Arquivo para novembro, 2008

Um PoEmA VaLiSe ao DeSeNGAno

Posted in Art, arte, literatura, literature, poesia on 30 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva à base de Magritte & Verticis_Puer http://www.lastfm.com.br/user/Verticis_Puer 

por F Chagas

 

Uma vez escrito mais um poema,

e nele você chorar não o seu choro,

mas o choro dos meus olhos culpados

da aridez na paisagem assediada

de desejos, uma valise de êxtases

que se esfumam à luz, à fúria do Éolo

que resvala na epiderme dos prédios

sem vida, cruéis ao meu sonho cinza

 

Para você mordiscar a nervura

desse silêncio que recobre tudo

o que fere e não é poesia,

não cabe nas colunas do poema

 

O certo era não ter coração

não ter olhos e não tomar parte

no pão que o dia reparte entre

os que de rosto branco se procuram

se irmanam, grogues no parque central,

quando cruzam a avenida, um táxi,

um ônibus, o susto sob a espuma

da cerveja, fulgor da tarde em fuga

do calor, sempre com o rosto branco

 

O certo era ter uma palavra

laminada, lisa, pura, tão pura,

livre do peso das contradições,

as únicas flores que há na calçada,

as palavras a mil metros das cores

nas roupas, palavras roucas, os carros

no caos de buzinas, contra o amor

a falsidade das fachadas nuas

a melhor poesia, a mais refinada

capaz de comprimir o real no ângulo

de um alfinete, depois a explosão

a mil anos da indignação

 

Amanhã devo pegar uma faca

tão fina de se confundir com o ar,

abrirei o peito aos primeiros passos

da aurora, o coração será limpo

com água perrier, e se nada der

errado, colarei vinte etiquetas,

vinte etiquetas vindas duma loja

da Oscar Freire, num frasco de cristal.

Um poema para você chorar

de mãos dadas com cada mãe em silêncio,

os pés nas águas do dia-oceano

o terrível da palavra terrível.

o dia sem poesia, mestre do ódio

a todas as partes da construção

ilustrada pelos rostos de figuras

perturbadas com a atracação às ruas

de quilhas atraídas pela luz

 

Quem sabe esse poema de extrair

dos seus olhos parte de um desespero

enclausurado na noite, a mais

perfeita herança dessas cercanias

onde dormitam todos os desertos

pedras em chamas, terra calcinada

esse poema de dores e espanto

expulse você do sono. acorde!

seu coração nunca mais será o mesmo

 

nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca

 

 

Uma VaLiSe sobre Abelardo da Hora

Posted in Abelardo da Hora, artes plásticas on 28 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Painel – Escravatura, de Abelardo da Hora

por Tânia Du Bois

         
          Abelardo da Hora é um grande artista pernambucano. Sua obra é universal e traduz muito da alma do povo brasileiro.

 

          Como dizem Abelardo “de todas as horas”, porque suas esculturas brotam do cotidiano, da existência, da fala das coisas comuns. Ele transmite em suas obras o espírito de luta, com vigor expressionista, tendo influenciado o início da carreira de Francisco Brennand. Na sua valise encontra-se a força do ritmo dos movimentos cristalizados em traços simples de gestos rápidos e incisivos. Como as esculturas: “Hiroshima” e a série “Meninos de Recife”.

 

          Abelardo retrata a beleza explícita, reproduz em suas esculturas a realidade que está à nossa frente e não a queremos ver.

 

          Ele, em algum dia de sua luta, escreveu o poema “Meninos de Recife”:


São habitantes anônimos

dessa cidade alagada,

de limo e pedra formada

sob marés

submersa

 

são apenas habitantes

dessa cidade alagada.

Atirados sobre a lama.

Sobre as marés da desgraça.

 

          Lutas que travou com o barro, espátulas e enormes formas de gesso. E, através da obra “Meninos de Recife”, com sua espátula em punho, transformou a angústia em esculturas, mostrando ao Brasil que eles precisam da esperança por dias melhores.

 

          Segundo Francisco Brennand, seu aprendiz: “A contribuição de Abelardo da Hora, a partir de 1942, foi decisiva no sentido de que, pela primeira vez, essa criação caía nas mãos responsáveis de um verdadeiro artista coberto de talento e criatividade.” Ao abrir a valise de Abelardo da Hora descobri que, aliado a um estilo de vida, fez muito pelos “meninos de Recife”, tendo, assim, desempenhado importante papel na sociedade brasileira.

 

VaLiSe de uma navegAÇÃO

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, semiótica on 25 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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por Flávio Viegas Amoreira

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Parecia ter vida nada perigosa; as palavras eram-lhe estrangeiras: perdia noção importante dos fatos quando mudava um caminho, era um peregrino desses que pousam em choupanas solteiras de vizinhança. Queria num descampado lançar uma flor ao Sol e ver Deus despentelhando: caíra num mundo de mal-me-quer : queria entrar pra dentro, ter morada com mulher e um filho que não andasse longe da vista. Se não tem fim essa causa de andar, onde tivesse bom tempo seus ossos comporiam alma familiar ao canto de árvore. Tinha em falta uma razão de ser quieto, inconstante tanto sabia, deitava noites por uma frase: esculpia um arco sobressalente em Sagitário, punha venda nos olhos para voltar cansando, confundia braço com riacho: era incertidão matreira de proceder nas coisas. Qualquer sedento finge não ouvir direito. Deu fim: quero maior espelho! rampa sair daqui ligeiro! rampa voa dessa gente faladeira. disser onde fora cairia assim meio mentira: meio, sempre tem um termo que ressoa, forja contornos: a verdade tem a sorte abolida. desfilava na cautela dum presságio: certamente a manhã não faz ouvidos e tenho eu mesmo lampejar destino. o que dito sozinho não se arrepende. Não tenho detalhes, terço-me: falta correção de uma voz que ouça escute sem espanto dizer o que entretenho: um olho de peixe / tela atachada de Klimt, o olho com barbatanas, uma arraia ofegante: o repetidor deparado na auto-estrada : tive de tomar um curso no asfalto, as vicinais me tiram da trilha. beiral uma velha fita e me corrige estranhezas: será de onde esse peste sem eira? rapaz fino no tratamento sem recato dessas paragens. Sorri no cumprimento, esgazeia. Acordara decidido alcançar a vista: esses interiores não distavam do repuxo: uns vinte quilômetros abaixo era outro planeta na vegetação e relevo, vinte quilômetros diferem interior da borda, o continente começa vinte quilômetros pra dentro: naquela faixa até o Mar é orla / estreito: Mar já não define diferença. nenhum rio desabalava dentro até as praias: os vales donde eu procedia eram amplidões de rios lá pra cima, repuxos do dia em que Mar maior encolhia. O meu remorso é o que me carrega: quero apagar um fogo que me conduz eu tenha andado assim por essa persistência: ganhar terreno embornal uns tratados de botânica e breve só versos pois as flores nos manguezais aí se misturam. Onde a terra amolece é duro achar distinção de caule pétalas: o vento é mais nítido que um tronco que se mistura aos predadores rasteiros.

Arte: Marco Aqueiva à base de Klimt

Uma duas VaLiSeS aos Amigos

Posted in Art, arte, poesia, semiótica on 23 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Publicado primeiramente em Vidráguas http://www.vidraguas.com.br/wordpress/?p=1180

 

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Uma VaLiSe de Prosa

Posted in A conversação, Art, arte, poesia on 23 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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“Venho buscar-te entre ilustres pessoas

Que souberam mostrar a tua força.

Olho a grande capela onde ressoa

Num silêncio contrito o que o pintor

Abençoado fez, te fez autor,

Autor de tudo, do todo, Autor.

(…)

Será resposta a arte, Criador?”

 

O poeta capta, em seu íntimo, a voz deserdada e órfã da humanidade. Mas é sua voz interpelante que, poema, engendra reinaugurando a experiência de busca pelo Sumo Artífice. Essa busca que é interpelação constelação de citações alusões referências desperta em si passo a passo aquelas vozes suas de poetas, pensadores e pintores que permanecem marcados na memória da humanidade. Passo a passo essa interpelação solitária avança sem sortilégio ou subterfúgio despertando em nós o desatar da leitura muito além do texto.

 

Como expressar melhor? Trago a síntese de Lêdo Ivo para o livro:

 

“Neste poema de título A Conversação de Izacyl Guimarães Ferreira alcança o mais alto patamar de sua longa, discreta e paciente trajetória poética. É um desses poemas que os poetas só podem produzir no tempo final de um ofício em que os acréscimos contínuos de experiência artística se fundem com a experiência vital sedimentada e tornada uma reflexão do mundo. A Conversação é um longo poema íntegro e final, uma obra de madureza e plenitude. Nele o silêncio se faz voz e a voz se faz silêncio. Abriga em seus versos o fim que é o começo, a chegada que é partida,o rigor que é alumbramento e libertação. O poeta fala simultaneamente a si mesmo e de si mesmo: ao outro e aos outros homens. Toda conversação é uma dádiva.”

 

Por isso, comunico que, em São Paulo, Izacyl Guimarães Ferreira estará lançando A Conversação.

 

A CONVERSAÇÃO
Izacyl Guimarães Ferreira

Dia: 26 de novembro de 2008 – Quarta-feira

Horário: das 18h30 às 21h
Local: Livraria Asabeça
Pinheiros – São Paulo
 

 

 

 

 

 

Da VaLiSe de JANUS, uma certa TARTARUGA

Posted in Art, arte, crônica, literatura, literature, semiótica on 21 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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por Solange Lemos

– Mas por que temos que preservar as tartarugas-marinhas?

A pergunta foi feita assim, à queima-roupa. O biólogo do projeto Tamar não conseguiu esconder o espanto. Eu, menos ainda. Porque a pergunta vinha de uma mulher de cerca de 50 anos, mãe de família, formada em Serviço Social e que me acompanhava numa pesquisa sobre saúde no estado da Bahia.

Não era, portanto, uma simples “incauta”, inculta, ou qualquer desculpa que valesse a impertinência. A pergunta também não era retórica: ela queria mesmo saber por que alguém se preocuparia com um animal que demanda tantos cuidados de preservação e sequer pode servir, depois de crescidinho, à alimentação humana. E mesmo com todas as explicações, pacientemente dadas pelo biólogo responsável, ela não se deu por achada – continuou afirmando que não seria convencida por um projeto que “não fazia o menor sentido” para ela.

Talvez essa seja a raiz de todos os problemas ambientais na atualidade – eles não fazem sentido para muitas pessoas. Não lhes dizem respeito. E quem pode culpar esses cidadãos, pagadores de impostos, votantes, muitas vezes bastante ciosos de seus direitos, por tal indiferença? Sobretudo se esses problemas também não dizem respeito à maioria dos políticos, eleitos por esses cidadãos justamente para zelar pelo bem comum, que, pasmem, inclui o famigerado meio ambiente.

Some-se a esse comportamento uma certa tendência futurológica que, se é não exclusividade nacional, aqui se traduz na crença de que tudo é “para amanhã”. Nada mais confortável que transmitir o legado da responsabilidade para “nossos jovens e crianças”. Claro que temos visto muitos pequenos mais preocupados com o meio ambiente que seus pais. E claro que há os que não têm idéia do que seja isso, como uma garotinha que vi, no banheiro de um aeroporto, brincando, sob o olhar zeloso da mãe, com o sensor da torneira automática. A cada movimento da mãozinha, ia embora a água não utilizada pela menina, chuááá! Que fazer numa situação como essa? Repreender a criança na frente de sua genitora? Engolir em seco o desaforo e a água desperdiçada?

Parece que a solução para convencer as pessoas dos problemas coletivos é mostrar o dano que podemos sofrer se não zelarmos pelo meio ambiente. Mas quem irá se convencer se não sentir diretamente na pele esse dano, se a água não começar a bater no pescoço (o que pode acontecer na próxima enchente)? Quem poderia convencer a assistente social, inimiga das tartarugas, de que ela na verdade é um simples elo dessa cadeia natural? Certamente, ela ficaria muito ofendida.

No caso brasileiro, já é difícil persuadir as pessoas de que problemas em outros estados da nação também interferem em suas vidas. Vou ser repetitiva, mas vejam a questão da transposição do rio São Francisco. A preocupação das regiões não afetadas diretamente é mínima diante do impacto ambiental que o projeto pode acarretar. E não estou nem falando da porcentagem de argumentos favoráveis e contrários. Quem já viajou de barco pelo rio ou pelo menos viu fotos recentes de suas margens sabe a que me refiro – a mata ciliar devastada, os coqueiros que bebem gulosamente suas águas, o leito cada vez mais superficial, espécies de peixes (estes sim, destinados à sobrevivência de pescadores) desaparecidas. Será que isso não nos diz respeito?

Houve redução das queimadas nas florestas brasileiras, mas ainda não é o suficiente. Ainda há os que queimam, há venda ilegal de madeira, corrupção dos órgãos fiscalizadores. Isso para não falar na destruição das matas causada pelo calor, como aconteceu há pouco na deslumbrante Chapada Diamantina. E os efeitos dessa destruição chegam àqueles lugares distantes, que aparentemente não teriam mais nada a ver com as florestas, pois sua área verde foi quase toda desmatada – nas grandes cidades, respira-se mal, a poluição faz arder os olhos e lota os postos de saúde de crianças com problemas respiratórios.

E parecia também, até pouco tempo, que o meio ambiente sofria em silêncio os abusos contra ele. Mas essa passividade, esse silêncio eram enganadores. Como o deus Janus, ele mostra, na verdade, duas faces. Uma sofrida, visível em ribeirinhos, moradores das periferias, pessoas pobres, os primeiros a sofrer as conseqüências desses abusos. A outra face, implacável, tem irrompido em maremotos, secas, tremores de terra, furacões, pragas de insetos.

Diante dessa natureza bifronte, temos duas escolhas: mudar de planeta, ou mudar de atitude. Se é certo que a fixação humana em solo marciano ainda vai levar tempo, talvez seja melhor fazer coro com quem se preocupa e com essa natureza que grita e da qual, afinal, fazemos parte. Como as tartarugas.

 

Arte: Marco Aqueiva, a partir de

http://www.melandereppley.com/liferhyme/writers/index.html

http://www.cartoonstock.com/vintage/directory/t/temple_of_janus_gifts.asp

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO ii

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa, provocações, semiótica on 18 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

Édipo: “Tirésias! Tu que tudo percebes

         do mais claro ao mais denso dos mistérios

         alto nos céus ou rasteiro na terra,

         hás de sentir, mesmo sem poder ver,

         a desgraça que assola esta cidade…

         Eis, profeta, por que te procuramos

         como última defesa e salvação.”

trad. Geir Campos

 

Que é, pois, o escritor, a olhar à frente, os sentidos despertos?

 

Um olhar que apenas renomeia as coisas e não sabe mais à provocação?

 

Faça também sua

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

 

por Tânia Du Bois

 

          Você já ouviu falar na cidade de joão ninguém? É a cidade onde todos mandam, ninguém obedece e poucos respeitam.

          Noel Rosa, em tempos passados, compôs uma letra com o nome de João Ninguém. O poeta teve sensibilidade para compreender o que estava acontecendo à sua volta; foi capaz de traduzir naquela música o seu tempo social. Trabalhou duro a palavra para tentar mostrar o que estava acontecendo em uma cidade saída da Revolução de 1930, num país carente da palavra. Ele soube usá-la para definir o movimento das palavras para com a música:

 

                                         “João Ninguém

                                          Que não é velho nem moço

                                          Come bastante no almoço

                                          Pra se esquecer do jantar

                                         Esse João nunca se expôs ao perigo

                                         Nunca teve um inimigo

                                         Nunca teve opinião.”

 

           Mas, nos tempos atuais, é a cidade em que o povo escuta música em volume excessivo, nos carros, nas ruas, até altas horas; os carros são estacionados de qualquer maneira, em qualquer mão. Nas lojas, parece que cada dono faz o seu próprio horário de atendimento. Não há policiamento. As casas são assaltadas à luz do dia. A novidade é que, agora, os ladrões escalam prédios e até matam para roubar. Os supermercados fixam preços de acordo com a temporada; O saneamento básico é feito e refeito. E como é a cidade de joão ninguém, não são tomadas providências, nenhuma atitude sobre absolutamente nada. Tudo é permitido, tudo podem.

           Álvaro Mutis, poeta colombiano, mostra-nos que a força das armas não contempla a permanência, ao contrário, leva à destruição e ao esquecimento; a ilusão do progresso como atos a reconfigurar a terra em novas formas de compartilhamento:

 

                                      “Senhor das armas

                                       ilusórias, faz tanto tempo

                                       que o olvido trabalha

                                       teus poderes

                                       que teu nome, teu reino

                                       e torre, o estuário

                                       as areias e as armas

                                       se apagaram para sempre…”

 

          E como vivem os forasteiros nessa cidade? Eles entendem que a cidade de joão ninguém é protegida pela natureza. Que o Sol é glorioso e a Lua quando bate no mar reflete os sonhos. Que o entardecer se confunde com as telas de Ivan Freitas. Que o mar é verde como a esmeralda, como pinceladas de Sansão Pereira. Que os pescadores pertencem à tela de Elias Andrade.

          E que, ainda, sentar no terraço e apreciar a paisagem na companhia de Mário Quintana, Jorge Luis Borges e Saramago faz com que consigam esquecer que essa cidade pertence a joão ninguém. A brisa chega com Cecília Meireles e cada momento de “Isto ou Aquilo” é desfrutado com muita sabedoria.

          Assim vivem os forasteiros na cidade de joão ninguém, tentando unir as letras ao povo, dando-lhes lápis e papel para perceberem a realidade; desafiando a cidade a arranjar um amor, uma palavra, como em Pedro Du Bois:

 

                                              “Ante todos

                                              nenhuma resposta.

 

                                              Entre todos

                                              algumas promessas.

 

                                              Tordos

                                              pássaros existentes

                                             em outras terras.”

 

Uma VaLiSe para parTida

Posted in Art, arte, conto, Jacek Yerka, literatura, literature, narrativa on 15 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Jacek Yerka

por Ana Luíza Penha

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Foi encontrada  uma valise de tamanho médio, branca sem ranhura e sem destinatário, necessária abri-la para conhecer seu conteúdo. Em face disto é preciso testemunhas, há prognósticos aqui no Balcão. Que tal fazermos uma aposta sugerem alguns.

Alguém entre os mais sábios e sensatos de mãos magras e delicados dedos pondera. Não nos pertence nada e nem dela advindos.

Noite e dia ela na terceira prateleira, entre chapéus, embrulhos, bolsas  com frutas desenhadas, livros pálidos, e documentos perdidos.

Cada dia resplandece sua brancura, fará falta  depois de alguns dias vendo-a ali simples e majestosa ao alcance de todos, sem, no entanto,  provocar cobiça.

Nenhum odor dela emana.  Nenhuma marca indicando peso demais para seus domínios. Em não sendo procurada no tempo devido, o ajuntamento é realizado ao fim de uma tarde de poucas lembranças. 

Um dos  presentes, com ar  monárquico, sugere uma cerimônia, sua textura de pelica macia  e seu modelo estilo “bolsa do doutor” impõe  respeito. Baixam-se as portas, há um segredo a ser desvendado e agora. Eis o  impasse como violar segredos, pensou-se em dinheiro, roubo de jóias de família, atiçou-se a ganância dos que brincando pedem para dividir.

Em torno da mesa gasta, com um bisturi e perícia é rompido o lacre, aparecendo varias caixas, e dentro delas outras tantas  e ao fim, em uma minúscula delicada, o segredo  revelado, com uma breve frase: “Te amo, perdoe-me por não poder estar perto como deseja, te deixo esta para sempre que partir pense  em voltar,  mas, se já não significo nada, esqueça-a num canto qualquer.
Do seu grande e eterno amor.”

Uma VaLiSe de Veludo Azul

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, narrativa, semiótica on 14 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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 Guy Girard, Les Clés de la volaille

  

por Fátima Brito

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Embalando minha surrada bolsa vazia, caminhava, tentando assassinar meu absurdo discurso. Sentia-me quase invisível no alvoroço da 25. Era para lá que ia quando não suportava a intensidade com que aquelas palavras ocupavam minha mente. Lá a confusão do ir e vir incessante, das cores das vitrines e dos passantes com seus estilos os mais variados libertavam-me de mim. Só o caos de formas e  de palavras alheias cruzando o mesmo espaço neutralizava a agitação infernal com que me debatia desde o início da adolescência.

         Mas naquele dia eu estava verdadeiramente insuportável. Desde o amanhecer, a saudade me empurrava para as palavras de minha  uterina impotência. Sempre me soubera de tal modo incapaz que a única dúvida que jamais experimentei foi a de que, no mundo, nada verdadeiramente me pertencia. Nada exceto a impotência.  Talvez por isso minha relação com ela fosse tão difícil. Passei parte de meus quase trinta anos a acalentá-la como quem tenta inutilmente aquecer-se a si próprio, em uma noite fria de estrelas inacessíveis. Passei a outra parte deles a rejeitá-la, como quem se julga capaz  de improvisar cobertores de lã grossa em noites também frias de estrelas tão próximas como os próprios olhos em um espelho. 

Antes de descer para o café, no espelho próximo à escada, vislumbrei o nó na garganta, persistente.  Por mais um dia, ele me negaria a possibilidade de comunicar-me com aqueles estranhos que tentavam ser gentis comigo: irmãos do segundo casamento de papai, ele próprio e sua jovem esposa. Descendo lenta a escada, ele invadiu-me novamente. Mais alto que de costume, e com um ritmo que desconhecia.

         A sua voz. A sua voz. Ela não é só sua. Entrou em mim e me toma por completo, aprisiona a minha voz, aveluda minha vida vazia, entupida de poros que nem mais liberam o bafo dos destilados importados  com que me anestesio às escondidas. Não posso me lembrar de sua voz, mas ela acompanha minha solidão noturna, minha solidão diurna como um veludo azul ocupando minha boca até o limite da falta de ar. Ela sufoca-me, mas eu a quero. Abraço o veludo como se fosse a sua voz que quero macia acalmando meu medo. Sempre o mesmo medo de morrer sem encontrar você, sem ver seus olhos me olhando, sem ouvir sua voz dirigida a mim, só a mim, verdadeiramente a mim. Preciso de sua voz porque para mim ela não é imaterial é como fosse seu corpo de onde vim e para onde quero ir,  deitar-me no veludo azul que embalou meu sono de infância.

 Quero gritar perguntando ao mundo para onde você foi, se morreu ou se não morreu. Diga-me por que me deixou aqui com eles. Sozinha num berço do qual não consigo me libertar e de onde só ouço canções de ninar que nunca existiram. Sei que talvez você não exista mais, mas a sua voz certamente resistiu e viaja pelo espaço contando histórias de escravos acorrentados que morriam olhando as estrelas. Talvez você tenha me contado alguma dessas. O que carregou sua voz para longe de mim? Vou encontrá-la jogada à sarjeta, ou em algum prostíbulo de luxo.  Preciso encontrá-la. Eles não querem me dizer nada sobre você, mas vou encontrá-la. Ouço tudo de novo. Ouço as perguntas que fiz, e ouço o silêncio indiferente deles. Mas não ouço sua voz macia e pausada. Também ela vive me abandonando. Então  vejo de novo seus olhos de cílios longos olhando para mim, dizendo-me algo. Tento em vão traduzir o movimento de seus lábios.

         Dessa vez, o discurso foi interrompido antes de seu fim quando cheguei à mesa. Cumprimentos e olhares costumeiros. A rapidez necessária ao contato mínimo. A tentativa de comunicação: garantia de consciência tranqüila. O meu intransponível silêncio. A despedida muda, e sem volta.

Saí pela porta da frente acompanhada  de palavras e  impotência. Caminhei pelas ruas certa de que algo ocorreria, e de que não seria eu o agente da transformação. Em meio ao discurso, então um pouco desconexo, reconhecia só existirem dois rumos possíveis: encontrá-la ou perder-me de meu inferno. Do alto de minha dor, sabia que isso poderia significar perder-me de mim.

Nesse estado, como uma autômata, mergulhei na 25  onde, pela primeira vez em quase vinte anos, misturei-me com tudo. E, apesar das vozes, quase senti prazer. Lembro-me de que  foi exatamente nesse momento, quando intuí a possibilidade de ser feliz, que aconteceu. Quantos anos foram necessários para sentir-me viva de novo?

Devagar do alto das minhas costas, ela veio descendo.  Muito afiada e meticulosa, vinha como quem não tem pressa e eu fui acalmando-me, cedendo à sua força, sentindo-me a um só tempo preencher-me e esvaziar-me

         Gostosamente lento, o silêncio começou a surgir quase como uma brisa morna espalhando-se no velho veludo azul. Parece que tudo foi recuperando seu lugar e os ventos começaram a soprar lentos em uma só direção. Mas ao redor, em uma outra dimensão, tudo continuava igual: os ambulantes com as bocas agitando-se rápidas, as vitrines com sua elegância fingida, as calçadas tomadas por crianças agarradas às suas mães. Todos prosseguindo no medo de se perder. Tudo quase igual.

 Mudava o ritmo, tudo era muito lento como se o mundo quisesse parar. Eu, eu também mudava enquanto meu sangue se esvaía: não tinha mais medo de perder-me de você, de mim. O bafo da bebida aos poucos foi dando espaço para a certeza de estar absolutamente sem raízes. Sentia-me balançando ao som de músicas infantis embalando pequenos móbiles azuis. Os movimentos alternando-se eram toda a  liberdade que sempre quis. Eles poderiam mudar de novo e de novo, a qualquer momento, à medida que surgissem novas músicas, ocupando o espaço do discurso compassado.

         No momento em que alguém apanhou com suavidade meu corpo e, quase flutuando, levou-o para um tecido estendido debaixo de uma árvore florida, comecei a ouvir uma voz intraduzível, dizendo-me que tudo ficaria bem, que eu jamais ficaria sozinha, que eu já poderia falar. Sorrimos. Era outono e senti uma folha deitar-se em meu ombro esquerdo. A morte, bem-amada, dava boas-vindas para a vida que me apresentaria a novas palavras.

 

 

MAReMAR KAFkaNIAno

Posted in conto, Kafka, Liberdade, literatura, literature, Opressão, semiótica on 11 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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por Carlos Pessoa Rosa

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Resolvi mudar o rumo… Sem olhar para trás. Ficar longe das vaidades inúteis. As últimas economias serviram para comprar a passagem. Tiracolo, uma valise. Leve, muito leve. Carrego o essencial, poderia dizer. Se bem que isso nada diria aos outros. Aliás, meus interesses nunca sincronizaram com o comum. Só não esperava por isso. Um sujeito fardado indicando-me um longo corredor. Faço com a cabeça que não concordo. Sinaliza para outro segurança. Achei melhor pegar o atalho. Depois do corredor, um balcão com outro segurança, o sujeito ordena que abra a valise. Perda de tempo, digo-lhe. Inútil tentativa de levá-lo a desistir. É minha função, vamos, abra logo a valise, responde-me, rispidamente. Ao abri-la, percebo certo desconforto no rosto do homem. Afinal, o que é isso? Nada… Como nada, qual o sentido disso? Nenhum… O senhor está a brincar comigo? Não! Então, o que significa isso? O que o senhor carrega nessa valise? Respiro fundo antes de responder: o silêncio. Pare de brincar comigo! Não estou brincando, é tudo o que sobrou de meu passado… O senhor será detido! Detido por carregar o silêncio… o senhor está louco? Detido por não informar adequadamente o que está carregando nessa valise. Mas já lhe disse que carrego o silêncio. O senhor está querendo gozar de mim? Seguranças, levem esse homem, ele está detido. Ainda tentei que me esclarecesse o crime… Preso por não informar ao fisco o que está carregando, sonegação de informação e, possivelmente, de imposto, além do fato de o silêncio não fazer parte da lista de possibilidades da bagagem de qualquer viajante. Apreenderam a valise para averiguações e me jogaram dentro de outro silêncio, o dos presídios, uma sala fria, de cores frias, junto de outras pessoas também detidas, mas não por carregarem uma valise onde se encontrasse o silêncio pessoal. Não demorou para me chamarem. Da valise, restos de couro e o fecho sobre a mesa. Um homem gordo, de rosto rosado, olha-me com desconfiança. O senhor é um terrorista, descobriu uma arma invisível, nos mostre como detectá-la e prometo que o libero. Digo-lhe que ninguém conseguirá apalpar ou enxergar o meu silêncio, que ele não fará mal a ninguém… O senhor talvez seja um terrorista muito bem treinado. Vamos deportá-lo! Não podem fazer isso comigo, gastei minhas últimas economias… Não temos opção. Então, devolva-me o que restou de minha valise. Viu? Praticamente confessa que há algo muito importante nessa valise. Já disse, só carrego meu silêncio. A valise ficará retida para novas averiguações. Sem minha valise eu não saio daqui, vocês terão que me matar. Mataremos, então!

(Mas não sem me devolverem o silêncio, formato de uma valise, está sobre a mesa, que eu pego e saio atravessando as paredes. Ao redor, o silêncio das profundezas, absoluto… kafkaniano.)         

Arte: Marco Aqueiva