De como guardar ideais dentro de uma valise

por Nilza Amaral

Tenho uma valise de segredos. Não são segredos íntimos, sexuais, morais ou políticos. São segredos intelectuais e ficcionais, pois tudo o que escrevo é ficção, incluindo esses segredos de uma jovem idealista. Na verdade sou uma devedora de meu tempo, pois, acomodando-me ao sistema capitalista que hoje move o mundo com toda a sua selvageria, dominação e extinção dos recursos do planeta, e do qual apenas na consciência da maturidade enxerguei os defeitos, descobri que estou em falta com o meu mundo. As transformações na vida de uma mulher acontecem independentes de sua vontade moral, mas isso não vem ao caso. O que me importa é a minha valise e o seu conteúdo.

Sou absolutamente latina, pertenço a um grande país, se posso me exigir uma classificação. Durante certo tempo, desprezei essa minha latinidade dedicando-me a outras cortes que me traziam resultados mais fugazes e sem complicações. Pensar exige concentração, coerência e transgressão, e nos meios em que circulei durante certo tempo da minha vida tais atributos eram completamente supérfluos. No íntimo achava que um dia talvez, sem data marcada, acordaria no meu berço de origem, e me devolveria a fidelidade com a qual estava em dívida.

Portanto, dentro da minha valise de segredos, estão, não os abomináveis homens da neve, mas os considerados abomináveis pelo meu círculo de relações da época, quando os mais vendidos, os best sellers  e os livros de auto-ajuda eram os que contavam. Os latinos sempre tiveram a minha preferência. Inclusive os anarquistas que puxaram lá do italiano as suas raízes. Sou uma admiradora dos rebeldes, dos que mudam os sistemas à custa de seu próprio sacrifício e não esperam recompensa, das mulheres que se atiram às atividades coerentes com seu papel na sociedade. Sou contra o tempo da inquisição em que se queimavam bruxas nas fogueiras do passado e a favor das guerreiras dos tempos atuais condenadas à fogueira pelos senhores das vaidades e das veleidades. Porém o meu tempo de desconexão, todos têm esse tempo, um tempo de destruição inconsciente, acabou. Então abrirei minha valise para me recordar do que deixei para trás. Meus segredos são literários.

Abro com esse autor que sempre me fascinou como me fascinam os revolucionários. Sem usar de qualquer doutrinação esse escritor trabalhou suas obras com as armas da estética e da beleza. Esse trecho nos dá a idéia do que ele pensava sobre os criadores de palavras.

“Eu pertenço a um país pequeno: Cuba, onde, no momento mais difícil da ascensão do socialismo, Fidel Castro, reunido com os escritores e artistas do país, lhe disseram, talvez por outras palavras: Façam o que quiserem, exprimam-se como quiserem, exprimam o que quiserem, trabalhem como quiserem, mas não trabalhem contra a revolução. Portanto, escolhei as vossas ferramentas, as vossas formas, as vossas técnicas, mas não percais o sentido real pós-vivente que vos circunda e que se desenvolveu num tempo que num instante será dez anos”.

                            

“É preciso que os escritores jovens deixem de lado toda impaciência por ser conhecidos ou reconhecidos. A carreira literária é a mais longa de todas as carreiras. Eu calculo que se necessite de uns vinte anos de atividades constantes para que o nome de um autor comece a ser conhecido pelo público leitor. Depois disso vem à recompensa, é o prêmio…Quando o público reconhece um autor, aí o acompanha e o segue em todas as criações”.

Descubro ainda entre os textos segregados um lembrete: não morrer sem ir à Cuba. Concretizei meu desejo, lancei um livro em espanhol em La Habana, realizei meu anseio e conheci a ilha, e tudo me deslumbrou. Revelo esse segredo com muita discrição, a intenção era  fazer dele o obscuro objeto do desejo alcançado.

        

Além de extrair os segredos da minha valise, incluí alguns: a fascinação pela igualdade de classes de meu tempo de estudante de comunicação, e depois do meu tempo de professora, o fascínio pela beleza de Che, infelizmente não consigo abandonar o vicio de admirar a beleza, a vontade de conhecer a ilha, o projeto de ser uma escritora imparcial – aquela que abre mentes e projeta horizontes.

De Cortazar outro de meus segredos escondidos, latino como eu, e belo como todos os latinos, lembro A casa tomada, conto que estudei num dos cursos de extensão cultural, e pelo qual me apaixonei, tal o poder do autor em levar o leitor a comparar a tomada da casa com a ditadura de Perón e a tomada das terras. Esse pequeno trecho é o final da história.

“Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua.

Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada”.

Por enquanto restrinjo meus segredos a esses três autores incluindo por último Gabriel Garcia Marques o meu inspirador, com o seu Cem anos de Solidão que todos devem conhecer. Adianto que já escrevi uma novela inspirada em Macondo. A cidade da minha criação chamava-se Eterna. Garcia Marques diz que deve suas histórias à sua avó que lhe contava casos na sua infância. Todas as avós merecem esse credito, pois são elas as contadoras de histórias que nos inoculam o vírus da escrita. A cidade de Macondo e suas personagens fantásticas nos informa que no realismo fantástico o autor pode tudo. Se no mundo real a história é inverossímil, no universo do livro ela é real, podemos andar pelas ruas de Macondo, conviver com seus habitantes, tentar descobrir os autores das cartas anônimas, enfim, como no maravilhoso que é o conto de fadas, o realismo fantástico no leva às fronteiras mais longínquas da imaginação.

Não vou revelar todos os meus segredos. Não vou esvaziar ainda mais a minha valise. É uma valise vermelha, de couro reluzente, lembra pele de cobra, e não duvido que de vez em quando troque de pele, acho que ainda uma vez achei que ela era azul, e numa outra ainda me pareceu coral. Essa minha valise me acompanhará ad eternum para que eu nunca me esqueça de que sou uma latino-americana com as raízes na terra. Afinal é da terra que vivemos.

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4 Respostas to “De como guardar ideais dentro de uma valise”

  1. Beleza de texto! Esmerilhando, hein?
    Beijos

  2. Mary Castilho Says:

    Nilza,
    Conheço bem sua valise…
    Muito bom seu texto. Parabéns.
    Mary

  3. Cara Nilza!

    Que canibalismos prazeroso!!! Siga esta devoradora de um tempo, pois onde outras respiraçõs possam existir, encaixar-se poeticamente, sempre será mais do que ficção, será um tempo de reinvenções e vidráguas!!!

    Parabéns e sucesso!

    Carmen Silvia Presotto

  4. Andrea Cury Says:

    Querida Nilza (Madrinha Literária),

    Texto primoroso. Prazer em ter acesso à esta leitura.
    Como todos os textos que assina, intelectualmente elegante!

    Sucesso Merecido!

    Abraços Calorosos,

    Andrea Cury Camargo Guimarães.

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