Grilos na VaLiSe

por Juliana Behlingsp

Grilos?

 

Será que os ouço?

Inferno de prédios sujos, ruas histéricas, fedendo a urina e restos podres.

Grilos?

A esquina, bueiro entupido, retorno de esgoto onde gatos e cachorros sarnentos fazem a festa como gozando de um presente dos céus.  Abastecem-se dessa água com dejetos que aliviam a fome. Assusta-me o olhar de crianças com inveja daquela singela alegria. Sinto medo. Cadê os pais desse seres? São somente olhos, inertes, postados diante da novidade, enfileirados como que esperando a ordem para se juntarem ao banquete.

Pulo a água suja, tentando não me contaminar pelo alvoroço e alegria dos cães. Protegendo de qualquer gotícula minha valise, sigo.

Grilos?

Será que os ouço?

Permito-me não sentir os cheiros, não ouvir os sons, não me incomodar com os pedidos daqueles que têm fome ou simplesmente querem continuar. Permito-me não olhar os espelhos por onde caminho, pois a imagem refletida com certeza não é a minha. Alienação total conseguida à base de medicamentos: para acordar, para comer, para deixar de comer, para ficar alegre, para controlar as emoções, para dormir. Que sou eu, senão um monte de remédios?

Grilos?

Será que os ouço?

Sou abordada por uma senhora, de aparentemente 70 anos. Vejo sua pele toda ressecada, cheia de feridas abertas, expelindo pus, meu Deus, o que será aquilo? Ao abrir a boca, seu hálito fétido inunda o espaço, e não consigo ouvir seu pedido. Corro, pois em suas pupilas vislumbro a minha figura. Corro de mim mesma.  O som de sua voz ao longe ainda é clara: “Cuide dos Grilos” .

Preciso de um remédio, estou consciente dos meus pensamentos.

Grilos?

Será que os ouço?

O caminho longo, tarde quente, mormaço que incomoda, mela e gruda, gente andando sem rumo, perdida, ausente.

Agarro a minha companhia, minha valise. Onde estará o dia em que foi reluzente? Abraço-a, toda marcada, manchada, assim como a dona, ferida, muito ferida.

Ninguém me espera, ninguém sente a minha falta, poucos sabem o meu nome, não tive filhos, vivo sem parentes, animais nem pensar, sou assim, uma velha medrosa que carrega uma valise.

Uma velha medrosa, drogada, que carrega uma valise e que agora ouve barulhos de grilos!

Conhecidos que sumiram com os anos, sempre me questionaram o que carrego; os driblei, nunca assumi, nunca a abri para que os outros vissem. Houve apostas de que, no dia da minha morte, seriam encontradas em seu interior milhares de notas sem valor. Coitados, nunca nem chegaram perto, nenhum deles tem a capacidade de entender a minha sanidade insana.

Minha valise, quando nova, guardava felicidades, sonhos de uma vida abastada de conhecimentos e amigos, a casinha no campo com cerca branca, labradores brincando no quintal, o pôr do sol mais lindo, a viagem perfeita, o encontro de almas, a quietude após o amor, a delicadeza de ensinar os filhos, o cheiro da terra após a chuva, o cheiro do mar ao amanhecer, o arrepio da pele ao ver o ser amado, a lágrima que rola quente…

O destino, insano caminho, esvaziou a minha valise, minha alma, meu ser.

Fiz um pequeno buraco, anos atrás, na parte de baixo da minha valise e, por esse pequeno espaço, deixei fluir por anos tudo o que havia guardado, pois para mim serventia não havia mais e teimosamente acreditava que quem encontrasse pudesse fazer desses meus guardados um bom uso. Como uma herança.

Minha valise há anos está vazia, completamente vazia, pois pelo espaço aberto também deixo fluir as dores das perdas, os sonhos desfeitos, o filme não visto, a angústia da solidão, o cheiro da podridão, o medo de morrer sozinha .

Não carrego nada na valise, não carrego nada na alma, não carrego nada no meu ser.

Grilos?

Será que os ouço?

Fecho emperrado, após tantos anos, forço e quebro o lacre da minha alma.

Cheiro velho, mofo, vasculho e não encontro nada, só o tecido roto e desbotado.

No fundo, algo se mexe, será um grilo?

Animo-me, seria como um milagre. Esboço um sorriso.

Observo atentamente e noto que nada se mexe, é somente a luz que teima em entrar pelo espaço aberto, por onde deixei escapar todos os momentos.

Grilos?

Será que os ouço?

Cadê os meus remédios?

 ________________________________

Arte: “Paisagem urbana com grilos”, Marco Aqueiva, a partir de fotografia de Joshua Benoliel e imagens extraídas de http://osverdesfotos.googlepages.com/lixos, http://www.quemtemsedevenha.com.br/paisagem.jpg, http://marlonstein.com/fotos/album/Insetos/grilos+e+gafanhotos/

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3 Respostas to “Grilos na VaLiSe”

  1. Olá, me deparei com esse blog enquanto estava navegando nesse maravilhoso mundo virtual.
    Li alguns textos e gostei muito, principalmente esse dos grilos.
    É magnífico, o autor consegue, de fato, expressar-se e comparar suas frustadas esperanças com o som dos grilos.
    Lindo, Parabéns
    Abraços
    Lu

  2. Luciana,

    Espero que, uma vez encontrado o projeto, se torne uma frequentadora.
    Mais: de leitora entusiasme-se a participar colaborando com textos.
    Enfim, Bem-vinda.
    Abraços
    Marco

  3. Paulo Cury Says:

    A solução para a inquietude da velha medrosa quanto se ouve grilos, seria perguntar a mais alguem se tambem esta ouvindo…porque se arrastaria uma valise vazia!!!
    Faz pensar…

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