A modelo, a valise e o pintor

por Marco Aqueiva

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A primeira vez que a vi escondia-se por entre rodos, escovões e o balde da limpeza. Um grupo de estudantes seguia as explicações do professor. Passava e tremeu emocionada quando ouviu que a moça da pintura, mulher cheia de vergonha, pudesse também ela ter sido empregada, uma criada do pintor.

 

A segunda vez que vi Lúcia, nunca soube seu verdadeiro nome, lustrava o espelho do banheiro masculino. Já passava das nove da noite, e por alguns momentos interrompia-se, quando seus ombros dorso e braços pareciam refluir à posição da figura feminina da tela de Almeida Júnior. Eu, importuno, percorria cuidadoso a pose de Lúcia. O artificioso recato, a silenciosa pureza fingida sob a licenciosidade palpitante e colhida pelo mestre dA Pintura. Embevecido, percorria-lhe então suas formas sedutoras entrevendo não mais a tela, mas um determinismo obscuro.

 

Inquieto e exaltado, uma obsessão roía-me dias e noites. Pouco saía de casa. Os poucos amigos estranhavam. Uma perversão sem dúvida, que muito mais omito por brevidade, sovava-me a alma. Perdendo a paciência com o presente, freqüentava antiquários e brechós. Buscava corseletes, anáguas e calçolas, toda sorte de roupas íntimas femininas antigas. Depois, a custo, retomava as lições de desenho e pintura da faculdade. O cavalete e a paleta moviam-se sem possibilidade nenhuma de evasão.

 

Em razão do ardor cego, voltei decidido ao trabalho. Difícil era controlar-me ante a presença muda de Lúcia. No dia anterior às curvas cicloidais da verdade, já tinha preparado tudo. Na valise, as peças íntimas que conseguira, mais um substitutivo para o cavalete e a paleta. No dia mesmo em que talvez vivêssemos a experiência dos grandes mestres, ela esbarrara na valise. Olhou-a restituindo-se de palavra. Bela maleta, como a de meu finado pai.

 

À noite, museu fechado, deixei sobre a pia do banheiro a valise semi-aberta. Ela, curiosa, olhou insegura ao redor e passou a retirar timidamente peça por peça. Examinava cada uma não sem se perturbar. Ataviava o belo tronco com o corselete quando a surpreendi. Vendo-me, mostrou-se pouco surpresa. Ganhei coragem, propus-lhe reproduzir a cena da tela. Seus olhos derramavam uma branda ondulação entre inocência e vaidade. Diz que sempre sonhou ser estrela de cinema.

 

Sem nenhum outro artifício, defini-lhe a identidade fictícia e o jogo. Passou a ser Messalina e Cleópatra, Morgana e Lou Salome, Marlene Dietrich e Claudia Cardinale, a Garota de Ipanema, Madona, a Garota Melancia, e apenas Lúcia, semanalmente nas telas de um despretencioso pintor da Praça da República.

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Crédito de imagem: O Importuno (1898), Almeida Junior

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