A Estrela da Rua Augusta

 

 

por Dirce Lorimier

 

 

Nas minhas viagens, observo fatos corriqueiros, e vou armazenando-os na minha valise de recordações. De algumas não consigo me esquecer.

 

 

Lá no Rossio, mais propriamente na Rua Augusta, existe uma “super star”. E não há turista que não se encante com sua performance, sob a batuta de Petrus, seu jovem empresário. Tornou-se um fato corriqueiro e não desperta interesse aos lojistas locais, nem pela façanha da estrela, nem pelo vaivém do fole tangido sem mérito musical. Fremindo sem dó aos ouvidos da estrela, completa o espetáculo em que ela segura com as mandíbulas uma cestinha em que os turistas, inadvertidamente, colaboram com o aumento de sua pena e com sustento do seu empresário insensível.

 

Encantados com a sua resignada fidelidade, um a um, os turistas vão aumentando com euros o peso da cestinha, apesar do sofrimento estampado nos olhos da estrela. E a turba passa indiferente.

 

Fica ali horas e horas intermináveis numa mesma posição que só é relaxada quando a cestinha, repleta de moedas, é retirada para esvaziar. Nesse momento, a estrela pode abanar a pequena cauda, mexer o corpinho exausto, sendo possível observar nela um leve movimento com a cabeça, como que agradecendo ao seu sisudo algoz.

 

Sempre em silêncio e, como todo ser em desvantagem, fala pelo olhar. Como falam os olhos dela! Ao olhar para o seu olhar, o turista poderia facilmente ouvir um grito de socorro. Mas o turista desavisado olha o todo, o conjunto, o espetáculo visual horrivelmente musicado, dentro da sofisticada e movimentada Rua Augusta, a oferecer o que existe de melhor para o consumo.

 

 

A estrela, por si só, é um espetáculo à parte. Como é bonitinha e obediente!

 

A que custo terá sido adestrada para representar na imponente Rua Augusta! Quando Lisboa amanhece esplendorosa, todos querem participar da festa da vida lusitana e ninguém se dá conta de que mais um dia de sofrimento está se desabrochando para aquela atriz da Rua Augusta. Logo ela será encontrada no mesmo lugar, na mesma situação dos intermináveis dias passados. É ali que a estrela desvive. 

 

A princípio, trata-se de um fato corriqueiro. Em que lugar do mundo falta uma estrela? Mas o caso da estrela da Rua Augusta é singular para quem olhou no olhar amargurado daquele ser em meio a tantos pés que vão e voltam.

 

Eu a vi pela última vez há cinco anos, mas há pouco tempo um amigo disse que ela continua representando o seu show na Rua Augusta. Foi, então, com tristeza, que constatei que de nada adiantou a sua revolta naquela tarde de outubro de 2003.

 

O sol declinava e, pela primeira vez, a estrela se rebelou. Havia chovido e, ao sair da loja em que me abriguei, fui atraída por um espetáculo diferente.

 

A estrela, que por força de uma sina desprestigiada para a sua espécie, se chama Estrela, pela primeira vez, me pareceu, negou-se a obedecer. Travou os minúsculos dentes para não sustentar a cestinha. Primeiro “sorriu” para Petrus. Atirou os dois cambitos dianteiros na direção dele, que lhe fez um gesto, algo parecido com um afago, coisa estranha num jovem tão sombrio, mas logo a rechaçou.

 

Um observador aproximou-se e Estrela, pela primeira vez, rebelde, coçou várias partes do corpo, e ele, adiantando-se mais, abaixou-se para examiná-la dizendo a Petrus que vira uma pulga no meio de sua curta pelagem castanha.

 

“Uma pulga muito grande”!

 

E ambos puseram-se a examiná-la por um breve espaço de tempo, até que Petrus, irritado, impossibilitado de reiniciar seu lucrativo espetáculo, esbravejou enquanto seus incipientes bigodinhos tremiam. Recolocou bruscamente a cestinha entre os dentes da estrela e começou a exibir com fúria os seus rudimentos musicais naquele acordeom. Seria uma sanfona? 

 

Então, sentindo-se protegida, a estrela desobrigou-se da cestinha encarando o seu dono empedernido, enquanto duas lágrimas há muito contidas brilharam em seus olhos suplicantes.

 

Esbravejando, Petrus recolocou o objeto de tortura entre os dentes da infeliz e retomou o instrumento musical. Então, abrindo desmesuradamente a boca, Estrela emitiu o mais dolorido acorde que um ser de sua espécie poderia produzir… um uivo triste, profundo, cortou a Rua Augusta, naquela tarde de outubro.

 

O homem baixou-se novamente, disse que era por causa da pulga e logo Petrus começou a fechar seu instrumento de horror, a juntar seus demais pertences, as moedas, a cestinha e os três retalhos de papelão em cima dos quais Estrela se apresentava ao público. E puxando aquele ser destinado, desapareceu por entre uma multidão cega, indiferente.

 

Segui rumo à Praça do Comércio levando comigo a minha impotência numa terra estrangeira.

 

Por que fui me lembrar disso hoje, cinco anos depois? É que a Lali está cumprindo pena em sua casinha, porque subiu na mesa e devorou três ovos cozidos. Este olhar contrito dirigido a mim como que a pedir sufrágio pela sua culpa … como parece o olhar da Estrela da Rua Augusta! A estas horas, ela deverá estar encerrando mais um dos seus tristes espetáculos na Rua Augusta de Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

 

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3 Respostas to “A Estrela da Rua Augusta”

  1. Pobre Estrela.Como toda as estrelas seu brilho ofuscou-se na impotência, e a frase, “o silencio dos que est

    “COMO ODO O SER EM DESVANAGEM ESTRELA CALA-SE”, COMO TODA A ESTRELA TEM SEU BRILHO FINITO, A ESTRELA MORRE. E MESMO DEIXANDO SEU BRILHO NO FIRMAMENTO AS ESTRELAS SOMEM. TALVEZ POR ISSO AS ESTRELAS CELESTES E HUMANAS ASSIM SE CHAMEM.TEXTO TRISTE E PLENO DE METÁFORAS. TEXTO PARA REFLEXÃO.

  2. Nilza:

    Não há, parece-me, mais dilaceramento que sentir-se impotente em meio à indiferença, não é mesmo?

    Marco

  3. Procurando uma imagem, vim dar ao seu blog. Comoveu-me tanto o texto, quase cheguei às lágrimas… Porque gosto demais dos animais e essas cenas de “aproveitamento artístico” de algum deles sempre me tocam de forma dolorida.
    O que terá acontecido a Estrela?… Também tenho uma Estrela em casa, cega – de nascença, e não de “vista limpa” como esses que passam pela Rua Augusta de Lisboa… Triste.
    Parabéns pelo texto e pelo olhar.

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