Nosso guri na valise

por Ana Luiza Penha

Papel pesa e muito, descobri  nas muitas viagens feitas. Pesa muito mais quando o papel que abriga tudo, não garante o que nele contém,  sejam promessas em carta de amor,  pedidos de perdão, desculpas esfarrapadas ou códigos quebrados numa época em que a vida humana tem tão pouco valor perante a lei, tão pouca consideração diante dos estatutos criados.

No fundo da valise transitando pelas Prefeituras, Governos de Estado, Secretarias de Estado, estabelecimentos de ensino públicos, professores, Conselhos Tutelares vigora o Estatuto da Criança e Adolescente, num país onde as crianças e adolescentes de periferia temem pelo futuro.

Uma população crescente e crescendo à margem da sociedade que lhe nega o direito à educação, oferece precários recursos  na área da saúde e cultura.

Como acreditar na  sociedade  que escolhe dentre os excluídos numa permanente roda-vida de exclusão.

De quem é o sonho desfeito, a dureza das esquinas, em que pele dói o desamor, as noite violentadas, os sorrisos escavados da podridão do lixo. 

Que  será feito dos curumins, das meninas carvoeiras, das  descascadoras de mandioca, das mães meninas, das sem mães, dos meninos das esquinas.

Quem será este  que  agora lhe assalta e leva consigo a valise de muitas palavras escritas e  poucas cumpridas, roubando de você a paz e suas noites de sono. 

Saibam  a quem interessar possa: ele é o meu guri.  

 

Crédito de Imagem: Collage por Marco Aqueiva a partir de imagem de criança sudanesa, de Kevin Carter, e Madonna col Bambino, de Michelangelo

 

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