VALISE: OS DIÁRIOS DE VIRGÍNIA WOOLF

 

por Tânia Du Bois

 

 

Espiando sua valise, encontramos o livro “Os Diários de Virgínia Woolf”, que foi o seu último trabalho, póstumo, a vir a público, em edição integral, em 1977. É boa leitura e boa literatura, por que, apesar do título, é uma obra ficcional.

 

A autora quis que ele fosse “uma espaçosa mochila, onde a gente joga uma grande quantidade de miudezas sem nenhum critério…”

 

Seria pedir demais que Virgínia Woolf se limitasse aos fatos, documentando o seu cotidiano, pois, no “Diários”, o que importa é a maneira como foi descrito; como era a sua convivência com a nata da intelectualidade de seu tempo. Ao descrever essas personalidades ela sempre pensou em utilizá-las como pretexto para compor os tipos, e não em as retratar.

 

Segundo Marília P. Fiorillo: “Virgínia Woolf não precisava contar o que sabia no livro que escreveu para si própria. Sua autobiografia é a sua escrita”.

 

Virgínia era amiga das delícias do mundo e uma das mais prodigiosas escritoras da língua inglesa.

 

Pedro Du Bois acrescenta à valise de Virgínia a sua grandiosidade e a sua finitude, através do poema “Águas para Virgínia”:

 

 

 

             “Houve razões para você entrar

 

             no rio e submergir em suas águas

 

             escuras maneiras de dizer adeus

 

 

 

             o corpo descoberto encoberto preso ao fundo

 

             pedra lapidada ao extremo da consciência

 

             passos decididos um após o outro

 

             sem arrependimento ou sofrimento a morte

 

             se apresenta com seus fantasmas zombam

 

             da nossa fraqueza e no que riem alentam

 

             as forças com que nos apagamos e seguimos

 

 

 

             fria a água que acolhe o corpo na entrada

 

             e se desdobra na frieza da alma trazida

 

             pela vida mínima e o olhar absorto morto

 

             ultrapassado em sua disposição de estar viva

 

 

 

             houve razões para que a água cobrisse

 

             a imagem refletida na entrada

 

             como pedra submergisse e no fundo

 

             o lodo galhos retivessem a última

 

             vontade em que se transfigurou a sua face.”

 

 

Valise-collage por Marco Aqueiva

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3 Respostas to “VALISE: OS DIÁRIOS DE VIRGÍNIA WOOLF”

  1. Du Bois mostra, mais uma vez, sua ótima sensibilidade na poesia, nada obstante ter começado a tratar dessa arte há pouco tempo. Parabéns!

  2. Querida Tânia, esta valise úmida de Virginia Woolf, nos dá uma imersão de claridade, com Ela(s) seguimos eculpindo horas, feito ondas em intimidades com Mundos.

    Parabéns!!!

    Um abraço,
    Carmen Silvia Presotto

  3. Caríssimos Genivaldo e Carmen:

    Tânia e Pedro convocam Virginia, que abre uma galeria de espelhos. A escrita sobre a escrita, crítica, intertextualidade, é como uma porta giratória, faz-nos coparticipantes da senda literária, junto ao autor.

    Abraços,

    Aqueiva.

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