Duas provas para o rito humano

por Marco Aqueiva

JOGOS OLÍMPICOS OU JOGOS PÍTICOS ?

A terra é redonda, e porque todos os caminhos levam a Delfos, omphalos do mundo, até os de Běijīng 2008, Bárbara, com um brilho que tornava ainda mais arredondados seus olhos, sugeriu que recriássemos, aqui no Valise, os Jogos Píticos, paralelamente aos Jogos Olímpicos de Pequim. Propôs, com seu vaporoso verde-roxo: – por que não podemos, concomitantemente às competições esportivas na China, promover um certame que teste o limite do engenho e arte?

 

E porque é melhor convergir do que entrar em confronto, comecei dando asas violetas ao cenário maduro. Disse-lhe: rebentemos logo pela prova dos 800 metros. Alguém talvez pergunte: Por que os 800 m? A terra é redonda, como os arredondados contornos suaves de Bárbara, e seus oito admiradores atuais ainda a disputam com fome, litorais, ferraris, ilhas, iates, istmos, continentes. Se olharmos ao chão, diz esta bela mulher, é porque a vertemos em sangue. Se mirarmos o alto, é porque entrevemos encontros, passagens, agosto, por uma guerra corporal e amargo exílio.

 

Por outro lado, boa parte de nossos autores atletas, deixando a metafísica no túmulo, já trariam os louros das conquistas na testa imortal. Os autores atletas vivos que decidem participar não escondem um certo incômodo, pois não têm ainda a imortalidade, e sabem que o futuro depende muito mais de contemplação que de alongamento. Uma única vez encontrei Sade e Sá-Carneiro disputando a mesma prova. Quando Bárbara soube, precisei consultar atentamente seus olhos baços para perceber seu choro.

 

Sem uns jogos físico-místico-poéticos, mal suportaríamos o mundo rebentando em seu fluir e refluir a sala e sofá.

 

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por Ana Luiza Burlamaqui

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A MALA DA ASSISTENTE

 

 

Alguns insensatos  sugerem, esqueça esta mala que  arrasta por mais de três décadas em alguma esquina.

 

Propositadamente esqueça-a e não olhe para trás para não transformar-se numa estátua de sal , lave as mãos e siga em frente.

 

Por vezes , quando a dúvida me abarca ao final do dia e revejo as trilhas do ontem, decido que é chegado o ponto final .  Assim como a canção, “cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é”. Apartar-me  de tudo e deixar que alguma pirata de rua lance mão dos segredos dela.

 

Psiu, alguém, você aí, Senhor , Senhora, dama da noite, crianças, adolescentes, por favor dêem conta desta mala e suas verdades.

 

Dos pares de  meias desgastadas pelas longas caminhadas de rua,  dos abraços incompletos pela mutilação da vida, das dores do mundo, dos órfãos da miséria, da escuridão da caverna da ignorância, dos jalecos brancos manchados de sangue pela indiferença, dos presos  em casa, dos  soltos  sem destino,  dos inocentes homens  nascidos na solidão do lixo  das  calçadas.

 

Dos viciados na corrupção, dos desejosos de mudança, dos irmãos que fazem a guerra pelo poder. Dos que esperam e não são atendidos. Dos quem nunca foram bem-vindos. Das leis que não se cumprem, da violência  que encobre a poesia  e a beleza de um dia quente de sol.

 

Por favor não corram errantes, em zigzag pelas calçadas.

 

Há uma mala extraviada, perdida, sem endereço certo,  uma herança de mais de trinta anos esperando para ser libertada do destino de guardar as  coisas do mundo deixada por uma mulher de cabelos de fogo.

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Crédito de imagem: Duchamp

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