Insólita valise

por Carmen Silvia Presotto

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Passeio ao luar. Turba na avenida. Brigadiano na esquina. Plátanos invernais. Lua nova no céu. Rinocerontes do anoitecer. Cronistas na rua… Renascença, teatro, povo, títulos, pensamentos, várias conexões: Zona Sul, Viamão, Menino Deus, Azenha e enquanto o ônibus parava, mirei uma valise vermelha pendurada num jacarandá.

Fato estranho! Singular…

Mas, ao ligar as imagens acima, percebo alguém, com um olhar apatetado, aproximar-se, delimitando uma fronteira entre o muro do teatro e ao que deduzo ser seu guarda-roupa. É! Só podia ser dele aquela valise vermelha cheia de roupas.

Roupas?! Dedução simplista, porém se eu morasse na rua, também penduraria as minhas em alguma árvore que não desse muito na vista. E por que seriam roupas? Bem… Comida se come. Bebida se bebe. Que mais poderia ser guardado?

Humm! Talvez fotos, pertences de família, recuerdos, cacarecos pessoais, dinheiro… Dinheiro?!

Meu Deus, tudo de novo!

Um brigadiano guarda a esquina, quando surge uma turba de cronistas. A lua, pressentindo perigo, some do céu. Disfarça-se de nova em pleno 4 de junho, noite dos rinocerontes. Então, um moço salta do ônibus para apanhar o roubo, surpreende-se com tanta gente próxima ao seu tesouro. Mantém um olhar vago, desorientado, analiso melhor, ouço seus assobios dissimulados. Isso mesmo! Disfarçava…

Tá na cara! O ladrão viera em busca de sua valise e sente medo, porque sentiu meus olhos fixos em seu tesouro.

Meu Deus! Ele sabe que sei. E agora?

Bem, se ele não me encontrar até amanhã. Volto lá, agarro a maldita valise e caso não a encontre, ainda me resta dar uma de dona da história e mudar toda a trajetória ou catar outro fato menos insólito.

Tipo:

Escândalo, roubo, passeio e trama de cronistas, descobrem uma insólita valise junto a baratas no Teatro Renascença de Porto Alegre. Culpa-se Kafka pela tragédia tecida, pois há boatos que depois de Uma Carta ao Pai, nunca lida por ele, escreve O Processo feito um advogado do diabo. Porém há testemunhas, milhares de leitores, entrelaçados a esta misteriosa rede. Uns dizem ser testemunhas de defesa, outros cúmplices por guardarem em mil páginas o melhor antídoto, livros que comprovam quão divina pode ser uma barata contra o abandono e a solidão que desde Praga segue curando as mazelas de nosso dia- a- dia, entre as quatro paredes de um mesmo.

Ah, Kafka! Insólita sim, mas vermelha… ok! Então era uma vez uma Valise Viva, vermelha de livros que…

 

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Crédito de Imagem: www.toutfait.com

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