Da VaLiSe de JANUS, uma certa TARTARUGA

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por Solange Lemos

– Mas por que temos que preservar as tartarugas-marinhas?

A pergunta foi feita assim, à queima-roupa. O biólogo do projeto Tamar não conseguiu esconder o espanto. Eu, menos ainda. Porque a pergunta vinha de uma mulher de cerca de 50 anos, mãe de família, formada em Serviço Social e que me acompanhava numa pesquisa sobre saúde no estado da Bahia.

Não era, portanto, uma simples “incauta”, inculta, ou qualquer desculpa que valesse a impertinência. A pergunta também não era retórica: ela queria mesmo saber por que alguém se preocuparia com um animal que demanda tantos cuidados de preservação e sequer pode servir, depois de crescidinho, à alimentação humana. E mesmo com todas as explicações, pacientemente dadas pelo biólogo responsável, ela não se deu por achada – continuou afirmando que não seria convencida por um projeto que “não fazia o menor sentido” para ela.

Talvez essa seja a raiz de todos os problemas ambientais na atualidade – eles não fazem sentido para muitas pessoas. Não lhes dizem respeito. E quem pode culpar esses cidadãos, pagadores de impostos, votantes, muitas vezes bastante ciosos de seus direitos, por tal indiferença? Sobretudo se esses problemas também não dizem respeito à maioria dos políticos, eleitos por esses cidadãos justamente para zelar pelo bem comum, que, pasmem, inclui o famigerado meio ambiente.

Some-se a esse comportamento uma certa tendência futurológica que, se é não exclusividade nacional, aqui se traduz na crença de que tudo é “para amanhã”. Nada mais confortável que transmitir o legado da responsabilidade para “nossos jovens e crianças”. Claro que temos visto muitos pequenos mais preocupados com o meio ambiente que seus pais. E claro que há os que não têm idéia do que seja isso, como uma garotinha que vi, no banheiro de um aeroporto, brincando, sob o olhar zeloso da mãe, com o sensor da torneira automática. A cada movimento da mãozinha, ia embora a água não utilizada pela menina, chuááá! Que fazer numa situação como essa? Repreender a criança na frente de sua genitora? Engolir em seco o desaforo e a água desperdiçada?

Parece que a solução para convencer as pessoas dos problemas coletivos é mostrar o dano que podemos sofrer se não zelarmos pelo meio ambiente. Mas quem irá se convencer se não sentir diretamente na pele esse dano, se a água não começar a bater no pescoço (o que pode acontecer na próxima enchente)? Quem poderia convencer a assistente social, inimiga das tartarugas, de que ela na verdade é um simples elo dessa cadeia natural? Certamente, ela ficaria muito ofendida.

No caso brasileiro, já é difícil persuadir as pessoas de que problemas em outros estados da nação também interferem em suas vidas. Vou ser repetitiva, mas vejam a questão da transposição do rio São Francisco. A preocupação das regiões não afetadas diretamente é mínima diante do impacto ambiental que o projeto pode acarretar. E não estou nem falando da porcentagem de argumentos favoráveis e contrários. Quem já viajou de barco pelo rio ou pelo menos viu fotos recentes de suas margens sabe a que me refiro – a mata ciliar devastada, os coqueiros que bebem gulosamente suas águas, o leito cada vez mais superficial, espécies de peixes (estes sim, destinados à sobrevivência de pescadores) desaparecidas. Será que isso não nos diz respeito?

Houve redução das queimadas nas florestas brasileiras, mas ainda não é o suficiente. Ainda há os que queimam, há venda ilegal de madeira, corrupção dos órgãos fiscalizadores. Isso para não falar na destruição das matas causada pelo calor, como aconteceu há pouco na deslumbrante Chapada Diamantina. E os efeitos dessa destruição chegam àqueles lugares distantes, que aparentemente não teriam mais nada a ver com as florestas, pois sua área verde foi quase toda desmatada – nas grandes cidades, respira-se mal, a poluição faz arder os olhos e lota os postos de saúde de crianças com problemas respiratórios.

E parecia também, até pouco tempo, que o meio ambiente sofria em silêncio os abusos contra ele. Mas essa passividade, esse silêncio eram enganadores. Como o deus Janus, ele mostra, na verdade, duas faces. Uma sofrida, visível em ribeirinhos, moradores das periferias, pessoas pobres, os primeiros a sofrer as conseqüências desses abusos. A outra face, implacável, tem irrompido em maremotos, secas, tremores de terra, furacões, pragas de insetos.

Diante dessa natureza bifronte, temos duas escolhas: mudar de planeta, ou mudar de atitude. Se é certo que a fixação humana em solo marciano ainda vai levar tempo, talvez seja melhor fazer coro com quem se preocupa e com essa natureza que grita e da qual, afinal, fazemos parte. Como as tartarugas.

 

Arte: Marco Aqueiva, a partir de

http://www.melandereppley.com/liferhyme/writers/index.html

http://www.cartoonstock.com/vintage/directory/t/temple_of_janus_gifts.asp

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