Arquivo para julho, 2008

Bon voyage: mais duas belas publicações para carregar na valise

Posted in literatura, literature on 30 julho, 2008 by Marco Aqueiva

Uma valise que nos leva a CECÍLIA

por  Saide Kahtouni

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O que levaria CECÍLIA em sua valise, rumando em pensamento aos quatro cantos do mundo?  Em sua “Viagem” leva paz em vidros transparentes, luz em caixas de pano colorido, um cachimbo de silêncio enfumaçado e grandes doses de amor para bebermos.

Levaria também sua solidão da infância hermeticamente fechada numa garrafa de cristal formando desenhos de areia. Carrega odores dos incensos indianos e pedras preciosas encravadas nos poemas, gravados em rolos eternos de papiros. Um caleidoscópio, uma caneta e um tinteiro. Faz-me ver tudo isso, numa valise transparente e aberta, como o céu azul do Mediterrâneo.

 

Notas sobre a escritora:

CECÍLIA MEIRELES nasceu em 7 de novembro de 1901, faleceu em novembro de 1964. Perdeu seu pai antes de seu nascimento e sua mãe aos três anos. Criada pelos avós maternos logo cedo iniciou leituras e escritos. Declarou um dia que o silêncio e a solidão sempre estiveram presentes em sua vida, como coisas que parecem negativas, mas que, para ela, eram positivas. Ingressou no Magistério, estudou música, colaborou com diversos jornais.

Seu mais famoso livro foi “Viagem”, poemas publicados em 1938, agraciado em 1939 com o prêmio da ABL. Complemento este retrato sumário da poetisa com trecho do flash de João Conde publicado em 1955 na Revista O Cruzeiro resgatada por Darcy Damasceno em importante coletânea de 1972.

“Altura: 1,64. Peso: 59 kg. E calça sapatos n. 37. É quase vegetariana, não fuma, não bebe, não joga. Não pratica nenhum esporte mas gosta muito de caminhar. Acha que seria capaz de dar uma volta ao mundo a pé. Adora música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais. Escreveu seu primeiro verso aos nove anos…”

 

Um comentário (talvez dispensável): ao descobrir esses dados fiquei surpresa. Eu e minha poeta preferida temos muitos pontos em comum. Também gostava de nomear os filhos com nomes compostos. Suas três filhas tiveram Maria como primeiro nome, e a minha terceira é justamente a Maria Cecília.

Oxalá meus versos alcancem um dia a qualidade dos seus! 

 

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

PESSOA rosa CONJUGANDO

outro DIÁLOGO: agora com

PRIKA cavalcanti

 

Quem poderia acreditar… Nunca pensei muito nessa viagem. Quando soube, fui ao sótão procurar a valise que pertencera a meu bisavô. Cor de tijolo e toda craquelê. Envelhecida, sim, mas todos envelhecemos. Fiquei um tempão a pensar no que levaria em tão exótica e estranha viagem. Roupas? Não precisaria delas. Talvez um álbum de fotografias e livros. Também não! Não me teriam serventia. Obras de arte? A quem interessaria? E assim passei a noite. Não conseguia dormir, tamanha a ansiedade que se assomara dentro de mim. E vaguei na noite, entre o sonho e a natureza, pensei em levar algumas estrelas, talvez as Três Marias.  Não tinha os braços longos…  como imaginava o cego de Diderot. Mas aí estava algo para se levar: o desejo de ter os braços longos. Portanto, já tinha algo. A Lua não caberia em minha valise, mas o desejo de tê-la ali dentro, ao lado das estrelas, sim. Dois desejos… Quantos desejos caberiam na valise? É que desejos não pesam nem ocupam espaço. A valise nunca ultrapassaria o limite de peso imposto pelas empresas aéreas. Também! Pouco me importa. Não farei essa viagem de avião. Nem de trem ou ônibus. Disseram-me que seria minha última viagem. Sendo a última, não posso deixar de arrumar um espaço para o amor. Viagem sem amor é exílio. Ah! Não posso deixar de lado a esperança. Enfim, quando aqui cheguei, trazia o amor, a esperança e o desejo. Em qualquer ordem. Os homens fizeram-me crer que a felicidade estava nos bens móveis e imóveis, resisti, fui chamado de louco e demente. Assim, quando recebi a notícia dessa última viagem, que na verdade é a viagem de retorno, decidi levar exatamente o que trouxe a esse mundo: e teria sido tão fácil viver… 

Carlos Pessoa Rosa

 

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Crédito de imagem: http://www.fotothing.com/Keitology/photo/266c02b0d028725b5ceb45fe90fbb0fe/

 

Dois textos, seus autores, e a leitura como descoberta

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia on 26 julho, 2008 by Marco Aqueiva

 

     UM   DLOGO  de Pessoa Rosa COM

   A MALA, de Ana Luiza Burlamaqui

 

Dispensou o gosto das rendas, dos veludos, dos falbalás esvoaçantes, dos mantos de rainha. Entregou-se ao vazio. E do alto, viu que o mundo tocava pedras e óbitos. Mas ela… Lembrou-se de Óbidos. Do bacalhau e do vinho. Livrou-se dos bilhetes e das fotografias. Das amarras que o beijo depois do vinho impregnou em seu tálamo. O amor deve ser algo assim, fugaz para não perecer. A carta de despedida aos amigos deve dizer quase nada em palavras. A do amante, conter a renda da calcinha do último encontro. E assim voou. Até Veneza. Pousou sobre a Catedral na Piazza di San Marco. Junto aos pombos. Pegou a chave no busto e abriu a valise com muito cuidado. Ainda estava lá, fechou rapidamente para que não escapasse. Escolheu um lugar na cobertura, ajeitou-a para não ser descoberta, e jogou a chave ao mar. Acertou a roupa e pousou calmamente no centro da praça. Sentou-se em um café, reencontrara a paixão pela obra do criador, que literatura é isso: esse esconder a solidão no interior de uma valise.

 

        Carlos Pessoa Rosa    

 

 

 

 

 

 

 

 

   UMA VALISE CAPITAL

 

Há um dia em que se descobre o valor do dinheiro… E, nesse dia, foi, justamente, quando descobri o valor do fascínio. O deslumbre em que cada um de vários elementos denota, precisamente, a ausência de outro e somente “nesta ausência e na ausência florescem as paixões mais incontidas.”

E para me implicar melhor ao que não se deve explicar, peço que me sigam…

Um dia caminhando pelo centro da cidade, entrei em todos os cenários que meus olhos pediam. Estava apaixonada pelos quadros que chegavam a mim. Como se não bastassem as telas, segui em busca de quadros mais atrativos que agradassem também o meu estômago.

Um chope ali, um acarajé acolá. Um saco de pipoca, juntando-se ao caminhar, me ajudava a salpicar alguns livros. Comprei alguns achados. Uns ainda com cheiro de outras mãos, e polido com um verniz antigo, reflorescendo valores virgens, coisas das capas duras, tipo primeiras impressões de marios, de carlos, de cecílias, de clarices e outros Clássicos e junto os também corretamente indicados pelos meus canônicos… Alvos, estalando como se acabassem de sair da fôrma, prontos para habitar mais valor a minha Valise Capital.

Bem, dizia que neste dia, como quem segue uma pandorga, um tempo saudosamente já vivido, livre, me fazia catadora de momentos, até o instante em que meus olhos se alinharam a Cabral, num Livro sobre o descobrimento.

Algo em mim muda, com ele percebi os Índios, que por minha imensa soberba, fui deixando pelo caminho…

Sim! Quando me coloquei a remexer o acontecido, percebi que tinha tesouros em minha valise. Sacolas e marcas como indicava a boa cartilha de minha burguesia. E já que se fala de valor, por que não contar que dentro de toda esta petulância e retórica, cinicamente, estava o Capital de Marx. Ao mirá-lo, minha intelectualidade sorria…

Mas, bastou me perceber num olhar, familiarmente triste. Que ainda tento desviar para meu coração não parar de perseguir o sentimento daquele Índio… E, cá para nós, vocês já viram olhar mais triste do que o de um índio num mercado persa?

Bem… para mim, somente o olhar das vacas se comparam a isso… Confesso que, diante destes espelhos, contemplo-me envergonhada diante de minha imensa valise capital, pois nela também percebo minha bestialidade em sobrevivência.

É! Se com o tal olhar, escalpelei o valor do Capital que carregava comigo, em minhas mãos chegavam as contas de uns que ainda seguem, artisticamente, tecendo palhas e comendo grama, enquanto outros, feito eu, sigo em busca de capas duras, tecida por palavras brocadas a ouro… e poucos são os que ganham para tanto.

Noutros tempos, correria a me confessar pela descoberta, como fizera quando roubei um real para comprar um sorvete, ou um lanche na hora do recreio.

Sim!

Que merda de culpa! Que merda me enfiaram na cabeça. Sou, justamente, diferente do que me ensinaram a crer… E, atolada por pensamentos com todas aquelas sacolas, segui caminhando, até perceber que o peso maior estava na memória. Já que uma Valise Capital também pode estar tombada por humanas cartografias originais.

Enredada, por outras histórias geográficas, revisitei àqueles olhos tristes e avalisando toda minha soberba perante o não ter, percebi que, ao abrir mais páginas, também se abririam portas.

Sim, porque se “tereres” é algo muito volátil, assim também é a palavra dinheiro!

No entanto percebi, justamente aí, nesta fronteira que um Valor pode nos tirar do matadouro. Se há aplicações de ciúmes, inveja, cobiça, gula, traição, puros abstratos, como consumo. Ainda há cotizações reais de sentimentos sobre quem vive… E com este tilitar na cabeça, dizia para mim mesmo, vais te deixar abater?!

Não tendo respostas, só restou abrir Minha Valise Capital… Lendo, virando página por página, fui reforçando as contas de um dia-a-dia, valor que hoje me dá o aval para contar das contas dizimadas a vigários, conquistadores, bolsistas…

Não precisaria, porém desejo contar que me apaixonei ainda mais, não somente por Livros, mas também por histórias, causos que derivem ao verdadeiro valor do papel escrito, feitos que por ser trabalho, muito mais do dinheiro, fascinam porque nos aproximam poeticamente do Tempo e da Arte que é viver.

Hoje, quando sinto a impressão daqueles olhos curvados, tristes ou cabisbaixos, me reconheço… Às vezes chuto as paredes, noutras, menos escrava, escrevo para ludibriar o pecado original de conter em minha Valise o grande Capital, um Império de Livros que agora me levam a outras margens, sem culpas…

 

Carmen Silvia Presotto

Porto Alegre, 23 de julho de 2008.    

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Crédito de imagem: Magritte e Miró.

De como guardar ideais dentro de uma valise

Posted in literatura, literature on 23 julho, 2008 by Marco Aqueiva

por Nilza Amaral

Tenho uma valise de segredos. Não são segredos íntimos, sexuais, morais ou políticos. São segredos intelectuais e ficcionais, pois tudo o que escrevo é ficção, incluindo esses segredos de uma jovem idealista. Na verdade sou uma devedora de meu tempo, pois, acomodando-me ao sistema capitalista que hoje move o mundo com toda a sua selvageria, dominação e extinção dos recursos do planeta, e do qual apenas na consciência da maturidade enxerguei os defeitos, descobri que estou em falta com o meu mundo. As transformações na vida de uma mulher acontecem independentes de sua vontade moral, mas isso não vem ao caso. O que me importa é a minha valise e o seu conteúdo.

Sou absolutamente latina, pertenço a um grande país, se posso me exigir uma classificação. Durante certo tempo, desprezei essa minha latinidade dedicando-me a outras cortes que me traziam resultados mais fugazes e sem complicações. Pensar exige concentração, coerência e transgressão, e nos meios em que circulei durante certo tempo da minha vida tais atributos eram completamente supérfluos. No íntimo achava que um dia talvez, sem data marcada, acordaria no meu berço de origem, e me devolveria a fidelidade com a qual estava em dívida.

Portanto, dentro da minha valise de segredos, estão, não os abomináveis homens da neve, mas os considerados abomináveis pelo meu círculo de relações da época, quando os mais vendidos, os best sellers  e os livros de auto-ajuda eram os que contavam. Os latinos sempre tiveram a minha preferência. Inclusive os anarquistas que puxaram lá do italiano as suas raízes. Sou uma admiradora dos rebeldes, dos que mudam os sistemas à custa de seu próprio sacrifício e não esperam recompensa, das mulheres que se atiram às atividades coerentes com seu papel na sociedade. Sou contra o tempo da inquisição em que se queimavam bruxas nas fogueiras do passado e a favor das guerreiras dos tempos atuais condenadas à fogueira pelos senhores das vaidades e das veleidades. Porém o meu tempo de desconexão, todos têm esse tempo, um tempo de destruição inconsciente, acabou. Então abrirei minha valise para me recordar do que deixei para trás. Meus segredos são literários.

Abro com esse autor que sempre me fascinou como me fascinam os revolucionários. Sem usar de qualquer doutrinação esse escritor trabalhou suas obras com as armas da estética e da beleza. Esse trecho nos dá a idéia do que ele pensava sobre os criadores de palavras.

“Eu pertenço a um país pequeno: Cuba, onde, no momento mais difícil da ascensão do socialismo, Fidel Castro, reunido com os escritores e artistas do país, lhe disseram, talvez por outras palavras: Façam o que quiserem, exprimam-se como quiserem, exprimam o que quiserem, trabalhem como quiserem, mas não trabalhem contra a revolução. Portanto, escolhei as vossas ferramentas, as vossas formas, as vossas técnicas, mas não percais o sentido real pós-vivente que vos circunda e que se desenvolveu num tempo que num instante será dez anos”.

                            

“É preciso que os escritores jovens deixem de lado toda impaciência por ser conhecidos ou reconhecidos. A carreira literária é a mais longa de todas as carreiras. Eu calculo que se necessite de uns vinte anos de atividades constantes para que o nome de um autor comece a ser conhecido pelo público leitor. Depois disso vem à recompensa, é o prêmio…Quando o público reconhece um autor, aí o acompanha e o segue em todas as criações”.

Descubro ainda entre os textos segregados um lembrete: não morrer sem ir à Cuba. Concretizei meu desejo, lancei um livro em espanhol em La Habana, realizei meu anseio e conheci a ilha, e tudo me deslumbrou. Revelo esse segredo com muita discrição, a intenção era  fazer dele o obscuro objeto do desejo alcançado.

        

Além de extrair os segredos da minha valise, incluí alguns: a fascinação pela igualdade de classes de meu tempo de estudante de comunicação, e depois do meu tempo de professora, o fascínio pela beleza de Che, infelizmente não consigo abandonar o vicio de admirar a beleza, a vontade de conhecer a ilha, o projeto de ser uma escritora imparcial – aquela que abre mentes e projeta horizontes.

De Cortazar outro de meus segredos escondidos, latino como eu, e belo como todos os latinos, lembro A casa tomada, conto que estudei num dos cursos de extensão cultural, e pelo qual me apaixonei, tal o poder do autor em levar o leitor a comparar a tomada da casa com a ditadura de Perón e a tomada das terras. Esse pequeno trecho é o final da história.

“Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua.

Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada”.

Por enquanto restrinjo meus segredos a esses três autores incluindo por último Gabriel Garcia Marques o meu inspirador, com o seu Cem anos de Solidão que todos devem conhecer. Adianto que já escrevi uma novela inspirada em Macondo. A cidade da minha criação chamava-se Eterna. Garcia Marques diz que deve suas histórias à sua avó que lhe contava casos na sua infância. Todas as avós merecem esse credito, pois são elas as contadoras de histórias que nos inoculam o vírus da escrita. A cidade de Macondo e suas personagens fantásticas nos informa que no realismo fantástico o autor pode tudo. Se no mundo real a história é inverossímil, no universo do livro ela é real, podemos andar pelas ruas de Macondo, conviver com seus habitantes, tentar descobrir os autores das cartas anônimas, enfim, como no maravilhoso que é o conto de fadas, o realismo fantástico no leva às fronteiras mais longínquas da imaginação.

Não vou revelar todos os meus segredos. Não vou esvaziar ainda mais a minha valise. É uma valise vermelha, de couro reluzente, lembra pele de cobra, e não duvido que de vez em quando troque de pele, acho que ainda uma vez achei que ela era azul, e numa outra ainda me pareceu coral. Essa minha valise me acompanhará ad eternum para que eu nunca me esqueça de que sou uma latino-americana com as raízes na terra. Afinal é da terra que vivemos.

Valise como medida do mundo

Posted in literatura, literature on 19 julho, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

 

É hora de pesar a valise. Ou melhor, pôr na balança a valise,

o Projeto Valise 2008. E o faremos sucinta e objetivamente.

 

Estão à disposição do leitor valises tantas, de formatos e cores as mais diversas, que bem representam o melhor que a literatura brasileira contemporânea vem desenvolvendo. Trata-se de valises de autores expressivos da literatura brasileira contemporânea, bem como de promissores talentos estreantes nas letras.

 

Um projeto literário coletivo desenvolvido, até o momento, por

 

Ana Luiza Burlamaqui                     Paulo Sacaldassy

Carlos Pessoa Rosa                         Pedro Du Bois

Carmen Silvia Presotto                   Nestor Lampros

Fátima Brito                                    Prika Cavalcanti

Jair dos Santos Altério                   Saide Kahtouni

Marco Aqueiva                               Tânia Du Bois

 

A partir da semana que se iniciará, o Projeto Valise 2008 agrega nova perspectiva, então de fundo crítico. Assim, além de contribuições livres, de caráter ficcional, em torno do tema valise, traremos autores abrindo a valise de outros autores. Um leitor-autor que abre a valise de autor admirado, enfocando algum(ns) aspecto(s) da obra deste último a partir de sua valise diária ou de viagens. O enfoque é, portanto, abordar um  autor a partir do que ele possa ter guardado e ocultado na valise. 

 

Uma caderneta de apontamentos era o vade mecum de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. O que mais cada um levaria na valise? De que leituras ambos não se separariam? Que outros segredos essas valises ocultariam? Álvaro de Campos, tão personagem quanto Fernando Pessoa, portava uma valise. Que frustrações ou sonhos pulsam em seu interior?

 

– O que podemos, enfim, encontrar na valise de um escritor, ou de uma de suas personagens?

 

O projeto está no formato blogue, exigindo, portanto, a participação dos leitores com comentários. Ponto este que, até o momento, tem deixado a desejar se considerarmos que este empreendimento tem contado com aproximadamente 100 visualizações semanais desde o início de julho.

 

Por isso, o apelo: – Participem não apenas como leitores, deixem seus comentários e sugestões. Não sejam apenas leitores, tornem-se também autores.

 

Por fim, informo que nas próximas semanas as postagens ocorrerão às quartas e aos sábados. Programem-se.

 

Um abraço caloroso!

 

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Crédito de imagem: Michelangelo Cactani, La materia della Divina Comedia, 1855.

 

A valise

Posted in literature, teatro on 18 julho, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Paulo Sacaldassy

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NA SALA DE UM APARTAMENTO, UM HOMEM FALA AO TELEFONE.

 

Homem – A gente leva tudo na minha valise!… Cabe, sim!… Ela é bem espaçosa!

 

ENTRA A EMPREGADA COM UM ESPANADOR NA MÃO, LIMPA OS MÓVEIS. O HOMEM CONTINUA AO TELEFONE.

 

Homem – Você precisa ver! Ela é linda!… Americana… Tô te falando!… Já dormi várias noites em cima dela!… Ela agüenta o tranco!

 

A EMPREGADA PÁRA DE LIMPAR E PRESTA A ATENÇÃO NO HOMEM, QUE AINDA FALA AO TELEFONE.

 

Homem – Não, não aconteceu nada com ela!… Olha só, a gente faz assim: Eu ponho as minhas coisas na frente dela e você põe suas coisas atrás dela… É… Se você preferir, eu ponho atrás e você na frente!… É um pouco apertado, mas ela agüenta!… Claro! Já falei pra você!

 

A EMPREGADA FAZ CARA DE ESPANTADA.

 

Homem – Então tá fechado!… Vou pegar a valise e já passo aí pra te pegar!… Um abraço!

 

O HOMEM DESLIGA O TELEFONE.

 

Homem – Que foi, Maria?

Empregada – Não foi nada, não, seu Zé Roberto!

Homem – E que cara é essa?

Empregada    – É que…

Homem – Deixa eu ir que já estou atrasado!

 

O HOMEM SAI.

 

Empregada    – Ai, meu Deus! Como é que pode um homem tão distinto que nem seu Zé Roberto trair a Dona Ana Maria? Logo com uma Americana!… E a safadeza? Ele, o amigo e a Americana! Cruz credo! (Se benze)… Coitada da Dona Ana Maria!

 

ENTRA A MULHER.

 

Mulher – Coitada por quê?

Empregada    – Não foi nada, não!

Mulher – Como não? Você acha que sou uma coitada por nada?

Empregada    – Sabe o que é, dona Ana Maria…

Mulher – Não sei, Maria! Não sei!

Empregada    – Foi sem querer que ouvi a conversa. Eu juro que não queria!

Mulher – Que conversa?

Empregada    – Deixa pra lá, dona Ana Maria. Deixa pra lá!

Mulher – Desembucha, Maria! Coitada por quê?

Empregada    – O seu Zé Roberto tá traindo a senhora!

Mulher – O quê?

Empregada – E ainda tá fazendo safadeza com a Americana e com o amigo!

Mulher – Que Americana? Que amigo?

Empregada – Foi assim, ó! Eu vinha entrando pra passar os espanador nos móvel, quando ouvi o seu Zé Roberto falando no telefone.

Mulher – O que é que tem?

Empregada – Eu ouvi ele falá pro outro que tem uma americana lindona! Que já drumiu num sei quantas noites em cima dela. E se outro quiser, pode colocar as coisa, na frente, ou atrás dela!

Mulher – Que conversa é essa, Maria?

Empregada – Como é mesmo o nome da Americana?

Mulher – E ele falou o nome?

Empregada    – Falou sim! É que não consigo me alembrar! Acho que é Vasile!

 

A MULHER RESPIRANDO ALIVIADA.

 

Mulher – Não seria, valise?

Empregada – Isso! A senhora conhece ela?… Ai, meu Deus (E SE BENZE)

Mulher – Valise não é gente, Maria! Valise é uma mala pequena!

Empregada – A senhora tá brincando!

 

ENTRA O HOMEM TRAZENDO UMA VALISE.

 

Mulher – Olha aí o Zé Roberto com a valise!

Homem – Que é que tem, a valise?

Empregada – Mas… E aquela conversa no telefone?

Mulher – (APRESENTANDO) Maria! Valise!… Valise! Maria!

Homem – Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui?

 

A EMPREGADA OLHA ADMIRADA PARA A PEQUENA MALA.

 

Mulher – Vamos que eu te acompanho. No caminho, te explico!

Homem – Vamos eu tô atrasadíssimo! Até a volta, Maria!

Empregada – Inté!

 

O HOMEM E A MULHER SAEM.

 

Empregada – Diacho! Mania que esse povo da cidade grande tem de colocar nome difícil nas coisas! Mala é a mala, uai! Mas, quer saber de uma coisa? Deixa eu cuidar da vida, senão acabo perdendo o emprego!

 

A EMPREGADA SAI DE CENA, PASSANDO O ESPANADOR NOS MÓVEIS.

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Crédito de imagem: Horst P. Horst for Hanes “Round the Clock” 1987
 http://blogdofavre.ig.com.br/2008/06/horst-p-horst-suas-fotos-de-moda-sempre/

?Lo que tenemos que llevar en una viaje?

Posted in literature on 15 julho, 2008 by Marco Aqueiva

por Prika Cavalcanti

 

            Gran parte de las personas primeramente se preocupan con las cosas tradicionales que pueden necesitar como las ropas y los zapatos, pero este no son las únicas cosas que tenemos que preocuparnos. 

            Generalmente viajamos para lugares que llaman nuestra atención, como la historia, los aspectos culturales o la naturaleza, otros casos la intención no es como un paseo y sin para el labor o apenas un rápido viaje de negocios.

Es fundamental tenernos en nuestra mente que no son solamente las cosas materiales que llevamos en la valija, es de extremo importancia llevarnos nuestro deseo de aprender la diferente cultura y costumbres, cómo también tenemos que enseñar nuestros costumbres al pueblo que estamos visitando, en otras palabras es un cambio de conocimientos. Cuando viajamos por ejemplo para empezar un nuevo trabajo, también llevamos nuestro deseo de mejorar la vida, la curiosidad de saber lo que podremos encontrar adelante, las personas que podremos conocer. Es normal tener en la valija la sensación de miedo, la ansiedad,  el sentimiento de rabia o aún encontrar el amor.

¿Por qué no probar aquella comida o bebida diferente? ¿Hacer o hablar cosas que no tenemos costumbre en nuestro país o ciudad? Sí, tenemos que estar disponible, con corazón y mente abierta para nuevas experiencias. Es correcto cerrar la valija con candado solamente para sus cosas materiales, hasta para su seguridad, pero no es correcto cuando hablamos de cosas invisibles como los sentimientos, disponibilidad de hacer todo, la curiosidad y receptividad.

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Imagem: vista aérea da cidade de Santos-SP

Da valise avião

Posted in literature, narrativa on 13 julho, 2008 by Marco Aqueiva

por Jair dos Santos Altério

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A claridade da manhã apenas após o colírio, que não é qualquer encanto que pode substituir sonhos e notas musicais. Sua cabeça ainda gira com sensações que se lhe atropelam ao início da manhã. O enxaguante bucal é necessário. Diz para si mesmo nas aéreas e firmes palavras que desabam feito ícaro ante o incômodo que possam causar às desatentas ouvintes, que aquele que te ouve, por mais sol e compreensão que tenha, não te suportará a proximidade. Eu gosto muito de você. Garotão barato e convencido! Agora o gel que te deixa os cabelos com aquele brilho molhado que faz as mulheres babarem de prévio gozo. Da valise dela que lhe poderia liberar da solidão nas paisagens paradisíacas modelares, retira por fim a dose de fogo com que seu perfil refinará qualquer espelho à sua frente. Desta rosa migradora para a night, a valise se saberá largada na cama junto à mulher de meia idade, de coxas largas, ancas largas, retalhadas pela mandíbula banguela de um fedelho.

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Imagem: vista aérea da cidade de Santos-SP