Arquivo de setembro, 2008

REclaME da VAliSE BILDHAUER

Posted in conto, literatura, literature, narrativa on 30 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Tânia Du Bois

 

 

A  nova  marca  de  valise,   Bildhauer,   leva  ao  mundo  a   ousadia  estética   e   o compromisso social: investimento (a respeito da diversidade de cores, tamanhos, modelos e preços).

A valise Bildhauer é apaixonante e busca a permanente superação das concorrentes, objetivando transformar as viagens,  os  passeios  e  os   encontros  em   elementos essenciais para o dia-a-dia.

Aos poucos a moda movimenta mais valores e curiosidade. De olho nisso, criamos um manual de estilo de viagens para as pessoas bem-sucedidas. Entre os destaques, a valise Bildhauer como perfeita receita: couro modelado.

Apresentamos o top de linha em termos da autenticidade do produto, sua ousadia e praticidade. Podemos sempre associar a expressão “Quanto menos, é mais” e ficarmos convencidos de que isso é verdadeiro também quando da aquisição de uma valise Bildhauer, porque a sua performance é diretamente influenciada pela relação entre tamanho e beleza.
O design da valise Bildhauer é moderno e prático;  um  pouco  mais  larga  para acomodar os segredos dos seus proprietários. Permite aos compradores um efeito além da simples suficiência; com pressão, permite viajar e andar “de cabeça para baixo” – viver na pura ficção; isso será possível… tentar alcançar a vida que escapa pelos ponteiros dos relógios que nós insistimos em adiantar.
Comprada a valise: vontade de viajar. Encontrar-se nas reflexões, sensações, instantes e recarga de energias. Descanso. Paz. Pausa. Nada complicado, apenas os momentos em que nos deliciamos com as recordações das últimas férias, do novo amor, do aumento de salário e do novo livro.

Onda? Na verdade, não se trata de moda, de algo passageiro: o hábito de usar valise Bildhauer está instalado nas mais diversas partes do mundo. Especialistas dizem que o principal fator foi a tomada de consciência dos cidadãos a respeito da praticidade de se levar uma valise –  especialmente em relação ao sobrepeso: em tempos modernos a bagagem de mão, como é carinhosamente chamada, está em alta, porque facilita e agiliza os embarques e desembarques. Mas essa explicação não basta! Em todas as situações a valise Bildhauer tem a leveza de quem não precisa de outros efeitos para ser marcante.

Esse é o segredo do sucesso da valise Bildhauer, ela é cuidadosamente esculpida para você.

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 Imagem: Valise and “Ad Parnassum”, de Paul Klee

ÚLTimo DeSeJO

Posted in arte, conto, literatura, literature, narrativa, semiótica on 25 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Carlos Pessoa Rosa

Resolvi abandonar o barco, ouvir as sereias – deixarei que acreditem que me seduziram. Levarei comigo uma valise. Dentro dela o vazio absoluto. Na boca, algumas moedas que darei ao velho Caronte. Espero que me escolha a acompanhá-lo na longa travessia pelo rio de águas turbilhonantes. Para tanto, deixo longo relatório como último pedido onde descrevo com minúcias meu funeral. Contratei um artista plástico para desenhar na valise, em pigmento vermelho, a barca de Caronte sobre as águas salobras do rio. Levo na boca algumas moedas cunhadas em ouro, com o rosto de barba branca e longa do deus, vestido em roupa manchada do negro limo do rio. Não quero vagar cem anos nas margens do rio Aqueronte. Nem pensar! Céu e inferno, já os vivenciei intensamente por aqui mesmo. Agora, quero chegar ao destino final, abrir a valise, libertar o vazio absoluto e degustá-lo como especiaria rara – nem pensar em levar livros ou personagens literários… Na próxima reencarnação, quero ser abismo ou vento. Só me falta tomar essas pílulas…

Imagem: collage por Marco Aqueiva a partir de Gustave Doré, inscrição em vaso grego e olho obtido no portal Flick.

Baú de Adília

Posted in conto, literatura, literature, narrativa, semiótica on 23 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Adriana Versiani

Adília, por ser contida, tinha apenas um baú asteca na sala.
Lá guardava os chocolates. Muitos gatos habitavam a casa e, por ser contida, não os enterrava. A terra, pensava, fazia mal aos ossos.
Todas as sete vidas, as depositava no baú. Adília se alimentava com chocolates e chá de ervas que cultivava nas hortas improvisadas nos pneus. Os gatos a habitavam e alguém chegando os arranhava a todos. Um dia, por ser contida, jogou-se dentro de um saco e rolou até o rio.

 

 

Adília, por ser contida, tinha desejos secretos e hábitos estranhos. Pensava que durante o sono alguém a via e esse alguém que a via também dormia, mas a tocava. Desejava preencher todos os espaços, tinha horror ao vazio. Na sala, apenas um baú asteca onde habitavam as vidas passadas dos gatos. Adília não se lembrava dos seus sonhos e, pela manhã, fervia água para fazer o chá de ervas que colhia dos pneus. Por ser contida, seus pensamentos giravam rápido e, de tempos em tempos, se repetiam. Um dia, jogou-os num saco e os guardou no baú.

 

 

Adília, por ser contida, trazia quando menina um cristal entre os dedos. Pequenino, ele já podia transformar as coisas. O velho, que habitava a sala, zombava dela por sempre pensar o verbo transformar. Ainda não existiam os gatos, mas os pneus estavam todos lá. Na casa de paredes vazias havia um perfume de ervas. Adília vigiava a luz branca atravessar seus dedos e iluminar o cristal. Acreditava que tinha mágica e pensava o verbo transformar que o habitava. Luz branca e transparência. Contida, via cores no cristal. Um dia, jogou-as num saco e as enterrou no quintal.

Imagem: Collage por Marco Aqueiva a partir de Magritte e Aaron Rayburn

VaLiSe VElha e cuRIOsos novos

Posted in arte, duchamp, literatura, literature, narrativa, semiótica on 21 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

                     por Nilza Amaral

Eu sou uma valise. Certo que minha fechadura não é das melhores. Vive defeituosa e várias vezes me deixou exposta a olhares curiosos. Meu conteúdo não é muito interessante. Fotos amareladas, pensamentos pornográficos escondidos dentro de potes de maquiagem, beijos que roubei ao longo do percurso, cartas anônimas escritas por vingança, cheques roubados e não utilizados com receio de punições arbitrárias, e cartas de amor fora de moda. Não tenho grife. Meu modelo não atrai os mais afortunados e os pobres de espírito sempre me largam ao acaso. Se você me encontrar,  jogue fora tudo o que tenho por dentro e me presenteie com novos horizontes e poentes avermelhados cor de sangue de inocentes. Talvez possa me presentear com pátria amada, chefes de estado honestos, sem a ambição já declarada por Shakespeare em todas as suas tragédias, ou me conseguir atestados de idoneidades de irmãos rivais livres de fratricídios  bíblicos, uma escritura paga de uma bela mansão em condomínio de luxo no alto de uma montanha isolada, de onde seja impossível avistar pobres de espíritos e mortos de fome. Certa vez tive uma esperança. Uma ninfeta de roupas de laicra, pronta para as corridas da juventude, resolveu me vasculhar. Com um alicate de unhas afiadas desvirginou-me de minha fechadura emperrada. Perdeu horas com cartas amareladas pelo tempo,  de um amor antigo quando se morria de paixão, e todas as palavras concordavam significado e significante. Nada entendendo do código absurdo atirou ao ar as palavras do amado e da amada, que pipas esvoaçantes pairaram no ar por certo tempo e em seguida despencaram-se no mar de asfalto das avenidas. Outro aventureiro estuprador de valises, forçando a fechadura já violentada, descobriu fotos em sépia e evadiu-se aterrorizado atribuindo ao suposto dono do objeto o adjetivo de ladrão de túmulo. As valises encanecidas só abrigam surpresas se esquecidas debaixo de um banco de trem, ou à vista em bancos de jardins. Se tem aparência de aparatos terroristas, causam medo e permanecem intocáveis mesmo com fechaduras viciosas; porém, se encontradas por habitantes dos planetas viadutos, ou por mortos de fome de cartões postais da vida, estão expostas ao perigo de ter revelados seus segredos comprometedores para a humanidade. Todo invólucro de segredos é perigoso, principalmente quando o conteúdo é amor. E então, eu, valise sem atrativos pendentes,  permaneço semi-aberta, esperando por bisbilhoteiros interessados em descobrir tesouros perdidos. ´

Collage por Marco Aqueiva a partir de imagens obtidas em

http://www.flickr.com/photos/sfduggan/2229061582/

http://www.toutfait.com/issues/issue_1/News/images/BoxInValiseBIG.jpg

a Valise de Saramago

Posted in Blindness, Cordel, ensaio sobre a cegueira, José Saramago, literatura, literature, narrativa, poesia on 20 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

SaRaMaGo em CORDEL na VALISE

 

           por GUSTAVO DOURADO

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José de Sousa Saramago

Foi mecânico…serralheiro

Desenhista, funcionário

Comunista timoneiro…

Um ateu que crê na vida:

Romancista, joalheiro…

 

Mestre José Saramago:

Dramaturgo e Escritor

Poeta e jornalista

Grande realizador…

De Portugal para o Mundo:

Romancista…Criador…

 

Em Azinhaga, nasceu:

No Ribatejo,Portugal

A 16 de novembro:

Deu-se o ato natal

Em 1922:

Tornou-se um ser real…

 

Ganhou o Prêmio Nobel

Por sua Literatura…

Prosador experiente

Transmutou a escritura

Buscou a Revolução:

Sem perder sua ternura…

 

Exerceu o Jornalismo

Ao Pessoa sempre leu

Romanceou o Poeta:

Sua arte bem teceu…

Muitos nele acreditam:

Mesmo sendo ele ateu…

 

Em 1946:

Publica “Terra do Pecado”

O seu primeiro romance:

Aos 25…foi editado…

Teve início a carreira:

De um escritor consagrado…

 

“Flor silvestre dos escombros”:

Mago da Literatura

Leu Camões, Eça, Vieira

De Machado fez leitura

“Poética dos Cinco Sentidos”:

Verve de poesia pura…

 

Gil Vicente…Fernão Lopes:

Saramago estudou…

Camilo, Almeida Garret

Sempre leu e pesquisou

A boa prosa portuguesa:

Saramago consultou…

 

“Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido”:

O Canto da Ilha Desconhecida

Cadernos de Lanzarote

Nas artimanhas da vida

Ensaios Sobre a Lucidez:

Uma obra destemida…

 

Manual de Pintura e Caligrafia

Tem boa elaboração

Memorial do Convento

E “Levantado do Chão”

Ensaio Sobre a Cegueira:

Clareia a nossa visão…

 

O Ano da Morte de Ricardo Reis

E “O Homem Duplicado”

Todos os Nomes…A Caverna:

Tenho sempre consultado…

História do Cerco de Lisboa:

Na estante está guardado…

 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Toca o meu coração…

Viagem a Portugal

Desperta-me a criação

Com “A Jangada de Pedra”:

Fiz longa navegação…

 

Fez “Os Poemas Possíveis”:

“Provavelmente Alegria”…

“Deste Mundo e do Outro”:

Fez da prosa a poesia

“As Opiniões que o D.L teve”:

“In Nome Dei”…Fantasia…

 

Que farei com este Livro?

“Objecto Quase”…Adiante

A Noite…Os Apontamentos:

“A Bagagem do Viajante”…

“A Segunda Vida de Francisco de Assis”:

Saramago sempre avante…

 

“O Ano de 1993”:

Saramago empreendeu…

No Partido Comunista

Ele nunca arrefeceu…

Crítico do Capitalismo:

Ao Homem não esqueceu…

 

Preocupa-se com a Língua:

É firme em sua mensagem

Quer um Mundo bem melhor:

Além da Terceira Margem…

Saramago nos encanta:

Com os mistérios da linguagem…

Crédito de imagem: Pasticho por Marco Aqueiva a partir de http://www.flickr.com/photos/19759839@N00/979651342/

Uma Valise para Lourenço Diaféria

Posted in conto, crônica, literatura, literature, lourenço diaféria, narrativa on 18 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

por Marco Aqueiva

Guardou o jovem palestrante na valise o enxaguante bucal. Falava animadamente para a platéia que se incomodava com o odor de suor. Auditório muito grande para público tão diminuto, abriu novamente a valise e dela retirou então o spray de bom ar. Chegou um sujeito trôpego, camisa rasgada, paletó sem a manga direita e com ligeiras escoriações por todo o corpo. Foi retirado porque, de sunga, estava obviamente em trajes inadequados. Difícil mesmo foi retirar sua acompanhante Lola, que se apresentava às vezes Lili e se chamava Onésima. Esmagada pelo peso do nome, bem acomodada na cadeira, já tinha sorvido duas doses de white horse com o ciclista. As ariranhas, bichinhos dóceis e simpáticos, saíram logo depois levando o boné do guardador de carros, seguido de seu tratador, um tal de Vampiro de Osasco, e do mestre que nos deixou: Lourenço Diaféria.

VaLe, VaLiSe

Posted in literatura, literature, poesia, semiótica on 16 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

por Nestor Lampros

Vala, que vale, que lata, late do vate.

Que saibamos obstruir um olho,

o cão da noite, que recobre a foice escarlate.

É na hora da morte, a sombra sobra aparente

na moita do homem que mente

dentro do que vale, valises inoperantes.

Do antes, o pós,

que entre na fonte aparente

do sempre

relutantemente.

Na dobra florada no ente

que equilibra nos ombros a noite

– sós, nós.

 

Vale  a valise do estro,

armado de facas no seio arfante;

gás inoperante, lontra

quadrada no monte,

fazendo diques de águas de cirros,

cantando versos dentro da noite.

 

– Vale, valise!

 

E dentro do dentro um ontem,

caminha circunspecto na mola

assaz rompante.

Dentro do filtro da gente

tornando-se

tromba de chuva fina e fria

cortante,

náutilo viajável – viajante

dos séculos antes.

 

-Vale, valise, vale!

 

Entre a noite e outra vale a

valise,

dentro

e constante

cortante

na noite sempre

relutante

fugaz,  gás.

 

– Vale valise,

Vale!

 

A planície exata

do onde:

Noite

Noite

Noite

Onde?

 

Imagem: Dynamism of a Soccer Player (1913), de UMBERTO BOCCIONI.