Pego

por Marco Aqueiva

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Guardei a escova e o creme dental. A mão deteve-se em algo pegajoso. Mas como catupiry lá dentro?!! Germes florescem sem que percebamos. Já os vejo deserdando minhas mãos da limpeza. Já os vejo alastrando poderosos a chaga que não pode jamais fechar. Já os sinto absorverem-me o sangue e as forças. O sofrimento iminente pede cautela. Como, como não me deixar contagiar pelo avanço, avanço de uns restos de catupiry sobre os dedos? Abro a valise e retiro a escova, o creme e o fio dental, linha 10 corrente, correria de crianças e um olhar melancólico atrás da vidraça, o pente, a mão retraída do menino mínimo por sua timidez, o espelho, o jardim que se ri da menina, o lenço de papel, o sonho que se dispersa ao vento, uns cacos de sombra, um temor de obscura notícia, uma agenda de telefone, uma gravura que só  então  rememorei  em sonho…

A água cristalina entre meus dedos não adivinha o sangue negro e espesso que jorra pegajoso do interior da valise.

Crédito de imagem: – A condição humana de Magritte nuns olhos curtos e deserdados de real.

 

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