VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

FAÇA A SUA VALISE 

COM PROVOCAÇÕES AO FUTURO

 

Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

 

As palavras PROJETO e PROVOCAÇÃO contêm em si uma mesma idéia: a de lançar algo à frente. A partir desta data lançaremos uma nova modalidade de VALISE, aquela que pretende PROVOCAR o FUTURO.

 

ACERTEMOS AS CONTAS COM A HISTÓRIA

 

O empenho por fazer o inventário de todas as realizações e ações humanas sempre acompanhou a trajetória do homem neste pequeno globo. A aspiração por recenseá-las a fim de dar legibilidade ao patrimônio universal resultou em projetos como a enciclopédia setecentista. Fruto desta mesma aspiração pelo que possa tipificar e exemplificar o humano, dando-lhe certa legibilidade, são as cápsulas da memória em que todo o conhecimento humano relevante armazenado em CD-ROM já segue e seguirá universo afora.

 

Quando o homem substituiu o nariz pelo olho, limitou-se severamente a cultura. O elevado excluiu as baixezas e baixarias. Tal como registra aquele que se arriscou a tirar da valise toda nossa natureza luciférica.

 

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.

 

É HORA ENTÃO DE DARMOS VISIBILIDADE ÀS NOSSAS BAIXEZAS, ainda que seja a dos outros: políticos e governantes, autoridades incivilizadas, policiais, o comerciante da esquina, aquele mendigo ali. Nós mesmos.

 

Hoje, e quinzenalmente aos domingos, nos propomos a publicar VALISES de PROVOCAÇÕES ao FUTURO.

 

Para esta nova orientação, valem textos éditos, já publicados. Que está esperando? Esperar é ter esperança Encaminhem seus textos e colaborações. Não se acanhem quanto às dúvidas. Como este projeto é coletivo, sua continuação depende de você. Estamos no escuro. Somos todos aprendizes, quer assim se deseje ou não.

 

Começamos com o despedaçamento da ordem e subordens menores em

UMA VALISE AO FOOLTURO *,  por Márcio Almeida

O homem não começou ainda a descobrir o futuro.

O que se conhece são vestígios do tempo no espaço,

migalhas de infinito em ritmo easy rider por dimensões sem olhos,

muralhas de galáxias no interior de grandes vazios

de matéria escura de um Universo em expansão.

E já é muito para tanta teimosia e rabugice.

Já é um êxtase à “Terra inescapável”

que dá o que pensar, previu Wislawa.

Como tudo que se conhece,

“hoje é o amanhã que já vai embora”.

E, possivelmente, já vai tarde com seu “futuro fictício”,

diria Felinghetti.

Para o que nem se esboça no tempo imaginário,

não há nem realidade nem recurso.

Tudo é fantasia de uma história em branco

na escuridão do imponderável,

ou de cor nenhuma, na qual, para se entrar, diria Camus,

é preciso “estar na legitimação de uma tirania.”

Sempre se estará longe, muito longe do futuro:

nunca chega o que estará sempre prestes a acontecer

e começa em todos os instantes.

Quem pode com ele é a poesia,

porque, para ela, o vir a ser não estranha a porfia por um fio,

o silêncio visual de paisagens pósteras.

Ninguém se interessa muito pelo que não faz sentido:

o futuro não permite a hipótese de salvação.

Futuro é não o que se interroga,

mas o que antepõe limite ao preconceito,

o que, diáfano, carimba a duração em míseros momentos

cosmológicos.

Ninguém quer saber o futuro: ele pré-significa o que não será

por não permitir (ainda) a testemunha de si mesmo.

Por ter a vantagem de não imortalizar nada,

não idolatrar sombras, de se recompor em mímesis,

de ir além de suposições-húmus

que se esvaem em lucidez utópica

ou em loucuras veneráveis,

de “reserva” como alimentos que esperam a hora de iludir

o gosto pelo inusitado.

 

Futuro é “janela da vulnerabilidade”,

“acidentalidade fugaz”, descontinuidade vagamente pressuposta

como “necessidade de reduzir o visível

à imposição política do dizível.”

“Exercício experimental da liberdade”

que se fragmenta em sua própria desmistificação.

No máximo, evidência em perspectiva de sonho

que “morre na nudez das manhãs”.

Tudo, portanto, condizente ao futuro,

É recorrência e make old new, futuro do pretérito,

ou “tudo o que dizia respeito às provas externas de uma Duração

única estava arruinado. O mundo não oferecia garantia

de convergência para novas durações individuais,

vividas na intimidade da consciência.”

 

Não se pode comparar o futuro

senão em relação ao passado;

o presente é apenas a sua “praga da abstração”

com sua “tortura contínua”.

Dá o que pensar:

“o tempo e o espaço, a sucessão e a continuidade

são apenas acidentes do pensamento?”

Ou que “o palpável é nada. O nada assume essência.”

Todo presumível nasce velho.

Futuro é móvel que se move.

Movediço.

Presente inesperado como a aquarela “O tecido do espaço”

de Greg Mort.

Algo que crispa, queria Blake, os “sentidos dúcteis”

de quem perdeu a “memória da sua vida eterna”

com nenhuma “solidez isenta de mudança”.

O que só agora chega, por mais longínquo,

é o passado do Universo, infância da luz,

não o que ela ilumina.

Todo futuro zera o precedente,
porque não há um rosto,

um espelho refletor da própria imagem,

porque o futuro não está.

Ele é Singularidade Nua.

Futuro é a Navalha de Occam –

corta da teoria tudo que não pode ser observado.

Não oferece um telos.

Não santifica a falência, a derrocada até então irreversível.

Futuro será quando houver platônicos Otis e Efialtes

ousando de fato “escalar os céus”,

porque então a Terra será a casa proibida,

de impossível prodigalidade.

Futuro não existe.

Ele é o que sempre falta e se ausenta.

A corda heterótica onde supor travessia para outro abismo.

O último nome a morrer, por isso, esperança.

Ou seja, a certeza finita de uma eterna ilusão.

Futuro é o que apanha o Universo

em flagrante delito de mistério,

o que faz agir quando se pensa que

“só é novo o que está esquecido”,

é a “informação concomitante”,

uma “palavra-acontecimento”

com sua certeza, probabilidade e imaginação,

é o estado de vigília,

a projeção de uma sombra à frente do acontecimento

à “ligação não-causal”, a “jubilação dos acasos”,

uma “história invisível.”

 

 

Rastros

 

Carlos Zílio – Carlos Drummond de Andrade – Ítalo Calvino – Oscar Wilde

Goethe – Louis Pauwels – Mlle Bertin – Charles Fort – Wolgang Pauli – Paul Claudel

 

* Publicado como “O futuro não existe” em FOOLTURO, premiada obra de Márcio Almeida. Conheça este livro, na íntegra, em Germina

http://www.germinaliteratura.com.br/2008/booksonline_marcioalmeida8.htm

 

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2 Respostas to “VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO”

  1. Pedro Du Bois Says:

    Caríssimo Marco,
    o Márcio Almeida é meu guru e mestre. tenho aprendido muito com ele.
    conhecia o texto, desde março, quando ele o colocou no germina.
    é excelente, mesmo: mereceu o prêmio e mereceria muito mais destaque. desmistifica, mais uma vez, o escrever poético: realiza-o.
    a despersonalização do autor, como ele fez em grande parte do texto é das maiores aspirações que podemos (poderemos, poderíamos, podíamos) ter: Flaubert, como em “Bouvard e Pécuchet”, não faria melhor.
    abraços,

    Pedro

  2. Caríssimo Pedro e amigos do Valise:

    Márcio Almeida, que há pouco me vem calando com sua crítica a plenitude da poesia e alarmando com sua poesia a crítica recheada de conceitos, alarma porque bate asas num longo e minucioso modo de bater asas.
    Desejava que estas palavras se desfizessem depois de publicadas e ficasse apenas o convite à leitura de FOOLTURO.

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