Um PoEmA VaLiSe ao DeSeNGAno

calle

Arte: Marco Aqueiva à base de Magritte & Verticis_Puer http://www.lastfm.com.br/user/Verticis_Puer 

por F Chagas

 

Uma vez escrito mais um poema,

e nele você chorar não o seu choro,

mas o choro dos meus olhos culpados

da aridez na paisagem assediada

de desejos, uma valise de êxtases

que se esfumam à luz, à fúria do Éolo

que resvala na epiderme dos prédios

sem vida, cruéis ao meu sonho cinza

 

Para você mordiscar a nervura

desse silêncio que recobre tudo

o que fere e não é poesia,

não cabe nas colunas do poema

 

O certo era não ter coração

não ter olhos e não tomar parte

no pão que o dia reparte entre

os que de rosto branco se procuram

se irmanam, grogues no parque central,

quando cruzam a avenida, um táxi,

um ônibus, o susto sob a espuma

da cerveja, fulgor da tarde em fuga

do calor, sempre com o rosto branco

 

O certo era ter uma palavra

laminada, lisa, pura, tão pura,

livre do peso das contradições,

as únicas flores que há na calçada,

as palavras a mil metros das cores

nas roupas, palavras roucas, os carros

no caos de buzinas, contra o amor

a falsidade das fachadas nuas

a melhor poesia, a mais refinada

capaz de comprimir o real no ângulo

de um alfinete, depois a explosão

a mil anos da indignação

 

Amanhã devo pegar uma faca

tão fina de se confundir com o ar,

abrirei o peito aos primeiros passos

da aurora, o coração será limpo

com água perrier, e se nada der

errado, colarei vinte etiquetas,

vinte etiquetas vindas duma loja

da Oscar Freire, num frasco de cristal.

Um poema para você chorar

de mãos dadas com cada mãe em silêncio,

os pés nas águas do dia-oceano

o terrível da palavra terrível.

o dia sem poesia, mestre do ódio

a todas as partes da construção

ilustrada pelos rostos de figuras

perturbadas com a atracação às ruas

de quilhas atraídas pela luz

 

Quem sabe esse poema de extrair

dos seus olhos parte de um desespero

enclausurado na noite, a mais

perfeita herança dessas cercanias

onde dormitam todos os desertos

pedras em chamas, terra calcinada

esse poema de dores e espanto

expulse você do sono. acorde!

seu coração nunca mais será o mesmo

 

nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca

 

 

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2 Respostas to “Um PoEmA VaLiSe ao DeSeNGAno”

  1. Chagas e sua leitura sempre lúcida e sensível da realidade.
    Que poema lindo!Doído,muito doído, mas lindo!
    Adriana.

  2. Adriana, você expressou bem meu sentimento em relação ao texto. Chagas é um bom poeta, pelo pouco que li. Espero ter acesso a mais coisa dele nas férias…

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