Uma valise nas entrelinhas do palco

  

Qual o lado da noite que umedece primeiro.

 

                   por José Geraldo Neres

                  

E disse assim: conduza meu corpo. Confio em você, já disse isso antes. Não devia. O risco é todo seu, não me culpe depois. Aperte um pouco mais. Mais.  A luz está atrapalhando. Acompanhe a luz. Não preciso disso. Piedade? O público e as crianças não conhecem essa palavra, piedade. Hoje, quero ser o outro, o que perde o corpo, e se deixa afundar na escuridão. O palco é assim? Não. Não há retorno. É engraçado, não consigo esquecer um verso de Manoel de Barros: Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas. O que há de engraçado nisso? Nada, apenas deu uma vontade de rir. Quando colocava os pés no palco do teatro, ria: era o medo. Controle-se. Já que gosta desse poeta, lembre também dessas palavras: o dia vai morrer aberto em mim. Por que isso agora? Não queria conhecer o outro lado da luz, me acompanhar na cegueira? Você chegou na hora exata. Não tenho relógio. O homem é um poço escuro. Procure uma saída. Talvez esteja ao seu lado, mas quem pode garantir isso? O abandono me protege. Chega de poesia. Se controle. É a última vez que aviso. Posso sair e ninguém sentirá minha falta, nem saberão que você ficou aqui. Quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada. O público ou a criança? Não sei. O que é ser criança? Não tive infância. Nasci no palco. Palco. Por que não responde? Estou falando com você. Você está aí? Não sinto sua respiração. Lembre-se do poeta: não pode haver ausência de boca nas palavras. Sou um erro da natureza? Tenho cicatrizes. Não faz sentido ter sentido. Não preciso do fim para chegar até você. Onde é a saída? Atrás do meu sorriso existe dor, e medo. Importa-se? Ainda não está escuro. Não venha falar que sua força vem de suas derrotas. Não está escuro. Não é verdade. Meu corpo está exposto e dormente. Não esconda suas feridas. Não tenho mais que cem palavras, nunca entrei num cemitério, nem dancei na chuva, e nem me lembro como cheguei neste lugar. Não sei rezar. Crianças, é preciso? Solte um pouco mais o corpo. Um pouco mais. O corpo. Reconhece essa voz? Não tenha medo. Caminhe. Caminhar. Não pense em anjos. O escuro enfraquece os olhos. Incline o corpo. Sei onde está a saída, sou muitas pessoas. O palco desenha vozes no meu corpo. As crianças pensam que sou uma árvore. Encontrei uma parede. Uma repetição de paredes. Paredes. Paredes. Onde está a janela? Meus olhos. Qual a razão de possuir olhos? Crave as suas garras e abandone esse disfarce de sombras. Deixe suas unhas perderem-se na minha pele. Não te culpo de nada. Estamos entre quatro paredes, e em nossos corpos nascem as raízes da distância. Conduza meu corpo.

 

 

 

Livre diálogo com a poesia de Manoel de Barros.

 

Crédito de imagem: Collage à base de René Magritte, por Marco Aqueiva

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4 Respostas to “Uma valise nas entrelinhas do palco”

  1. Obrigada José geraldo por este diálogo com Poesia, com a Vida e por não nos deixarmos adormecer pelas adulteriladaes dos tempos.
    Sim!
    Todos nascemos úmidos, nascemos, todos, crianças.

    Um abraço.
    Carmen Silvia Presotto

  2. Neres

    Entre nós e nós, o real cotidiano insuspeito, palavras que guardam inconsciência e medos ilegíveis à boca. Sim, estamos em quatro paredes, e em nossos corpos nascem as raízes da distância.

    Marco

  3. (Um complemento talvez desnecessário)

    Lembra-me um poema de Cesariny, como se um gênio ou uma sibila soprasse-me aos ouvidos, o desejo de uma palavra tocha em direção a nós:

    “Entre nós e as palavras, os emparedados
    e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.”

    Mário Cesariny de Vasconcelos – “You are welcome to Elsinore”

  4. Betty Vidigal Says:

    Tinha recebido este texto do Neres por e-mail e comentado com ele. Belo! E um dos melhores títulos q já li!

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