Dois textos, seus autores, e a leitura como descoberta

 

     UM   DLOGO  de Pessoa Rosa COM

   A MALA, de Ana Luiza Burlamaqui

 

Dispensou o gosto das rendas, dos veludos, dos falbalás esvoaçantes, dos mantos de rainha. Entregou-se ao vazio. E do alto, viu que o mundo tocava pedras e óbitos. Mas ela… Lembrou-se de Óbidos. Do bacalhau e do vinho. Livrou-se dos bilhetes e das fotografias. Das amarras que o beijo depois do vinho impregnou em seu tálamo. O amor deve ser algo assim, fugaz para não perecer. A carta de despedida aos amigos deve dizer quase nada em palavras. A do amante, conter a renda da calcinha do último encontro. E assim voou. Até Veneza. Pousou sobre a Catedral na Piazza di San Marco. Junto aos pombos. Pegou a chave no busto e abriu a valise com muito cuidado. Ainda estava lá, fechou rapidamente para que não escapasse. Escolheu um lugar na cobertura, ajeitou-a para não ser descoberta, e jogou a chave ao mar. Acertou a roupa e pousou calmamente no centro da praça. Sentou-se em um café, reencontrara a paixão pela obra do criador, que literatura é isso: esse esconder a solidão no interior de uma valise.

 

        Carlos Pessoa Rosa    

 

 

 

 

 

 

 

 

   UMA VALISE CAPITAL

 

Há um dia em que se descobre o valor do dinheiro… E, nesse dia, foi, justamente, quando descobri o valor do fascínio. O deslumbre em que cada um de vários elementos denota, precisamente, a ausência de outro e somente “nesta ausência e na ausência florescem as paixões mais incontidas.”

E para me implicar melhor ao que não se deve explicar, peço que me sigam…

Um dia caminhando pelo centro da cidade, entrei em todos os cenários que meus olhos pediam. Estava apaixonada pelos quadros que chegavam a mim. Como se não bastassem as telas, segui em busca de quadros mais atrativos que agradassem também o meu estômago.

Um chope ali, um acarajé acolá. Um saco de pipoca, juntando-se ao caminhar, me ajudava a salpicar alguns livros. Comprei alguns achados. Uns ainda com cheiro de outras mãos, e polido com um verniz antigo, reflorescendo valores virgens, coisas das capas duras, tipo primeiras impressões de marios, de carlos, de cecílias, de clarices e outros Clássicos e junto os também corretamente indicados pelos meus canônicos… Alvos, estalando como se acabassem de sair da fôrma, prontos para habitar mais valor a minha Valise Capital.

Bem, dizia que neste dia, como quem segue uma pandorga, um tempo saudosamente já vivido, livre, me fazia catadora de momentos, até o instante em que meus olhos se alinharam a Cabral, num Livro sobre o descobrimento.

Algo em mim muda, com ele percebi os Índios, que por minha imensa soberba, fui deixando pelo caminho…

Sim! Quando me coloquei a remexer o acontecido, percebi que tinha tesouros em minha valise. Sacolas e marcas como indicava a boa cartilha de minha burguesia. E já que se fala de valor, por que não contar que dentro de toda esta petulância e retórica, cinicamente, estava o Capital de Marx. Ao mirá-lo, minha intelectualidade sorria…

Mas, bastou me perceber num olhar, familiarmente triste. Que ainda tento desviar para meu coração não parar de perseguir o sentimento daquele Índio… E, cá para nós, vocês já viram olhar mais triste do que o de um índio num mercado persa?

Bem… para mim, somente o olhar das vacas se comparam a isso… Confesso que, diante destes espelhos, contemplo-me envergonhada diante de minha imensa valise capital, pois nela também percebo minha bestialidade em sobrevivência.

É! Se com o tal olhar, escalpelei o valor do Capital que carregava comigo, em minhas mãos chegavam as contas de uns que ainda seguem, artisticamente, tecendo palhas e comendo grama, enquanto outros, feito eu, sigo em busca de capas duras, tecida por palavras brocadas a ouro… e poucos são os que ganham para tanto.

Noutros tempos, correria a me confessar pela descoberta, como fizera quando roubei um real para comprar um sorvete, ou um lanche na hora do recreio.

Sim!

Que merda de culpa! Que merda me enfiaram na cabeça. Sou, justamente, diferente do que me ensinaram a crer… E, atolada por pensamentos com todas aquelas sacolas, segui caminhando, até perceber que o peso maior estava na memória. Já que uma Valise Capital também pode estar tombada por humanas cartografias originais.

Enredada, por outras histórias geográficas, revisitei àqueles olhos tristes e avalisando toda minha soberba perante o não ter, percebi que, ao abrir mais páginas, também se abririam portas.

Sim, porque se “tereres” é algo muito volátil, assim também é a palavra dinheiro!

No entanto percebi, justamente aí, nesta fronteira que um Valor pode nos tirar do matadouro. Se há aplicações de ciúmes, inveja, cobiça, gula, traição, puros abstratos, como consumo. Ainda há cotizações reais de sentimentos sobre quem vive… E com este tilitar na cabeça, dizia para mim mesmo, vais te deixar abater?!

Não tendo respostas, só restou abrir Minha Valise Capital… Lendo, virando página por página, fui reforçando as contas de um dia-a-dia, valor que hoje me dá o aval para contar das contas dizimadas a vigários, conquistadores, bolsistas…

Não precisaria, porém desejo contar que me apaixonei ainda mais, não somente por Livros, mas também por histórias, causos que derivem ao verdadeiro valor do papel escrito, feitos que por ser trabalho, muito mais do dinheiro, fascinam porque nos aproximam poeticamente do Tempo e da Arte que é viver.

Hoje, quando sinto a impressão daqueles olhos curvados, tristes ou cabisbaixos, me reconheço… Às vezes chuto as paredes, noutras, menos escrava, escrevo para ludibriar o pecado original de conter em minha Valise o grande Capital, um Império de Livros que agora me levam a outras margens, sem culpas…

 

Carmen Silvia Presotto

Porto Alegre, 23 de julho de 2008.    

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Crédito de imagem: Magritte e Miró.

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Uma resposta to “Dois textos, seus autores, e a leitura como descoberta”

  1. Bem, comentário você bem que merece um também.E sabe porque? Pelo olhar da vaca mansa que é uma das minhas metáforas preferidas quando se trata de tristeza e humilhação.Pelas suas andanças geográficas através dos livros, pela sua descoberta do valor do Capital.Essa sua sensibilidade está fazendo falta no mundo. E saiba, metade da população mundial morre de fome, a outra metade de complexo de culpa.
    Belo texto, a palavra manda.

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