Toda a literatura numa valise

 

Toda a literatura cabe numa valise? Uma valise é, reiteramos, nunca um objeto per si. A valise é menos um objeto que um símbolo, portadora que é de um conhecimento sobre nós mesmos e sobre nossos semelhantes. Valise por onde uma parte significativa da totalidade pode desvelar-nos a nós mesmos por meio da ficção ou daquele autor de que nos servimos com prazer e admiração. Por esse pressuposto estendem-se os caminhos traçados por este projeto até o momento.

 

Completamos com esta 35 postagens, mais de 50 textos publicados, em que, para cada texto tem sido associada uma imagem, com toda sensibilidade, e arbitrariedade não fosse a verdade residir no poço de nós mesmos. Às colaborações de textos ficcionais (poesia e prosa) em que a valise é tema, acrescentamos há pouco a proposta de escrever sobre a valise de um autor, desvelando-lhes os segredos.

 

Convém ainda provocar: – Toda a literatura pode mesmo caber numa valise? Parafraseando algum grande autor, toda a biblioteca de Alexandria coube na frasqueira daquele que guarda a sorte deste mundo mal segura. Toda a literatura enunciada cabe na valise daquele que anuncia seu prazer pela literatura, elegendo seus autores preferidos e experimentando, no branco da página e da linguagem, os mistérios cerrados na valise. Mistérios da natureza humana.

 

Participem escrevendo seja uma valise ficcional, absolutamente desgarrada de quaisquer restrições ou limites, seja um texto de leitor apaixonado por um autor cuja valise se quer desvelar.

 

Nesta data registramos as colaborações de Dirce Lorimier e Aparecido José Carlos Nazário, que estréiam no Projeto.

 

Boa viagem!

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A VALISE DE NELSON RODRIGUES

por Aparecido José Carlos Nazário

 

Nelson Rodrigues, tendo em mente a crítica social que sustentava a virulência de seus textos, levaria em sua valise um “vestido de noiva” pertencente a uma jovem “bonitinha, mas ordinária”, a qual, durante sua trajetória, mesmo tendo sido “engraçadinha”, carregava o veneno de uma “serpente”. Além desse vestido, Nelson levaria também uma dose de veneno letal que serviria para exterminar os bons desejos de uma sociedade que não compreendia que apodrecia em decorrência da utilização de uma máscara que a impulsionava a um mundo de fantasias que parecia confortável em sua estrutura. No entanto, o veneno que Nelson portava em sua valise, acompanhado do vestido que desencadeava as mais variadas lembranças, ajudava a   conscientizar esse extrato social de que a vida era como ela deveria ser.  Nenhum profeta poderia salvar do mal aqueles que já tinham se condenado devido às práticas inconsequentes que apareciam retratadas em um “álbum de família” desbotado pelo tempo. Certamente, devido ao peso de sua crítica, Nelson carregaria a responsabilidade do incômodo, além da inquietação e do desconforto que provocaria em seus leitores, os quais seriam transformados pelo simples fato de abrirem a valise e se depararem com o vestido, uma vez que os planos da realidade, memória e alucinação lançariam a eles um novo desafio ao tentarem compreender o universo labiríntico no qual seriam inseridos.         

 

por Dirce Lorimier

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A frasqueira

 

Não é propriamente uma valise.

É uma frasqueira vermelha, novinha ainda.

Está fechada há dezenove anos.

Não me atrevo a abrir.

Temo rever a fortuna que Laura guardou ali.

 

Brigou comigo, a pequenina, e disse que ia embora.

Até nunca mais.

Por quê? ora por quê! Isto não importa agora

O que importa, como me ocorreu naquela manhã,

Encarando aqueles olhos irados e vermelhos,

É que se desabrochava ali a personalidade de uma mulher

Obstinada.

 

Hoje quando me refiro à frasqueira, ela apenas sorri.

Não demonstra desejo de abri-la.

Sei que a maior fortuna que guardou ali

Foi uma peninha branca que ela perseguiu no parque,

Brigando com o vento que a levava cada vez mais longe dela.

Ainda vejo suas perninhas grossas, bem torneadas

Correndo pelo gramado, querendo me presentear com aquela

Pena voadora.

 

Seus lindos cabelos loiros eu os vejo ainda dançando pelo parque…

Finalmente, ela venceu e me entregou sorrindo o meu troféu. 

Havia uma avó feliz.

 

Mas naquela manhã de domingo a menina se impôs como uma

criança determinada.

Lembro também que ali estão algumas jóias

da Arábia Saudita.

“Todas as jóias que você ganhou do seu namorado, vó!

É tudo meu! A peninha branca também!”

 

Sementes coloridas, verdes, vermelhas…

O que mais tem ali?

Ali está presa para sempre a nossa eterna cumplicidade

uma criança determinada e às vezes egoísta

uma vovó que aprendeu a ver nos pequenos gestos

motivos para olhar para trás e sorrir.

 

 

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Crédito de imagem neste último texto: Romain polgatroïd em

flickr.com/photos/xyotiogyo/2411311170/

 

 

 

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