Arquivo de agosto, 2008

A Estrela da Rua Augusta

Posted in literatura, literature, narrativa, semiótica on 29 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

por Dirce Lorimier

 

 

Nas minhas viagens, observo fatos corriqueiros, e vou armazenando-os na minha valise de recordações. De algumas não consigo me esquecer.

 

 

Lá no Rossio, mais propriamente na Rua Augusta, existe uma “super star”. E não há turista que não se encante com sua performance, sob a batuta de Petrus, seu jovem empresário. Tornou-se um fato corriqueiro e não desperta interesse aos lojistas locais, nem pela façanha da estrela, nem pelo vaivém do fole tangido sem mérito musical. Fremindo sem dó aos ouvidos da estrela, completa o espetáculo em que ela segura com as mandíbulas uma cestinha em que os turistas, inadvertidamente, colaboram com o aumento de sua pena e com sustento do seu empresário insensível.

 

Encantados com a sua resignada fidelidade, um a um, os turistas vão aumentando com euros o peso da cestinha, apesar do sofrimento estampado nos olhos da estrela. E a turba passa indiferente.

 

Fica ali horas e horas intermináveis numa mesma posição que só é relaxada quando a cestinha, repleta de moedas, é retirada para esvaziar. Nesse momento, a estrela pode abanar a pequena cauda, mexer o corpinho exausto, sendo possível observar nela um leve movimento com a cabeça, como que agradecendo ao seu sisudo algoz.

 

Sempre em silêncio e, como todo ser em desvantagem, fala pelo olhar. Como falam os olhos dela! Ao olhar para o seu olhar, o turista poderia facilmente ouvir um grito de socorro. Mas o turista desavisado olha o todo, o conjunto, o espetáculo visual horrivelmente musicado, dentro da sofisticada e movimentada Rua Augusta, a oferecer o que existe de melhor para o consumo.

 

 

A estrela, por si só, é um espetáculo à parte. Como é bonitinha e obediente!

 

A que custo terá sido adestrada para representar na imponente Rua Augusta! Quando Lisboa amanhece esplendorosa, todos querem participar da festa da vida lusitana e ninguém se dá conta de que mais um dia de sofrimento está se desabrochando para aquela atriz da Rua Augusta. Logo ela será encontrada no mesmo lugar, na mesma situação dos intermináveis dias passados. É ali que a estrela desvive. 

 

A princípio, trata-se de um fato corriqueiro. Em que lugar do mundo falta uma estrela? Mas o caso da estrela da Rua Augusta é singular para quem olhou no olhar amargurado daquele ser em meio a tantos pés que vão e voltam.

 

Eu a vi pela última vez há cinco anos, mas há pouco tempo um amigo disse que ela continua representando o seu show na Rua Augusta. Foi, então, com tristeza, que constatei que de nada adiantou a sua revolta naquela tarde de outubro de 2003.

 

O sol declinava e, pela primeira vez, a estrela se rebelou. Havia chovido e, ao sair da loja em que me abriguei, fui atraída por um espetáculo diferente.

 

A estrela, que por força de uma sina desprestigiada para a sua espécie, se chama Estrela, pela primeira vez, me pareceu, negou-se a obedecer. Travou os minúsculos dentes para não sustentar a cestinha. Primeiro “sorriu” para Petrus. Atirou os dois cambitos dianteiros na direção dele, que lhe fez um gesto, algo parecido com um afago, coisa estranha num jovem tão sombrio, mas logo a rechaçou.

 

Um observador aproximou-se e Estrela, pela primeira vez, rebelde, coçou várias partes do corpo, e ele, adiantando-se mais, abaixou-se para examiná-la dizendo a Petrus que vira uma pulga no meio de sua curta pelagem castanha.

 

“Uma pulga muito grande”!

 

E ambos puseram-se a examiná-la por um breve espaço de tempo, até que Petrus, irritado, impossibilitado de reiniciar seu lucrativo espetáculo, esbravejou enquanto seus incipientes bigodinhos tremiam. Recolocou bruscamente a cestinha entre os dentes da estrela e começou a exibir com fúria os seus rudimentos musicais naquele acordeom. Seria uma sanfona? 

 

Então, sentindo-se protegida, a estrela desobrigou-se da cestinha encarando o seu dono empedernido, enquanto duas lágrimas há muito contidas brilharam em seus olhos suplicantes.

 

Esbravejando, Petrus recolocou o objeto de tortura entre os dentes da infeliz e retomou o instrumento musical. Então, abrindo desmesuradamente a boca, Estrela emitiu o mais dolorido acorde que um ser de sua espécie poderia produzir… um uivo triste, profundo, cortou a Rua Augusta, naquela tarde de outubro.

 

O homem baixou-se novamente, disse que era por causa da pulga e logo Petrus começou a fechar seu instrumento de horror, a juntar seus demais pertences, as moedas, a cestinha e os três retalhos de papelão em cima dos quais Estrela se apresentava ao público. E puxando aquele ser destinado, desapareceu por entre uma multidão cega, indiferente.

 

Segui rumo à Praça do Comércio levando comigo a minha impotência numa terra estrangeira.

 

Por que fui me lembrar disso hoje, cinco anos depois? É que a Lali está cumprindo pena em sua casinha, porque subiu na mesa e devorou três ovos cozidos. Este olhar contrito dirigido a mim como que a pedir sufrágio pela sua culpa … como parece o olhar da Estrela da Rua Augusta! A estas horas, ela deverá estar encerrando mais um dos seus tristes espetáculos na Rua Augusta de Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ella

Posted in cinema, literatura, literature, narrativa on 27 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Ana Luiza Penha

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Ella sempre corre e  hoje no fim de tarde numa véspera de feriado desvia-se  do menino que chora, do pedinte que insiste, da mulher à beira de parir, da senhora de passos lentos com cachecol de crochê cinza.

 

Sem tempo ou com muito pouco tempo, corre em cima do salto numa maratona em busca do táxi em que esqueceu a mala.

 

Em dia de despedida tudo acontece, mas poucas coisas dão certo. A passagem    de ida na mão e  a lembrança  do  quarto  de teto preto aonde se sentia numa tumba, quando decidiu radicalizar e  deixar para trás a  penúltima morada. Será que alguém sabe aonde será a última?

 

A mudança começou  com  a escolha  da mala, leve de preferência e imensa  para nela caber tudo que significasse saudades.

 

De  cor vermelha tal qual  um coração que  derrama sangue pelas ruas, com discreto lenço branco, um pedido de paz.

 

Gritou, pulou, acenou, alguns poucos solidários no burburinho fizeram coro  com  a protagonista da agonia urbana.  Não teve jeito, a escolha foi  posta, ou viaja sem ou fica desfiando para todos seu drama.

 

De repente era uma mulher só que  perdera o amor e a mala num único dia. No salão de embarque do  aeroporto a última chamada. Começava então a viagem.

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Collage por Marco Aqueiva

REVEJO A TRISTE VALISE DO POETA FEDERICO

Posted in Garcia Lorca, literatura, literature, narrativa, poesia, teatro on 25 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por  Pedro Du Bois

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História recontada

de cantos escuros

submersos aos tempos

recuperados

na estética

 

ética

forma de rememorar

personagens

abreviados de nós

 

o mito transfigurado na realidade

de sonhos transformados em nuvens

férteis na imaginação das crianças

 

o homem em marcha

canta

conta

refaz o caminho

 

refeito o trajeto, o tiro

que matou o poeta

 

o dia

e a noite se faziam escuros.

 

(de As Pessoas Nominadas)

Duas valises entre a morte do poeta e a glória do herói olímpico

Posted in Jogos Olimpicos, literatura, literature, narrativa, Olimpiadas, Pequim 2008, poesia, semiótica on 23 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

A Morte do Poeta

por Cláudia L. Moraes

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Dia desses ganhei uma valise mágica. Lá, coloquei tanta coisa: milhares de sonhos; fantasias envelhecidas e nunca usadas, confissões absurdas de como matar o gato da vizinha que faz um barulho danado à noite, a vontade de que o príncipe que tenho ao meu lado volte a ser sapo e se perca numa lagoa qualquer, ou, até mesmo, beijar um novo sapo para transformá-lo em príncipe, quem sabe. Ah! A delícia da conquista. Achei que deveria guardar dentro da tal valise os meu medos todos: de escuro, de distâncias, de ficar sozinha e o pior deles, o de perder a consciência do mundo que me cerca. Coloquei lá dentro as minhas saudades, meus luares, minhas estrelas, meus amores, meus versos inquietos e, por que não, minha mente de poeta? Pronto! Percebi que tudo o que eu tinha e sentia havia ido para dentro da valise. Fiquei vazia. Então, me joguei dentro dela, que simplesmente desapareceu.

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Uma valise entre o mortal e o herói olímpico

 

 

  

 por Marco Aqueiva

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Chegaram a mesma hora à vila olímpica. Reconheceram-se prontamente para captar de súbito a transformação de ambos. Na fotografia muda da infância, que ele ainda guardava sob silêncio ultrapassado subitamente por uma sensação esquisita e inominada, sempre habitou outra mulher em outra cidade. Ele nascera para a vida. Ela para a glória. Mas se ela antes extremava seu olhar para um novo futuro, para outra direção, que não a da vida acanhada em si mesma, amesquinhada ao redor de marido, filhos, lazer aos domingos com os sobrinhos e a sogra, vida acanalhada sob certezas e ninharias, onde teria então ficado a pré-história da atleta vencedora que outrora carregava no prazer de cada momento todo o corpo e horizonte de que precisava? Não seria eu que a desceria da glória. Fingi que não a reconheci. Em minha valise ainda hoje permanecem os úmidos vapores da velha fotografia contra a lente rachada de meus óculos.

 

 

 

 

Duplamente, valises

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica, trovas on 20 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

: Outro diálogo de Carlos Pessoa Rosa :

Agora com “Valises para a fuga”, de Nilza Amaral

O que significaria? Encontrada entre os escombros de um navio naufragado. Lucas aguardou a resposta do pessoal de bordo que analisou o objeto. Surpreendeu-se com a resposta: uma valise. Vermelho-amarelada característica das colônias do coral-vermelho. O cadeado dourado. E o canto que parecia sair de seu interior… Voz doce e suave. Não havia mastro onde se prender. Mas o desejo foi mais forte que a ordem vinda de cima: Temos objetos mais valiosos que uma valise… O canto abafou as ordens, sentiu uma ardência nas mãos. De quando a atração pelo mistério? Afastou a câmera do objeto e, enquanto distraía os colegas de expedição com louças de porcelana chinesa e talheres de prata, lançou o braço do submarino até a valise, trazendo-a para dentro. Com dificuldade, abriu-a, estava aparentemente vazia. Mas só aparentemente… De dentro, um canto diferente, sombrio, uma narrativa fúnebre, e seres vestidos de faunos e sátiros, presos no fundo da valise como corais nas rochas, figuras nuas com o rosto transfigurado por queimadura e dor, outras com a pele marcada pelos ossos e os olhos esbugalhados na falta. Que horror ou inferno teriam presenciado aquelas pessoas? E Lucas desejou retirá-las dali como fez o Dioniso ao tirar sua mãe, Sêmele, do inferno. Conduzi-los como iniciados à superfície. Haveria o risco de fertilizarem a terra com todo o ódio ali contido, distribuírem a embriaguez e as intrigas entre os homens… E assim envolvido, pensante, Lucas acompanhou o feixe de luz a rasgar as águas em quase gozo. Chegara a hora! Levar a valise à superfície, possibilidade de esparramar o ódio entre os homens. As fases apolíneas matam pelo simulacro, nunca houve saída, a mente é maldoror; sempre.

E quem olhasse Lucas perceberia um estranho cogumelo ocupar suas córneas. Nos lábios, a expressão de imortalidade dos eleitos, seria o soberano e organizador das guerras entre os famintos… Divino! Surgia ali um novo estadista.

 

Trovas de valises a várias vozes

(por poetas da UBT/ASES)

 

Viajo em versos felizes

por esse universo afora

sem precisar de valises…

Com licença, vou-me embora!

        Lóla Prata 

 

***  **  ***

 

Tropeçando pela estrada

o bêbado ri à toa;

beija a valise encontrada

e a lua, muda, o abençoa.

Marina Valente

 

***  **  ***

 

Pra não perder meu dinheiro

e vencer mais uma crise,

peguei tudo bem ligeiro

e guardei numa valise.

Solha – UBT

 

***  **  ***

 

Ao ser pega em flagrante

com a valise da vizinha,

disse: Não sou assaltante!

Eu pensei que fosse minha!

        Wadad Kattar

 

***  **  ***

 

O meu segredo de amor

numa valise guardado,

pode trazer grande dor

se um dia for encontrado.

        Therezinha de Ávila

 

***  **  ***

 

Viajo em versos felizes

por esse universo afora

sem precisar de valises…

Com licença, vou-me embora!

        Lóla Prata 

 

***  **  ***

 

Não preciso de valise,

nem bolsa ou mala, sequer;

viajo aonde precise

nos meus versos de mulher.

        Lóla Prata 

 

 

 

As valises das Alices

Posted in artes plásticas, literatura, literature, semiótica on 18 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Tânia Du Bois

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            O que Alice Brueggemann e Alice Soares levavam em suas valises? Abrindo as valises descobrimos que são duas personalidades que se destacaram a partir dos anos cinqüenta no cenário da pintura e do desenho, lado a lado. Foram duas Alices que com muitas afinidades

completaram trinta anos de convivência artística num mesmo ateliê.

 

            Em 1957, resolveram montar um ateliê, denominado pelo pintor Ado Malagoli de “Aliciano”. Naquela época, em Porto Alegre, não havia galerias de arte e tampouco os trabalhos eram comercializados; daí surgiu a necessidade de se agruparem, passando assim a conviver com uma nova perspectiva.

 

            Dentro da valise de Alice Soares descobrimos que ela se encaminhou para o desenho em crayon e pastéis. Seu tema foi sempre a “criança universal”. Ela as retratou revelando a sua preocupação com a figura da criança. Soares achou a síntese no desenho com força expressiva e pela maturidade alcançada. Seus desenhos parecem seres vivos, porém, não são retratos, mas, sim, vindos do pensamento e de muitos ensaios.

 

            Na valise de Alice Brueggemann vimos que ela se dedicou à pintura a óleo com figuras humanas, paisagens e naturezas mortas. Pintava vários quadros ao mesmo tempo e nunca pensava na cor em si, mas, quando limpava os pincéis, no final da obra, aí sim, verificava a predominância do verde. Ao olhar a sua obra, dizia: “Sou extremamente irrequieta e no meu trabalho vejo uma tranqüilidade que não sei de onde vem. Quem vê, parece uma planta.” Sua filosofia foi de sempre estar “fazendo” quadros, mantendo a emoção e os sentidos em ação. Tinha por lema sempre recomeçar, mesmo com as dificuldades e as guerras que envolvem o ato de criar.

 

            Ado Malagoli revelou o que encontrou dentro das valises das Alices: “Refiro-me as duas Alices, a Soares e a Brueggemann. Seu movimento artístico no nosso Estado (RS) possui características originais, com vida espiritual e processos próprios de desenvolvimento; muito se deve ao ateliê aliciano. Outros valores consagraram como um recanto de desenvolvimento artístico e cultural, freqüentado, como sempre foi, por artistas e intelectuais… No futuro, a crítica saberá, por certo, enumerar todas as fases do desenvolvimento por que passou o ateliê das duas Alices, que enriqueceram sobremaneira a cultura artística do nosso Estado (RS)”.

 

            As bagagens das Alices mal couberam dentro das suas valises, pois, da memória de onde trouxeram a imaginação e dos sonhos que foram a inspiração, surpreenderam-nos na pintura e no desenho. Essa surpresa impôs às telas a força das Alices e, através da beleza de suas obras, que expressam emoção e sensibilidade, encontramos prazer espiritual.

 

            As Alices com suas valises ultrapassaram as fronteiras e hoje suas obras são encontradas nas galerias e nos museus de artes plásticas.  

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Concepção de imagem: Marco Aqueiva

 

 

Brevidades, duas, ao fim de semana

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica on 15 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

           Pessoa Rosa retoma o bilhete dado por Paul Gauguin a Marco Aqueiva

por Carlos Pessoa Rosa 

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tiveram fome de arte… Agora, o desejo de um milagre.  Sem sonhos de viagens e suspiros no estrangeiro. A valise poderia ser a cartola de um mágico. Os mágicos não tiram pombos de suas cartolas? Não! Não roube o suspiro da infância quando os sonhos têm consistência e peso. Haviam caminhado horas, sem rumo e sem prumo, imaginando o que haveria ali dentro. Quando o companheiro fez menção de abrir a valise, ela pousou sua mão sobre a dele, e assim permaneceram… Sentiam muita fome, fazia muito frio, havia muita falta de esperança.  A mulher poderia saciar a fome de corpo que ele exalava, mas sentia-se muito enfraquecida para essa e outras viagens. Franzina e crepuscular, soltou lentamente a mão do companheiro. Acompanhou a abertura da valise. Foi a primeira a mergulhar no vazio. No fundo, um folheto de agência de viagens… E a estampa de Gaugin. Natureza morta. Diante do olhar distante de seu parceiro,  pegou o copo da estampa com as duas mãos, deixou o vapor quente acariciar o rosto, e dividiu o conteúdo com seu homem.

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Crédito de imagem: Pastiche por Marco Aqueiva sobre obra de Paul Gauguin, Femmes de Tahiti sur la plage

 

 

 

 

 

 

      Lembranças a editar

por Marco Aqueiva

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                                    a Heráclito, talvez o primeiro

As duas alças da valise sabem-se

a oito, assim como os dois zeros perdem-se

nos dois olhos perdidos no infinito

Alças na mão, lembranças a editar

que impossível nadar nas mesmas águas

que reviver o extinto, nem mais nada