Bon voyage: mais duas belas publicações para carregar na valise

Uma valise que nos leva a CECÍLIA

por  Saide Kahtouni

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O que levaria CECÍLIA em sua valise, rumando em pensamento aos quatro cantos do mundo?  Em sua “Viagem” leva paz em vidros transparentes, luz em caixas de pano colorido, um cachimbo de silêncio enfumaçado e grandes doses de amor para bebermos.

Levaria também sua solidão da infância hermeticamente fechada numa garrafa de cristal formando desenhos de areia. Carrega odores dos incensos indianos e pedras preciosas encravadas nos poemas, gravados em rolos eternos de papiros. Um caleidoscópio, uma caneta e um tinteiro. Faz-me ver tudo isso, numa valise transparente e aberta, como o céu azul do Mediterrâneo.

 

Notas sobre a escritora:

CECÍLIA MEIRELES nasceu em 7 de novembro de 1901, faleceu em novembro de 1964. Perdeu seu pai antes de seu nascimento e sua mãe aos três anos. Criada pelos avós maternos logo cedo iniciou leituras e escritos. Declarou um dia que o silêncio e a solidão sempre estiveram presentes em sua vida, como coisas que parecem negativas, mas que, para ela, eram positivas. Ingressou no Magistério, estudou música, colaborou com diversos jornais.

Seu mais famoso livro foi “Viagem”, poemas publicados em 1938, agraciado em 1939 com o prêmio da ABL. Complemento este retrato sumário da poetisa com trecho do flash de João Conde publicado em 1955 na Revista O Cruzeiro resgatada por Darcy Damasceno em importante coletânea de 1972.

“Altura: 1,64. Peso: 59 kg. E calça sapatos n. 37. É quase vegetariana, não fuma, não bebe, não joga. Não pratica nenhum esporte mas gosta muito de caminhar. Acha que seria capaz de dar uma volta ao mundo a pé. Adora música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais. Escreveu seu primeiro verso aos nove anos…”

 

Um comentário (talvez dispensável): ao descobrir esses dados fiquei surpresa. Eu e minha poeta preferida temos muitos pontos em comum. Também gostava de nomear os filhos com nomes compostos. Suas três filhas tiveram Maria como primeiro nome, e a minha terceira é justamente a Maria Cecília.

Oxalá meus versos alcancem um dia a qualidade dos seus! 

 

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

PESSOA rosa CONJUGANDO

outro DIÁLOGO: agora com

PRIKA cavalcanti

 

Quem poderia acreditar… Nunca pensei muito nessa viagem. Quando soube, fui ao sótão procurar a valise que pertencera a meu bisavô. Cor de tijolo e toda craquelê. Envelhecida, sim, mas todos envelhecemos. Fiquei um tempão a pensar no que levaria em tão exótica e estranha viagem. Roupas? Não precisaria delas. Talvez um álbum de fotografias e livros. Também não! Não me teriam serventia. Obras de arte? A quem interessaria? E assim passei a noite. Não conseguia dormir, tamanha a ansiedade que se assomara dentro de mim. E vaguei na noite, entre o sonho e a natureza, pensei em levar algumas estrelas, talvez as Três Marias.  Não tinha os braços longos…  como imaginava o cego de Diderot. Mas aí estava algo para se levar: o desejo de ter os braços longos. Portanto, já tinha algo. A Lua não caberia em minha valise, mas o desejo de tê-la ali dentro, ao lado das estrelas, sim. Dois desejos… Quantos desejos caberiam na valise? É que desejos não pesam nem ocupam espaço. A valise nunca ultrapassaria o limite de peso imposto pelas empresas aéreas. Também! Pouco me importa. Não farei essa viagem de avião. Nem de trem ou ônibus. Disseram-me que seria minha última viagem. Sendo a última, não posso deixar de arrumar um espaço para o amor. Viagem sem amor é exílio. Ah! Não posso deixar de lado a esperança. Enfim, quando aqui cheguei, trazia o amor, a esperança e o desejo. Em qualquer ordem. Os homens fizeram-me crer que a felicidade estava nos bens móveis e imóveis, resisti, fui chamado de louco e demente. Assim, quando recebi a notícia dessa última viagem, que na verdade é a viagem de retorno, decidi levar exatamente o que trouxe a esse mundo: e teria sido tão fácil viver… 

Carlos Pessoa Rosa

 

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Crédito de imagem: http://www.fotothing.com/Keitology/photo/266c02b0d028725b5ceb45fe90fbb0fe/

 

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2 Respostas to “Bon voyage: mais duas belas publicações para carregar na valise”

  1. analuiza burlamaqui Says:

    olá, aqui na horta do embarque do dia, encontro sua prosa e nela me reencontro. Uma continuidade sensível, meticulosamente cuidada. Abraços. Viajemos pois, que a noite cai. Abraços

  2. Cláudia, agradecida pelo seu convite , vim , li e gostei muito, você tem o dom da escrita, e com ela nos encanta a mente e a vista, seu espaço cultural, somente vem somar nesta senda das letras, meus cumprimentos, Efigênia Coutinho

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