MAReMAR KAFkaNIAno

kafka-kfkaniano

por Carlos Pessoa Rosa

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Resolvi mudar o rumo… Sem olhar para trás. Ficar longe das vaidades inúteis. As últimas economias serviram para comprar a passagem. Tiracolo, uma valise. Leve, muito leve. Carrego o essencial, poderia dizer. Se bem que isso nada diria aos outros. Aliás, meus interesses nunca sincronizaram com o comum. Só não esperava por isso. Um sujeito fardado indicando-me um longo corredor. Faço com a cabeça que não concordo. Sinaliza para outro segurança. Achei melhor pegar o atalho. Depois do corredor, um balcão com outro segurança, o sujeito ordena que abra a valise. Perda de tempo, digo-lhe. Inútil tentativa de levá-lo a desistir. É minha função, vamos, abra logo a valise, responde-me, rispidamente. Ao abri-la, percebo certo desconforto no rosto do homem. Afinal, o que é isso? Nada… Como nada, qual o sentido disso? Nenhum… O senhor está a brincar comigo? Não! Então, o que significa isso? O que o senhor carrega nessa valise? Respiro fundo antes de responder: o silêncio. Pare de brincar comigo! Não estou brincando, é tudo o que sobrou de meu passado… O senhor será detido! Detido por carregar o silêncio… o senhor está louco? Detido por não informar adequadamente o que está carregando nessa valise. Mas já lhe disse que carrego o silêncio. O senhor está querendo gozar de mim? Seguranças, levem esse homem, ele está detido. Ainda tentei que me esclarecesse o crime… Preso por não informar ao fisco o que está carregando, sonegação de informação e, possivelmente, de imposto, além do fato de o silêncio não fazer parte da lista de possibilidades da bagagem de qualquer viajante. Apreenderam a valise para averiguações e me jogaram dentro de outro silêncio, o dos presídios, uma sala fria, de cores frias, junto de outras pessoas também detidas, mas não por carregarem uma valise onde se encontrasse o silêncio pessoal. Não demorou para me chamarem. Da valise, restos de couro e o fecho sobre a mesa. Um homem gordo, de rosto rosado, olha-me com desconfiança. O senhor é um terrorista, descobriu uma arma invisível, nos mostre como detectá-la e prometo que o libero. Digo-lhe que ninguém conseguirá apalpar ou enxergar o meu silêncio, que ele não fará mal a ninguém… O senhor talvez seja um terrorista muito bem treinado. Vamos deportá-lo! Não podem fazer isso comigo, gastei minhas últimas economias… Não temos opção. Então, devolva-me o que restou de minha valise. Viu? Praticamente confessa que há algo muito importante nessa valise. Já disse, só carrego meu silêncio. A valise ficará retida para novas averiguações. Sem minha valise eu não saio daqui, vocês terão que me matar. Mataremos, então!

(Mas não sem me devolverem o silêncio, formato de uma valise, está sobre a mesa, que eu pego e saio atravessando as paredes. Ao redor, o silêncio das profundezas, absoluto… kafkaniano.)         

Arte: Marco Aqueiva

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5 Respostas to “MAReMAR KAFkaNIAno”

  1. Marco, que bom escorregar nas frestas deste silêncio.

    Enquanto te lia, pensava cá com meus pulsares o quanto o silêncio pesa, impossível, invisível ele é o eterno caminho das averiguações.

    Acho que Kafka, esteja onde estiver, esteve colado no alinhavo deste mar de Silêncio, uma Valise que ao calar, conversa com o tempo que assobia por trás das palavras.

    Um abraço, parabéns e gracias por nos recordar que nos arrabaldes das profundezas está o absoluto em Silêncio…

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

  2. Ops, oh my god!

    O TEXTO NÃO É MEU: É DO CARLOS PESSOA ROSA.

    CARLOS, PERDOE-ME!

    CORRIGIREI ASSIM QUE CHEGAR EM CASA.

  3. Aqueiva:

    Está no início a autoria. O importante é a opinião sobre o texto.

    abraços,

    carlos

  4. Carlos Pessoa, devo confessar que sou ótima em erros, e este foi grave, por isso,re- digo tudo novamente a ti…
    Pois, neste caso, calar era negar o Prazer de te ler para recordar o VALOR
    do Absoluto Silêncio, este arrabalde de nós.

    Parabéns e um abraço.

    corrigindo:

    Carlos Pessoa, que bom escorregar nas frestas deste silêncio.

    Enquanto te lia, pensava cá com meus pulsares o quanto o silêncio pesa, impossível, invisível ele é o eterno caminho das averiguações.

    Acho que Kafka, esteja onde estiver, esteve colado no alinhavo deste mar de Silêncio, uma Valise que ao calar, conversa com o tempo que assobia por trás das palavras.

    Um abraço, parabéns e gracias por nos recordar que nos arrabaldes das profundezas está o absoluto em Silêncio…

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

  5. carlos pessoa rosa Says:

    Como disse, o texto fala por si, autoria é o que menos importa. Fico feliz que o texto tenha sua própria autonomia.

    abraços,

    carlos

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