VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO ii

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Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

Édipo: “Tirésias! Tu que tudo percebes

         do mais claro ao mais denso dos mistérios

         alto nos céus ou rasteiro na terra,

         hás de sentir, mesmo sem poder ver,

         a desgraça que assola esta cidade…

         Eis, profeta, por que te procuramos

         como última defesa e salvação.”

trad. Geir Campos

 

Que é, pois, o escritor, a olhar à frente, os sentidos despertos?

 

Um olhar que apenas renomeia as coisas e não sabe mais à provocação?

 

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VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

 

por Tânia Du Bois

 

          Você já ouviu falar na cidade de joão ninguém? É a cidade onde todos mandam, ninguém obedece e poucos respeitam.

          Noel Rosa, em tempos passados, compôs uma letra com o nome de João Ninguém. O poeta teve sensibilidade para compreender o que estava acontecendo à sua volta; foi capaz de traduzir naquela música o seu tempo social. Trabalhou duro a palavra para tentar mostrar o que estava acontecendo em uma cidade saída da Revolução de 1930, num país carente da palavra. Ele soube usá-la para definir o movimento das palavras para com a música:

 

                                         “João Ninguém

                                          Que não é velho nem moço

                                          Come bastante no almoço

                                          Pra se esquecer do jantar

                                         Esse João nunca se expôs ao perigo

                                         Nunca teve um inimigo

                                         Nunca teve opinião.”

 

           Mas, nos tempos atuais, é a cidade em que o povo escuta música em volume excessivo, nos carros, nas ruas, até altas horas; os carros são estacionados de qualquer maneira, em qualquer mão. Nas lojas, parece que cada dono faz o seu próprio horário de atendimento. Não há policiamento. As casas são assaltadas à luz do dia. A novidade é que, agora, os ladrões escalam prédios e até matam para roubar. Os supermercados fixam preços de acordo com a temporada; O saneamento básico é feito e refeito. E como é a cidade de joão ninguém, não são tomadas providências, nenhuma atitude sobre absolutamente nada. Tudo é permitido, tudo podem.

           Álvaro Mutis, poeta colombiano, mostra-nos que a força das armas não contempla a permanência, ao contrário, leva à destruição e ao esquecimento; a ilusão do progresso como atos a reconfigurar a terra em novas formas de compartilhamento:

 

                                      “Senhor das armas

                                       ilusórias, faz tanto tempo

                                       que o olvido trabalha

                                       teus poderes

                                       que teu nome, teu reino

                                       e torre, o estuário

                                       as areias e as armas

                                       se apagaram para sempre…”

 

          E como vivem os forasteiros nessa cidade? Eles entendem que a cidade de joão ninguém é protegida pela natureza. Que o Sol é glorioso e a Lua quando bate no mar reflete os sonhos. Que o entardecer se confunde com as telas de Ivan Freitas. Que o mar é verde como a esmeralda, como pinceladas de Sansão Pereira. Que os pescadores pertencem à tela de Elias Andrade.

          E que, ainda, sentar no terraço e apreciar a paisagem na companhia de Mário Quintana, Jorge Luis Borges e Saramago faz com que consigam esquecer que essa cidade pertence a joão ninguém. A brisa chega com Cecília Meireles e cada momento de “Isto ou Aquilo” é desfrutado com muita sabedoria.

          Assim vivem os forasteiros na cidade de joão ninguém, tentando unir as letras ao povo, dando-lhes lápis e papel para perceberem a realidade; desafiando a cidade a arranjar um amor, uma palavra, como em Pedro Du Bois:

 

                                              “Ante todos

                                              nenhuma resposta.

 

                                              Entre todos

                                              algumas promessas.

 

                                              Tordos

                                              pássaros existentes

                                             em outras terras.”

 

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