Pego (cont.)

por Marco Aqueiva

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Lavou as mãos e os olhos e perguntava-se.  As palavras mal jorravam da valise dispersando-se do sangue negro e espesso e o escrivão, outro que também teimava ignorar por completo, prosseguia imune ao dia branco, alusivo ao refluir da vida em dias seguidos de paixão extrema, registrando friamente a ação sem estremecimentos. Quase não flui mais a forma como antigamente fui. Sob o salmo de louvor, os véus da iniqüidade. Quantas vezes a vida em rotação. O tempo desenganado. Com frieza derrubou o sujeitinho e abaixou-lhe até o joelho a calça. Distraiu-se por um momento com o baixo-relevo minúsculo na valise. Aparição ou delírio, aproximou-se. Corcunda ou ancião com um saco às costas? A desproporção era enorme entre a valise e seu possuidor. Um amplo saco e um calvário extraordinário. A vida é um corredor percorrido com leveza por poderosos  e retorcimento por fantasmas. O labirinto interior saúda o condenado que ignora seu destino. Sustentou o olhar do outro, e o que é de humano nos olhos esgarçava-se por completo. Desceu-lhe nova pancada. Do silêncio nenhuma cor sem refúgio. Não sairá da vida mais que uma breve sombra comovida e hostil. Além da mudez, tudo poderia ser reinventado. Desde menino sabia que bastava lavar bem as mãos para lanchar ou fazer a lição.

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