Arquivo para agosto, 2008

A Estrela da Rua Augusta

Posted in literatura, literature, narrativa, semiótica on 29 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

por Dirce Lorimier

 

 

Nas minhas viagens, observo fatos corriqueiros, e vou armazenando-os na minha valise de recordações. De algumas não consigo me esquecer.

 

 

Lá no Rossio, mais propriamente na Rua Augusta, existe uma “super star”. E não há turista que não se encante com sua performance, sob a batuta de Petrus, seu jovem empresário. Tornou-se um fato corriqueiro e não desperta interesse aos lojistas locais, nem pela façanha da estrela, nem pelo vaivém do fole tangido sem mérito musical. Fremindo sem dó aos ouvidos da estrela, completa o espetáculo em que ela segura com as mandíbulas uma cestinha em que os turistas, inadvertidamente, colaboram com o aumento de sua pena e com sustento do seu empresário insensível.

 

Encantados com a sua resignada fidelidade, um a um, os turistas vão aumentando com euros o peso da cestinha, apesar do sofrimento estampado nos olhos da estrela. E a turba passa indiferente.

 

Fica ali horas e horas intermináveis numa mesma posição que só é relaxada quando a cestinha, repleta de moedas, é retirada para esvaziar. Nesse momento, a estrela pode abanar a pequena cauda, mexer o corpinho exausto, sendo possível observar nela um leve movimento com a cabeça, como que agradecendo ao seu sisudo algoz.

 

Sempre em silêncio e, como todo ser em desvantagem, fala pelo olhar. Como falam os olhos dela! Ao olhar para o seu olhar, o turista poderia facilmente ouvir um grito de socorro. Mas o turista desavisado olha o todo, o conjunto, o espetáculo visual horrivelmente musicado, dentro da sofisticada e movimentada Rua Augusta, a oferecer o que existe de melhor para o consumo.

 

 

A estrela, por si só, é um espetáculo à parte. Como é bonitinha e obediente!

 

A que custo terá sido adestrada para representar na imponente Rua Augusta! Quando Lisboa amanhece esplendorosa, todos querem participar da festa da vida lusitana e ninguém se dá conta de que mais um dia de sofrimento está se desabrochando para aquela atriz da Rua Augusta. Logo ela será encontrada no mesmo lugar, na mesma situação dos intermináveis dias passados. É ali que a estrela desvive. 

 

A princípio, trata-se de um fato corriqueiro. Em que lugar do mundo falta uma estrela? Mas o caso da estrela da Rua Augusta é singular para quem olhou no olhar amargurado daquele ser em meio a tantos pés que vão e voltam.

 

Eu a vi pela última vez há cinco anos, mas há pouco tempo um amigo disse que ela continua representando o seu show na Rua Augusta. Foi, então, com tristeza, que constatei que de nada adiantou a sua revolta naquela tarde de outubro de 2003.

 

O sol declinava e, pela primeira vez, a estrela se rebelou. Havia chovido e, ao sair da loja em que me abriguei, fui atraída por um espetáculo diferente.

 

A estrela, que por força de uma sina desprestigiada para a sua espécie, se chama Estrela, pela primeira vez, me pareceu, negou-se a obedecer. Travou os minúsculos dentes para não sustentar a cestinha. Primeiro “sorriu” para Petrus. Atirou os dois cambitos dianteiros na direção dele, que lhe fez um gesto, algo parecido com um afago, coisa estranha num jovem tão sombrio, mas logo a rechaçou.

 

Um observador aproximou-se e Estrela, pela primeira vez, rebelde, coçou várias partes do corpo, e ele, adiantando-se mais, abaixou-se para examiná-la dizendo a Petrus que vira uma pulga no meio de sua curta pelagem castanha.

 

“Uma pulga muito grande”!

 

E ambos puseram-se a examiná-la por um breve espaço de tempo, até que Petrus, irritado, impossibilitado de reiniciar seu lucrativo espetáculo, esbravejou enquanto seus incipientes bigodinhos tremiam. Recolocou bruscamente a cestinha entre os dentes da estrela e começou a exibir com fúria os seus rudimentos musicais naquele acordeom. Seria uma sanfona? 

 

Então, sentindo-se protegida, a estrela desobrigou-se da cestinha encarando o seu dono empedernido, enquanto duas lágrimas há muito contidas brilharam em seus olhos suplicantes.

 

Esbravejando, Petrus recolocou o objeto de tortura entre os dentes da infeliz e retomou o instrumento musical. Então, abrindo desmesuradamente a boca, Estrela emitiu o mais dolorido acorde que um ser de sua espécie poderia produzir… um uivo triste, profundo, cortou a Rua Augusta, naquela tarde de outubro.

 

O homem baixou-se novamente, disse que era por causa da pulga e logo Petrus começou a fechar seu instrumento de horror, a juntar seus demais pertences, as moedas, a cestinha e os três retalhos de papelão em cima dos quais Estrela se apresentava ao público. E puxando aquele ser destinado, desapareceu por entre uma multidão cega, indiferente.

 

Segui rumo à Praça do Comércio levando comigo a minha impotência numa terra estrangeira.

 

Por que fui me lembrar disso hoje, cinco anos depois? É que a Lali está cumprindo pena em sua casinha, porque subiu na mesa e devorou três ovos cozidos. Este olhar contrito dirigido a mim como que a pedir sufrágio pela sua culpa … como parece o olhar da Estrela da Rua Augusta! A estas horas, ela deverá estar encerrando mais um dos seus tristes espetáculos na Rua Augusta de Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ella

Posted in cinema, literatura, literature, narrativa on 27 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Ana Luiza Penha

_________________

 

Ella sempre corre e  hoje no fim de tarde numa véspera de feriado desvia-se  do menino que chora, do pedinte que insiste, da mulher à beira de parir, da senhora de passos lentos com cachecol de crochê cinza.

 

Sem tempo ou com muito pouco tempo, corre em cima do salto numa maratona em busca do táxi em que esqueceu a mala.

 

Em dia de despedida tudo acontece, mas poucas coisas dão certo. A passagem    de ida na mão e  a lembrança  do  quarto  de teto preto aonde se sentia numa tumba, quando decidiu radicalizar e  deixar para trás a  penúltima morada. Será que alguém sabe aonde será a última?

 

A mudança começou  com  a escolha  da mala, leve de preferência e imensa  para nela caber tudo que significasse saudades.

 

De  cor vermelha tal qual  um coração que  derrama sangue pelas ruas, com discreto lenço branco, um pedido de paz.

 

Gritou, pulou, acenou, alguns poucos solidários no burburinho fizeram coro  com  a protagonista da agonia urbana.  Não teve jeito, a escolha foi  posta, ou viaja sem ou fica desfiando para todos seu drama.

 

De repente era uma mulher só que  perdera o amor e a mala num único dia. No salão de embarque do  aeroporto a última chamada. Começava então a viagem.

+++++++++++++++++

Collage por Marco Aqueiva

REVEJO A TRISTE VALISE DO POETA FEDERICO

Posted in Garcia Lorca, literatura, literature, narrativa, poesia, teatro on 25 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por  Pedro Du Bois

______________

 

História recontada

de cantos escuros

submersos aos tempos

recuperados

na estética

 

ética

forma de rememorar

personagens

abreviados de nós

 

o mito transfigurado na realidade

de sonhos transformados em nuvens

férteis na imaginação das crianças

 

o homem em marcha

canta

conta

refaz o caminho

 

refeito o trajeto, o tiro

que matou o poeta

 

o dia

e a noite se faziam escuros.

 

(de As Pessoas Nominadas)

Duas valises entre a morte do poeta e a glória do herói olímpico

Posted in Jogos Olimpicos, literatura, literature, narrativa, Olimpiadas, Pequim 2008, poesia, semiótica on 23 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

A Morte do Poeta

por Cláudia L. Moraes

________________

Dia desses ganhei uma valise mágica. Lá, coloquei tanta coisa: milhares de sonhos; fantasias envelhecidas e nunca usadas, confissões absurdas de como matar o gato da vizinha que faz um barulho danado à noite, a vontade de que o príncipe que tenho ao meu lado volte a ser sapo e se perca numa lagoa qualquer, ou, até mesmo, beijar um novo sapo para transformá-lo em príncipe, quem sabe. Ah! A delícia da conquista. Achei que deveria guardar dentro da tal valise os meu medos todos: de escuro, de distâncias, de ficar sozinha e o pior deles, o de perder a consciência do mundo que me cerca. Coloquei lá dentro as minhas saudades, meus luares, minhas estrelas, meus amores, meus versos inquietos e, por que não, minha mente de poeta? Pronto! Percebi que tudo o que eu tinha e sentia havia ido para dentro da valise. Fiquei vazia. Então, me joguei dentro dela, que simplesmente desapareceu.

 +++++++++++++++++

Uma valise entre o mortal e o herói olímpico

 

 

  

 por Marco Aqueiva

______________

Chegaram a mesma hora à vila olímpica. Reconheceram-se prontamente para captar de súbito a transformação de ambos. Na fotografia muda da infância, que ele ainda guardava sob silêncio ultrapassado subitamente por uma sensação esquisita e inominada, sempre habitou outra mulher em outra cidade. Ele nascera para a vida. Ela para a glória. Mas se ela antes extremava seu olhar para um novo futuro, para outra direção, que não a da vida acanhada em si mesma, amesquinhada ao redor de marido, filhos, lazer aos domingos com os sobrinhos e a sogra, vida acanalhada sob certezas e ninharias, onde teria então ficado a pré-história da atleta vencedora que outrora carregava no prazer de cada momento todo o corpo e horizonte de que precisava? Não seria eu que a desceria da glória. Fingi que não a reconheci. Em minha valise ainda hoje permanecem os úmidos vapores da velha fotografia contra a lente rachada de meus óculos.

 

 

 

 

Duplamente, valises

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica, trovas on 20 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

: Outro diálogo de Carlos Pessoa Rosa :

Agora com “Valises para a fuga”, de Nilza Amaral

O que significaria? Encontrada entre os escombros de um navio naufragado. Lucas aguardou a resposta do pessoal de bordo que analisou o objeto. Surpreendeu-se com a resposta: uma valise. Vermelho-amarelada característica das colônias do coral-vermelho. O cadeado dourado. E o canto que parecia sair de seu interior… Voz doce e suave. Não havia mastro onde se prender. Mas o desejo foi mais forte que a ordem vinda de cima: Temos objetos mais valiosos que uma valise… O canto abafou as ordens, sentiu uma ardência nas mãos. De quando a atração pelo mistério? Afastou a câmera do objeto e, enquanto distraía os colegas de expedição com louças de porcelana chinesa e talheres de prata, lançou o braço do submarino até a valise, trazendo-a para dentro. Com dificuldade, abriu-a, estava aparentemente vazia. Mas só aparentemente… De dentro, um canto diferente, sombrio, uma narrativa fúnebre, e seres vestidos de faunos e sátiros, presos no fundo da valise como corais nas rochas, figuras nuas com o rosto transfigurado por queimadura e dor, outras com a pele marcada pelos ossos e os olhos esbugalhados na falta. Que horror ou inferno teriam presenciado aquelas pessoas? E Lucas desejou retirá-las dali como fez o Dioniso ao tirar sua mãe, Sêmele, do inferno. Conduzi-los como iniciados à superfície. Haveria o risco de fertilizarem a terra com todo o ódio ali contido, distribuírem a embriaguez e as intrigas entre os homens… E assim envolvido, pensante, Lucas acompanhou o feixe de luz a rasgar as águas em quase gozo. Chegara a hora! Levar a valise à superfície, possibilidade de esparramar o ódio entre os homens. As fases apolíneas matam pelo simulacro, nunca houve saída, a mente é maldoror; sempre.

E quem olhasse Lucas perceberia um estranho cogumelo ocupar suas córneas. Nos lábios, a expressão de imortalidade dos eleitos, seria o soberano e organizador das guerras entre os famintos… Divino! Surgia ali um novo estadista.

 

Trovas de valises a várias vozes

(por poetas da UBT/ASES)

 

Viajo em versos felizes

por esse universo afora

sem precisar de valises…

Com licença, vou-me embora!

        Lóla Prata 

 

***  **  ***

 

Tropeçando pela estrada

o bêbado ri à toa;

beija a valise encontrada

e a lua, muda, o abençoa.

Marina Valente

 

***  **  ***

 

Pra não perder meu dinheiro

e vencer mais uma crise,

peguei tudo bem ligeiro

e guardei numa valise.

Solha – UBT

 

***  **  ***

 

Ao ser pega em flagrante

com a valise da vizinha,

disse: Não sou assaltante!

Eu pensei que fosse minha!

        Wadad Kattar

 

***  **  ***

 

O meu segredo de amor

numa valise guardado,

pode trazer grande dor

se um dia for encontrado.

        Therezinha de Ávila

 

***  **  ***

 

Viajo em versos felizes

por esse universo afora

sem precisar de valises…

Com licença, vou-me embora!

        Lóla Prata 

 

***  **  ***

 

Não preciso de valise,

nem bolsa ou mala, sequer;

viajo aonde precise

nos meus versos de mulher.

        Lóla Prata 

 

 

 

As valises das Alices

Posted in artes plásticas, literatura, literature, semiótica on 18 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Tânia Du Bois

______________

 

 

 

            O que Alice Brueggemann e Alice Soares levavam em suas valises? Abrindo as valises descobrimos que são duas personalidades que se destacaram a partir dos anos cinqüenta no cenário da pintura e do desenho, lado a lado. Foram duas Alices que com muitas afinidades

completaram trinta anos de convivência artística num mesmo ateliê.

 

            Em 1957, resolveram montar um ateliê, denominado pelo pintor Ado Malagoli de “Aliciano”. Naquela época, em Porto Alegre, não havia galerias de arte e tampouco os trabalhos eram comercializados; daí surgiu a necessidade de se agruparem, passando assim a conviver com uma nova perspectiva.

 

            Dentro da valise de Alice Soares descobrimos que ela se encaminhou para o desenho em crayon e pastéis. Seu tema foi sempre a “criança universal”. Ela as retratou revelando a sua preocupação com a figura da criança. Soares achou a síntese no desenho com força expressiva e pela maturidade alcançada. Seus desenhos parecem seres vivos, porém, não são retratos, mas, sim, vindos do pensamento e de muitos ensaios.

 

            Na valise de Alice Brueggemann vimos que ela se dedicou à pintura a óleo com figuras humanas, paisagens e naturezas mortas. Pintava vários quadros ao mesmo tempo e nunca pensava na cor em si, mas, quando limpava os pincéis, no final da obra, aí sim, verificava a predominância do verde. Ao olhar a sua obra, dizia: “Sou extremamente irrequieta e no meu trabalho vejo uma tranqüilidade que não sei de onde vem. Quem vê, parece uma planta.” Sua filosofia foi de sempre estar “fazendo” quadros, mantendo a emoção e os sentidos em ação. Tinha por lema sempre recomeçar, mesmo com as dificuldades e as guerras que envolvem o ato de criar.

 

            Ado Malagoli revelou o que encontrou dentro das valises das Alices: “Refiro-me as duas Alices, a Soares e a Brueggemann. Seu movimento artístico no nosso Estado (RS) possui características originais, com vida espiritual e processos próprios de desenvolvimento; muito se deve ao ateliê aliciano. Outros valores consagraram como um recanto de desenvolvimento artístico e cultural, freqüentado, como sempre foi, por artistas e intelectuais… No futuro, a crítica saberá, por certo, enumerar todas as fases do desenvolvimento por que passou o ateliê das duas Alices, que enriqueceram sobremaneira a cultura artística do nosso Estado (RS)”.

 

            As bagagens das Alices mal couberam dentro das suas valises, pois, da memória de onde trouxeram a imaginação e dos sonhos que foram a inspiração, surpreenderam-nos na pintura e no desenho. Essa surpresa impôs às telas a força das Alices e, através da beleza de suas obras, que expressam emoção e sensibilidade, encontramos prazer espiritual.

 

            As Alices com suas valises ultrapassaram as fronteiras e hoje suas obras são encontradas nas galerias e nos museus de artes plásticas.  

+++++++++++++++++

Concepção de imagem: Marco Aqueiva

 

 

Brevidades, duas, ao fim de semana

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica on 15 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

           Pessoa Rosa retoma o bilhete dado por Paul Gauguin a Marco Aqueiva

por Carlos Pessoa Rosa 

__________________

  

tiveram fome de arte… Agora, o desejo de um milagre.  Sem sonhos de viagens e suspiros no estrangeiro. A valise poderia ser a cartola de um mágico. Os mágicos não tiram pombos de suas cartolas? Não! Não roube o suspiro da infância quando os sonhos têm consistência e peso. Haviam caminhado horas, sem rumo e sem prumo, imaginando o que haveria ali dentro. Quando o companheiro fez menção de abrir a valise, ela pousou sua mão sobre a dele, e assim permaneceram… Sentiam muita fome, fazia muito frio, havia muita falta de esperança.  A mulher poderia saciar a fome de corpo que ele exalava, mas sentia-se muito enfraquecida para essa e outras viagens. Franzina e crepuscular, soltou lentamente a mão do companheiro. Acompanhou a abertura da valise. Foi a primeira a mergulhar no vazio. No fundo, um folheto de agência de viagens… E a estampa de Gaugin. Natureza morta. Diante do olhar distante de seu parceiro,  pegou o copo da estampa com as duas mãos, deixou o vapor quente acariciar o rosto, e dividiu o conteúdo com seu homem.

+++++++++++++++++

Crédito de imagem: Pastiche por Marco Aqueiva sobre obra de Paul Gauguin, Femmes de Tahiti sur la plage

 

 

 

 

 

 

      Lembranças a editar

por Marco Aqueiva

______________                                        

                                    a Heráclito, talvez o primeiro

As duas alças da valise sabem-se

a oito, assim como os dois zeros perdem-se

nos dois olhos perdidos no infinito

Alças na mão, lembranças a editar

que impossível nadar nas mesmas águas

que reviver o extinto, nem mais nada

Conserto & Concerto

Posted in literatura, literature, poesia, semiótica on 13 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

por Nilza Amaral

_______________

 

Valises para a fuga
 
 
 

 

É tempo de rechear valises com gritos de horror de Nagazaki cravados em nossos ouvidos, embrulhar escaladas de aranhas fugindo para o teto, é tempo de desenrolar fúrias guardadas em papel de outros tempos, dobrar joelhos martirizados em agradecimentos pela liberdade, é a hora de enfeitar presentes de paz e distribuir pelo mundo dos famintos que vagam pelo mundo em busca de refúgio, confiantes na palavra prometida pela paz do mundo, soltar pipas coloridas e brilhantes com mensagens de Ave para os homens de boa vontade, guardar os ressentimentos em vidros lacrados, colocá-los no fundo falso da valise, e disfarçar invólucros que denunciem horrores esquartejados, isolando o perigo de serem plagiados por carrascos vindouros, esse é o tempo. Tempo de fechar a valise com chave de ouro, jogá-la no fundo do mar, plâncton do futuro a ser aberto pelo gênio de Aladim ou pelo herói revolucionário que deixou passar o tempo de dizer não.
Esse é o tempo da fuga.

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&

Trovas de valises a várias vozes

(poetas da UBT/ASES)

 

 

 

 

 

 

 

Numa valise dourada,

com minhas jóias, eu ponho

entre as outras, camuflada,

a pérola do meu sonho.

Marina Valente

 

***  **  ***

 

Guardei na velha valise

meu sonho, minha lembrança;

hoje, talvez eu precise

de uma vida de esperança.

Norberto de Moraes Alves

 

***  **  ***

 

A valise vai e volta

cheia de amor e ilusão

fazendo reviravolta

no meu triste coração.

Leda Ramos

 

***  **  ***

 

Para que eu me realize

em futuro mais risonho,

devolvam minha valise

onde guardei tanto sonho.

Cida Moreira

 

***  **  ***

 

A  valise da esperança

eu perdi há um tempo atrás.

Não procuro. A busca cansa.

Mas que falta ela me faz!

Wadad Kattar

 

***  **  ***

 

Nos meus melhores momentos

me encontrava livre e solta,

sem valise ou documentos,

por amores envolta.

Lóla Prata

 

***  **  ***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Toda a literatura numa valise

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica, teatro on 11 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

Toda a literatura cabe numa valise? Uma valise é, reiteramos, nunca um objeto per si. A valise é menos um objeto que um símbolo, portadora que é de um conhecimento sobre nós mesmos e sobre nossos semelhantes. Valise por onde uma parte significativa da totalidade pode desvelar-nos a nós mesmos por meio da ficção ou daquele autor de que nos servimos com prazer e admiração. Por esse pressuposto estendem-se os caminhos traçados por este projeto até o momento.

 

Completamos com esta 35 postagens, mais de 50 textos publicados, em que, para cada texto tem sido associada uma imagem, com toda sensibilidade, e arbitrariedade não fosse a verdade residir no poço de nós mesmos. Às colaborações de textos ficcionais (poesia e prosa) em que a valise é tema, acrescentamos há pouco a proposta de escrever sobre a valise de um autor, desvelando-lhes os segredos.

 

Convém ainda provocar: – Toda a literatura pode mesmo caber numa valise? Parafraseando algum grande autor, toda a biblioteca de Alexandria coube na frasqueira daquele que guarda a sorte deste mundo mal segura. Toda a literatura enunciada cabe na valise daquele que anuncia seu prazer pela literatura, elegendo seus autores preferidos e experimentando, no branco da página e da linguagem, os mistérios cerrados na valise. Mistérios da natureza humana.

 

Participem escrevendo seja uma valise ficcional, absolutamente desgarrada de quaisquer restrições ou limites, seja um texto de leitor apaixonado por um autor cuja valise se quer desvelar.

 

Nesta data registramos as colaborações de Dirce Lorimier e Aparecido José Carlos Nazário, que estréiam no Projeto.

 

Boa viagem!

+++++++++++++++++

 

A VALISE DE NELSON RODRIGUES

por Aparecido José Carlos Nazário

 

Nelson Rodrigues, tendo em mente a crítica social que sustentava a virulência de seus textos, levaria em sua valise um “vestido de noiva” pertencente a uma jovem “bonitinha, mas ordinária”, a qual, durante sua trajetória, mesmo tendo sido “engraçadinha”, carregava o veneno de uma “serpente”. Além desse vestido, Nelson levaria também uma dose de veneno letal que serviria para exterminar os bons desejos de uma sociedade que não compreendia que apodrecia em decorrência da utilização de uma máscara que a impulsionava a um mundo de fantasias que parecia confortável em sua estrutura. No entanto, o veneno que Nelson portava em sua valise, acompanhado do vestido que desencadeava as mais variadas lembranças, ajudava a   conscientizar esse extrato social de que a vida era como ela deveria ser.  Nenhum profeta poderia salvar do mal aqueles que já tinham se condenado devido às práticas inconsequentes que apareciam retratadas em um “álbum de família” desbotado pelo tempo. Certamente, devido ao peso de sua crítica, Nelson carregaria a responsabilidade do incômodo, além da inquietação e do desconforto que provocaria em seus leitores, os quais seriam transformados pelo simples fato de abrirem a valise e se depararem com o vestido, uma vez que os planos da realidade, memória e alucinação lançariam a eles um novo desafio ao tentarem compreender o universo labiríntico no qual seriam inseridos.         

 

por Dirce Lorimier

———————-

A frasqueira

 

Não é propriamente uma valise.

É uma frasqueira vermelha, novinha ainda.

Está fechada há dezenove anos.

Não me atrevo a abrir.

Temo rever a fortuna que Laura guardou ali.

 

Brigou comigo, a pequenina, e disse que ia embora.

Até nunca mais.

Por quê? ora por quê! Isto não importa agora

O que importa, como me ocorreu naquela manhã,

Encarando aqueles olhos irados e vermelhos,

É que se desabrochava ali a personalidade de uma mulher

Obstinada.

 

Hoje quando me refiro à frasqueira, ela apenas sorri.

Não demonstra desejo de abri-la.

Sei que a maior fortuna que guardou ali

Foi uma peninha branca que ela perseguiu no parque,

Brigando com o vento que a levava cada vez mais longe dela.

Ainda vejo suas perninhas grossas, bem torneadas

Correndo pelo gramado, querendo me presentear com aquela

Pena voadora.

 

Seus lindos cabelos loiros eu os vejo ainda dançando pelo parque…

Finalmente, ela venceu e me entregou sorrindo o meu troféu. 

Havia uma avó feliz.

 

Mas naquela manhã de domingo a menina se impôs como uma

criança determinada.

Lembro também que ali estão algumas jóias

da Arábia Saudita.

“Todas as jóias que você ganhou do seu namorado, vó!

É tudo meu! A peninha branca também!”

 

Sementes coloridas, verdes, vermelhas…

O que mais tem ali?

Ali está presa para sempre a nossa eterna cumplicidade

uma criança determinada e às vezes egoísta

uma vovó que aprendeu a ver nos pequenos gestos

motivos para olhar para trás e sorrir.

 

 

+++++++++++++++++

 

 

Crédito de imagem neste último texto: Romain polgatroïd em

flickr.com/photos/xyotiogyo/2411311170/

 

 

 

Duas provas para o rito humano

Posted in Jogos Olimpicos, literatura, literature, narrativa, Pequim 2008, poesia, semiótica on 8 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

por Marco Aqueiva

JOGOS OLÍMPICOS OU JOGOS PÍTICOS ?

A terra é redonda, e porque todos os caminhos levam a Delfos, omphalos do mundo, até os de Běijīng 2008, Bárbara, com um brilho que tornava ainda mais arredondados seus olhos, sugeriu que recriássemos, aqui no Valise, os Jogos Píticos, paralelamente aos Jogos Olímpicos de Pequim. Propôs, com seu vaporoso verde-roxo: – por que não podemos, concomitantemente às competições esportivas na China, promover um certame que teste o limite do engenho e arte?

 

E porque é melhor convergir do que entrar em confronto, comecei dando asas violetas ao cenário maduro. Disse-lhe: rebentemos logo pela prova dos 800 metros. Alguém talvez pergunte: Por que os 800 m? A terra é redonda, como os arredondados contornos suaves de Bárbara, e seus oito admiradores atuais ainda a disputam com fome, litorais, ferraris, ilhas, iates, istmos, continentes. Se olharmos ao chão, diz esta bela mulher, é porque a vertemos em sangue. Se mirarmos o alto, é porque entrevemos encontros, passagens, agosto, por uma guerra corporal e amargo exílio.

 

Por outro lado, boa parte de nossos autores atletas, deixando a metafísica no túmulo, já trariam os louros das conquistas na testa imortal. Os autores atletas vivos que decidem participar não escondem um certo incômodo, pois não têm ainda a imortalidade, e sabem que o futuro depende muito mais de contemplação que de alongamento. Uma única vez encontrei Sade e Sá-Carneiro disputando a mesma prova. Quando Bárbara soube, precisei consultar atentamente seus olhos baços para perceber seu choro.

 

Sem uns jogos físico-místico-poéticos, mal suportaríamos o mundo rebentando em seu fluir e refluir a sala e sofá.

 

_________________ 

 

por Ana Luiza Burlamaqui

_____________________

A MALA DA ASSISTENTE

 

 

Alguns insensatos  sugerem, esqueça esta mala que  arrasta por mais de três décadas em alguma esquina.

 

Propositadamente esqueça-a e não olhe para trás para não transformar-se numa estátua de sal , lave as mãos e siga em frente.

 

Por vezes , quando a dúvida me abarca ao final do dia e revejo as trilhas do ontem, decido que é chegado o ponto final .  Assim como a canção, “cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é”. Apartar-me  de tudo e deixar que alguma pirata de rua lance mão dos segredos dela.

 

Psiu, alguém, você aí, Senhor , Senhora, dama da noite, crianças, adolescentes, por favor dêem conta desta mala e suas verdades.

 

Dos pares de  meias desgastadas pelas longas caminhadas de rua,  dos abraços incompletos pela mutilação da vida, das dores do mundo, dos órfãos da miséria, da escuridão da caverna da ignorância, dos jalecos brancos manchados de sangue pela indiferença, dos presos  em casa, dos  soltos  sem destino,  dos inocentes homens  nascidos na solidão do lixo  das  calçadas.

 

Dos viciados na corrupção, dos desejosos de mudança, dos irmãos que fazem a guerra pelo poder. Dos que esperam e não são atendidos. Dos quem nunca foram bem-vindos. Das leis que não se cumprem, da violência  que encobre a poesia  e a beleza de um dia quente de sol.

 

Por favor não corram errantes, em zigzag pelas calçadas.

 

Há uma mala extraviada, perdida, sem endereço certo,  uma herança de mais de trinta anos esperando para ser libertada do destino de guardar as  coisas do mundo deixada por uma mulher de cabelos de fogo.

+++++++++++++++++

Crédito de imagem: Duchamp