Uma VaLiSe de Veludo Azul

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 Guy Girard, Les Clés de la volaille

  

por Fátima Brito

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Embalando minha surrada bolsa vazia, caminhava, tentando assassinar meu absurdo discurso. Sentia-me quase invisível no alvoroço da 25. Era para lá que ia quando não suportava a intensidade com que aquelas palavras ocupavam minha mente. Lá a confusão do ir e vir incessante, das cores das vitrines e dos passantes com seus estilos os mais variados libertavam-me de mim. Só o caos de formas e  de palavras alheias cruzando o mesmo espaço neutralizava a agitação infernal com que me debatia desde o início da adolescência.

         Mas naquele dia eu estava verdadeiramente insuportável. Desde o amanhecer, a saudade me empurrava para as palavras de minha  uterina impotência. Sempre me soubera de tal modo incapaz que a única dúvida que jamais experimentei foi a de que, no mundo, nada verdadeiramente me pertencia. Nada exceto a impotência.  Talvez por isso minha relação com ela fosse tão difícil. Passei parte de meus quase trinta anos a acalentá-la como quem tenta inutilmente aquecer-se a si próprio, em uma noite fria de estrelas inacessíveis. Passei a outra parte deles a rejeitá-la, como quem se julga capaz  de improvisar cobertores de lã grossa em noites também frias de estrelas tão próximas como os próprios olhos em um espelho. 

Antes de descer para o café, no espelho próximo à escada, vislumbrei o nó na garganta, persistente.  Por mais um dia, ele me negaria a possibilidade de comunicar-me com aqueles estranhos que tentavam ser gentis comigo: irmãos do segundo casamento de papai, ele próprio e sua jovem esposa. Descendo lenta a escada, ele invadiu-me novamente. Mais alto que de costume, e com um ritmo que desconhecia.

         A sua voz. A sua voz. Ela não é só sua. Entrou em mim e me toma por completo, aprisiona a minha voz, aveluda minha vida vazia, entupida de poros que nem mais liberam o bafo dos destilados importados  com que me anestesio às escondidas. Não posso me lembrar de sua voz, mas ela acompanha minha solidão noturna, minha solidão diurna como um veludo azul ocupando minha boca até o limite da falta de ar. Ela sufoca-me, mas eu a quero. Abraço o veludo como se fosse a sua voz que quero macia acalmando meu medo. Sempre o mesmo medo de morrer sem encontrar você, sem ver seus olhos me olhando, sem ouvir sua voz dirigida a mim, só a mim, verdadeiramente a mim. Preciso de sua voz porque para mim ela não é imaterial é como fosse seu corpo de onde vim e para onde quero ir,  deitar-me no veludo azul que embalou meu sono de infância.

 Quero gritar perguntando ao mundo para onde você foi, se morreu ou se não morreu. Diga-me por que me deixou aqui com eles. Sozinha num berço do qual não consigo me libertar e de onde só ouço canções de ninar que nunca existiram. Sei que talvez você não exista mais, mas a sua voz certamente resistiu e viaja pelo espaço contando histórias de escravos acorrentados que morriam olhando as estrelas. Talvez você tenha me contado alguma dessas. O que carregou sua voz para longe de mim? Vou encontrá-la jogada à sarjeta, ou em algum prostíbulo de luxo.  Preciso encontrá-la. Eles não querem me dizer nada sobre você, mas vou encontrá-la. Ouço tudo de novo. Ouço as perguntas que fiz, e ouço o silêncio indiferente deles. Mas não ouço sua voz macia e pausada. Também ela vive me abandonando. Então  vejo de novo seus olhos de cílios longos olhando para mim, dizendo-me algo. Tento em vão traduzir o movimento de seus lábios.

         Dessa vez, o discurso foi interrompido antes de seu fim quando cheguei à mesa. Cumprimentos e olhares costumeiros. A rapidez necessária ao contato mínimo. A tentativa de comunicação: garantia de consciência tranqüila. O meu intransponível silêncio. A despedida muda, e sem volta.

Saí pela porta da frente acompanhada  de palavras e  impotência. Caminhei pelas ruas certa de que algo ocorreria, e de que não seria eu o agente da transformação. Em meio ao discurso, então um pouco desconexo, reconhecia só existirem dois rumos possíveis: encontrá-la ou perder-me de meu inferno. Do alto de minha dor, sabia que isso poderia significar perder-me de mim.

Nesse estado, como uma autômata, mergulhei na 25  onde, pela primeira vez em quase vinte anos, misturei-me com tudo. E, apesar das vozes, quase senti prazer. Lembro-me de que  foi exatamente nesse momento, quando intuí a possibilidade de ser feliz, que aconteceu. Quantos anos foram necessários para sentir-me viva de novo?

Devagar do alto das minhas costas, ela veio descendo.  Muito afiada e meticulosa, vinha como quem não tem pressa e eu fui acalmando-me, cedendo à sua força, sentindo-me a um só tempo preencher-me e esvaziar-me

         Gostosamente lento, o silêncio começou a surgir quase como uma brisa morna espalhando-se no velho veludo azul. Parece que tudo foi recuperando seu lugar e os ventos começaram a soprar lentos em uma só direção. Mas ao redor, em uma outra dimensão, tudo continuava igual: os ambulantes com as bocas agitando-se rápidas, as vitrines com sua elegância fingida, as calçadas tomadas por crianças agarradas às suas mães. Todos prosseguindo no medo de se perder. Tudo quase igual.

 Mudava o ritmo, tudo era muito lento como se o mundo quisesse parar. Eu, eu também mudava enquanto meu sangue se esvaía: não tinha mais medo de perder-me de você, de mim. O bafo da bebida aos poucos foi dando espaço para a certeza de estar absolutamente sem raízes. Sentia-me balançando ao som de músicas infantis embalando pequenos móbiles azuis. Os movimentos alternando-se eram toda a  liberdade que sempre quis. Eles poderiam mudar de novo e de novo, a qualquer momento, à medida que surgissem novas músicas, ocupando o espaço do discurso compassado.

         No momento em que alguém apanhou com suavidade meu corpo e, quase flutuando, levou-o para um tecido estendido debaixo de uma árvore florida, comecei a ouvir uma voz intraduzível, dizendo-me que tudo ficaria bem, que eu jamais ficaria sozinha, que eu já poderia falar. Sorrimos. Era outono e senti uma folha deitar-se em meu ombro esquerdo. A morte, bem-amada, dava boas-vindas para a vida que me apresentaria a novas palavras.

 

 

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Uma resposta to “Uma VaLiSe de Veludo Azul”

  1. Hey Fátima, que móbiles suaves para tocar o coração da solidão em busca do eterno berço azul.

    Parabéns, que linda esta Valise aveludada de azul.

    Um abraço.

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

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