntei: por favor, como faço para ir embora?

 

            Ele disse, dê-me a valise e não vá. Fique comigo.

 

            Assim que o vi com aquele ar amoroso, meu coração encheu-se de alegria. Beijamo-nos. Reencontramo-nos.

 

            Lá fui eu desfazer a valise, com muita alegria.

 

            Até hoje tenho guardada comigo a valise. É uma lembrança da minha felicidade – a de ter voltado, ter ficado. A valise faz parte da minha história.

           

            Hoje, fico pensando, será que esta juventude sabe o que é uma valise?

+++++++++++++++++

 

Crédito de Imagem: espacotempo.wordpress.com/2006/08/

 

Pessoa na valise

Posted in literature, poesia on 13 junho, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

A 13 de junho de 1888 vinha à luz FERNANDO Antônio Nogueira PESSOA.

Uma homenagem íntima, minha, à medida de uma valise, ao maior poeta em língua portuguesa do século XX.

Dele que versaria à mesma data e mês em que nasci, 35 anos antes de meu nascimento

                                         5-4-1931

Sou um evadido

Logo que nascia

Fecharam-me em mim,

Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa

Do mesmo lugar,

Do mesmo ser

Por que não se cansar?

Minha alma procura-me

Mas eu ando a monte,

Oxalá que ela

Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,

Ser eu é não ser.

Viverei fugindo

Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

+++++++++++++++++

por Marco Aqueiva

                                            13-6-2008

Correndo em ziguezague

segurando à mão e soltando pessoas

Correndo em ziguezague

a valise de si mesmo pra lá e pra cá pendendo

Pessoas por entre enleios e embaraços

A engrenagem das horas em círculo

em torno de achados e perdidos

entre os maciços publicados

e impublicáveis das lembranças

e sonhos

+++++++++++++++++

Só assim, mesmo abaixo, para juntar-me ao mestre:)