VaLiSe VElha e cuRIOsos novos

                     por Nilza Amaral

Eu sou uma valise. Certo que minha fechadura não é das melhores. Vive defeituosa e várias vezes me deixou exposta a olhares curiosos. Meu conteúdo não é muito interessante. Fotos amareladas, pensamentos pornográficos escondidos dentro de potes de maquiagem, beijos que roubei ao longo do percurso, cartas anônimas escritas por vingança, cheques roubados e não utilizados com receio de punições arbitrárias, e cartas de amor fora de moda. Não tenho grife. Meu modelo não atrai os mais afortunados e os pobres de espírito sempre me largam ao acaso. Se você me encontrar,  jogue fora tudo o que tenho por dentro e me presenteie com novos horizontes e poentes avermelhados cor de sangue de inocentes. Talvez possa me presentear com pátria amada, chefes de estado honestos, sem a ambição já declarada por Shakespeare em todas as suas tragédias, ou me conseguir atestados de idoneidades de irmãos rivais livres de fratricídios  bíblicos, uma escritura paga de uma bela mansão em condomínio de luxo no alto de uma montanha isolada, de onde seja impossível avistar pobres de espíritos e mortos de fome. Certa vez tive uma esperança. Uma ninfeta de roupas de laicra, pronta para as corridas da juventude, resolveu me vasculhar. Com um alicate de unhas afiadas desvirginou-me de minha fechadura emperrada. Perdeu horas com cartas amareladas pelo tempo,  de um amor antigo quando se morria de paixão, e todas as palavras concordavam significado e significante. Nada entendendo do código absurdo atirou ao ar as palavras do amado e da amada, que pipas esvoaçantes pairaram no ar por certo tempo e em seguida despencaram-se no mar de asfalto das avenidas. Outro aventureiro estuprador de valises, forçando a fechadura já violentada, descobriu fotos em sépia e evadiu-se aterrorizado atribuindo ao suposto dono do objeto o adjetivo de ladrão de túmulo. As valises encanecidas só abrigam surpresas se esquecidas debaixo de um banco de trem, ou à vista em bancos de jardins. Se tem aparência de aparatos terroristas, causam medo e permanecem intocáveis mesmo com fechaduras viciosas; porém, se encontradas por habitantes dos planetas viadutos, ou por mortos de fome de cartões postais da vida, estão expostas ao perigo de ter revelados seus segredos comprometedores para a humanidade. Todo invólucro de segredos é perigoso, principalmente quando o conteúdo é amor. E então, eu, valise sem atrativos pendentes,  permaneço semi-aberta, esperando por bisbilhoteiros interessados em descobrir tesouros perdidos. ´

Collage por Marco Aqueiva a partir de imagens obtidas em

http://www.flickr.com/photos/sfduggan/2229061582/

http://www.toutfait.com/issues/issue_1/News/images/BoxInValiseBIG.jpg

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Uma resposta to “VaLiSe VElha e cuRIOsos novos”

  1. Marisa Carvalho Says:

    Adorei !!!!!!!!

    É assim mesmo que as coisas acontecem !!!!!!!!!!

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