Arquivo para novembro, 2008

Uma VaLiSe para parTida

Posted in Art, arte, conto, Jacek Yerka, literatura, literature, narrativa on 15 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Jacek Yerka

por Ana Luíza Penha

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Foi encontrada  uma valise de tamanho médio, branca sem ranhura e sem destinatário, necessária abri-la para conhecer seu conteúdo. Em face disto é preciso testemunhas, há prognósticos aqui no Balcão. Que tal fazermos uma aposta sugerem alguns.

Alguém entre os mais sábios e sensatos de mãos magras e delicados dedos pondera. Não nos pertence nada e nem dela advindos.

Noite e dia ela na terceira prateleira, entre chapéus, embrulhos, bolsas  com frutas desenhadas, livros pálidos, e documentos perdidos.

Cada dia resplandece sua brancura, fará falta  depois de alguns dias vendo-a ali simples e majestosa ao alcance de todos, sem, no entanto,  provocar cobiça.

Nenhum odor dela emana.  Nenhuma marca indicando peso demais para seus domínios. Em não sendo procurada no tempo devido, o ajuntamento é realizado ao fim de uma tarde de poucas lembranças. 

Um dos  presentes, com ar  monárquico, sugere uma cerimônia, sua textura de pelica macia  e seu modelo estilo “bolsa do doutor” impõe  respeito. Baixam-se as portas, há um segredo a ser desvendado e agora. Eis o  impasse como violar segredos, pensou-se em dinheiro, roubo de jóias de família, atiçou-se a ganância dos que brincando pedem para dividir.

Em torno da mesa gasta, com um bisturi e perícia é rompido o lacre, aparecendo varias caixas, e dentro delas outras tantas  e ao fim, em uma minúscula delicada, o segredo  revelado, com uma breve frase: “Te amo, perdoe-me por não poder estar perto como deseja, te deixo esta para sempre que partir pense  em voltar,  mas, se já não significo nada, esqueça-a num canto qualquer.
Do seu grande e eterno amor.”

Uma VaLiSe de Veludo Azul

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, narrativa, semiótica on 14 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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 Guy Girard, Les Clés de la volaille

  

por Fátima Brito

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Embalando minha surrada bolsa vazia, caminhava, tentando assassinar meu absurdo discurso. Sentia-me quase invisível no alvoroço da 25. Era para lá que ia quando não suportava a intensidade com que aquelas palavras ocupavam minha mente. Lá a confusão do ir e vir incessante, das cores das vitrines e dos passantes com seus estilos os mais variados libertavam-me de mim. Só o caos de formas e  de palavras alheias cruzando o mesmo espaço neutralizava a agitação infernal com que me debatia desde o início da adolescência.

         Mas naquele dia eu estava verdadeiramente insuportável. Desde o amanhecer, a saudade me empurrava para as palavras de minha  uterina impotência. Sempre me soubera de tal modo incapaz que a única dúvida que jamais experimentei foi a de que, no mundo, nada verdadeiramente me pertencia. Nada exceto a impotência.  Talvez por isso minha relação com ela fosse tão difícil. Passei parte de meus quase trinta anos a acalentá-la como quem tenta inutilmente aquecer-se a si próprio, em uma noite fria de estrelas inacessíveis. Passei a outra parte deles a rejeitá-la, como quem se julga capaz  de improvisar cobertores de lã grossa em noites também frias de estrelas tão próximas como os próprios olhos em um espelho. 

Antes de descer para o café, no espelho próximo à escada, vislumbrei o nó na garganta, persistente.  Por mais um dia, ele me negaria a possibilidade de comunicar-me com aqueles estranhos que tentavam ser gentis comigo: irmãos do segundo casamento de papai, ele próprio e sua jovem esposa. Descendo lenta a escada, ele invadiu-me novamente. Mais alto que de costume, e com um ritmo que desconhecia.

         A sua voz. A sua voz. Ela não é só sua. Entrou em mim e me toma por completo, aprisiona a minha voz, aveluda minha vida vazia, entupida de poros que nem mais liberam o bafo dos destilados importados  com que me anestesio às escondidas. Não posso me lembrar de sua voz, mas ela acompanha minha solidão noturna, minha solidão diurna como um veludo azul ocupando minha boca até o limite da falta de ar. Ela sufoca-me, mas eu a quero. Abraço o veludo como se fosse a sua voz que quero macia acalmando meu medo. Sempre o mesmo medo de morrer sem encontrar você, sem ver seus olhos me olhando, sem ouvir sua voz dirigida a mim, só a mim, verdadeiramente a mim. Preciso de sua voz porque para mim ela não é imaterial é como fosse seu corpo de onde vim e para onde quero ir,  deitar-me no veludo azul que embalou meu sono de infância.

 Quero gritar perguntando ao mundo para onde você foi, se morreu ou se não morreu. Diga-me por que me deixou aqui com eles. Sozinha num berço do qual não consigo me libertar e de onde só ouço canções de ninar que nunca existiram. Sei que talvez você não exista mais, mas a sua voz certamente resistiu e viaja pelo espaço contando histórias de escravos acorrentados que morriam olhando as estrelas. Talvez você tenha me contado alguma dessas. O que carregou sua voz para longe de mim? Vou encontrá-la jogada à sarjeta, ou em algum prostíbulo de luxo.  Preciso encontrá-la. Eles não querem me dizer nada sobre você, mas vou encontrá-la. Ouço tudo de novo. Ouço as perguntas que fiz, e ouço o silêncio indiferente deles. Mas não ouço sua voz macia e pausada. Também ela vive me abandonando. Então  vejo de novo seus olhos de cílios longos olhando para mim, dizendo-me algo. Tento em vão traduzir o movimento de seus lábios.

         Dessa vez, o discurso foi interrompido antes de seu fim quando cheguei à mesa. Cumprimentos e olhares costumeiros. A rapidez necessária ao contato mínimo. A tentativa de comunicação: garantia de consciência tranqüila. O meu intransponível silêncio. A despedida muda, e sem volta.

Saí pela porta da frente acompanhada  de palavras e  impotência. Caminhei pelas ruas certa de que algo ocorreria, e de que não seria eu o agente da transformação. Em meio ao discurso, então um pouco desconexo, reconhecia só existirem dois rumos possíveis: encontrá-la ou perder-me de meu inferno. Do alto de minha dor, sabia que isso poderia significar perder-me de mim.

Nesse estado, como uma autômata, mergulhei na 25  onde, pela primeira vez em quase vinte anos, misturei-me com tudo. E, apesar das vozes, quase senti prazer. Lembro-me de que  foi exatamente nesse momento, quando intuí a possibilidade de ser feliz, que aconteceu. Quantos anos foram necessários para sentir-me viva de novo?

Devagar do alto das minhas costas, ela veio descendo.  Muito afiada e meticulosa, vinha como quem não tem pressa e eu fui acalmando-me, cedendo à sua força, sentindo-me a um só tempo preencher-me e esvaziar-me

         Gostosamente lento, o silêncio começou a surgir quase como uma brisa morna espalhando-se no velho veludo azul. Parece que tudo foi recuperando seu lugar e os ventos começaram a soprar lentos em uma só direção. Mas ao redor, em uma outra dimensão, tudo continuava igual: os ambulantes com as bocas agitando-se rápidas, as vitrines com sua elegância fingida, as calçadas tomadas por crianças agarradas às suas mães. Todos prosseguindo no medo de se perder. Tudo quase igual.

 Mudava o ritmo, tudo era muito lento como se o mundo quisesse parar. Eu, eu também mudava enquanto meu sangue se esvaía: não tinha mais medo de perder-me de você, de mim. O bafo da bebida aos poucos foi dando espaço para a certeza de estar absolutamente sem raízes. Sentia-me balançando ao som de músicas infantis embalando pequenos móbiles azuis. Os movimentos alternando-se eram toda a  liberdade que sempre quis. Eles poderiam mudar de novo e de novo, a qualquer momento, à medida que surgissem novas músicas, ocupando o espaço do discurso compassado.

         No momento em que alguém apanhou com suavidade meu corpo e, quase flutuando, levou-o para um tecido estendido debaixo de uma árvore florida, comecei a ouvir uma voz intraduzível, dizendo-me que tudo ficaria bem, que eu jamais ficaria sozinha, que eu já poderia falar. Sorrimos. Era outono e senti uma folha deitar-se em meu ombro esquerdo. A morte, bem-amada, dava boas-vindas para a vida que me apresentaria a novas palavras.

 

 

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Posted in conto, Kafka, Liberdade, literatura, literature, Opressão, semiótica on 11 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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por Carlos Pessoa Rosa

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Resolvi mudar o rumo… Sem olhar para trás. Ficar longe das vaidades inúteis. As últimas economias serviram para comprar a passagem. Tiracolo, uma valise. Leve, muito leve. Carrego o essencial, poderia dizer. Se bem que isso nada diria aos outros. Aliás, meus interesses nunca sincronizaram com o comum. Só não esperava por isso. Um sujeito fardado indicando-me um longo corredor. Faço com a cabeça que não concordo. Sinaliza para outro segurança. Achei melhor pegar o atalho. Depois do corredor, um balcão com outro segurança, o sujeito ordena que abra a valise. Perda de tempo, digo-lhe. Inútil tentativa de levá-lo a desistir. É minha função, vamos, abra logo a valise, responde-me, rispidamente. Ao abri-la, percebo certo desconforto no rosto do homem. Afinal, o que é isso? Nada… Como nada, qual o sentido disso? Nenhum… O senhor está a brincar comigo? Não! Então, o que significa isso? O que o senhor carrega nessa valise? Respiro fundo antes de responder: o silêncio. Pare de brincar comigo! Não estou brincando, é tudo o que sobrou de meu passado… O senhor será detido! Detido por carregar o silêncio… o senhor está louco? Detido por não informar adequadamente o que está carregando nessa valise. Mas já lhe disse que carrego o silêncio. O senhor está querendo gozar de mim? Seguranças, levem esse homem, ele está detido. Ainda tentei que me esclarecesse o crime… Preso por não informar ao fisco o que está carregando, sonegação de informação e, possivelmente, de imposto, além do fato de o silêncio não fazer parte da lista de possibilidades da bagagem de qualquer viajante. Apreenderam a valise para averiguações e me jogaram dentro de outro silêncio, o dos presídios, uma sala fria, de cores frias, junto de outras pessoas também detidas, mas não por carregarem uma valise onde se encontrasse o silêncio pessoal. Não demorou para me chamarem. Da valise, restos de couro e o fecho sobre a mesa. Um homem gordo, de rosto rosado, olha-me com desconfiança. O senhor é um terrorista, descobriu uma arma invisível, nos mostre como detectá-la e prometo que o libero. Digo-lhe que ninguém conseguirá apalpar ou enxergar o meu silêncio, que ele não fará mal a ninguém… O senhor talvez seja um terrorista muito bem treinado. Vamos deportá-lo! Não podem fazer isso comigo, gastei minhas últimas economias… Não temos opção. Então, devolva-me o que restou de minha valise. Viu? Praticamente confessa que há algo muito importante nessa valise. Já disse, só carrego meu silêncio. A valise ficará retida para novas averiguações. Sem minha valise eu não saio daqui, vocês terão que me matar. Mataremos, então!

(Mas não sem me devolverem o silêncio, formato de uma valise, está sobre a mesa, que eu pego e saio atravessando as paredes. Ao redor, o silêncio das profundezas, absoluto… kafkaniano.)         

Arte: Marco Aqueiva

Uma VaLiSe para o Tempo

Posted in Art, arte, crônica, literatura, literature, semiótica, Tempo on 9 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

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Jacek Yerka

               

por Solange Lemos

Uma das coisas mais preciosas que tenho aprendido é a me desvencilhar do que não me serve mais. Melhor dizendo, mais do que o mero descarte, tenho aprendido e aceitado que o tempo de tudo chega ao fim, exatamente como afirma o Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. (…) Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora”. O que pressupõe, claro, uma boa faxina, de papéis e de sentimentos.

Vivemos falando do tempo. Que ele cura todos os males, que devemos dar tempo ao tempo, que precisamos “de um tempo”. Que temos pouco ou todo do mundo, dependendo da vizinhança e da situação. Que só ele dirá.

Santo Agostinho lançou o enigma famoso: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu o sei; se desejo explicar a quem o pergunta, não o sei”. Estaria o santo filósofo variando? Caetano saiu-se com a bela mas não mais esclarecedora metáfora: o tempo, “compositor de destinos”.

Tamanho seu sucesso no hit parade ao longo dos séculos, ele, por fim, virou mercadoria. Vendemos nosso tempo à vida moderna, mas é como se, com essa operação, comprássemos um título de um clube exclusivo. Somos tão mais conceituados quanto menos tempo temos, de preferência porque trabalhamos muito, porque somos utilíssimos neste mundo em que as individualidades são facilmente descartadas e podemos perder rapidinho nosso posto. Às vezes, damo-nos conta de que o tempo está passando e de que não fizemos nada – casar, comprar bicicleta (o que seria uma medida muito inteligente e ecológica, diga-se de passagem), casa, carro, carrão, computador, celular.

Em lugar disso, alguns de nós perdem(os) tempo disparatadamente curtindo o ócio. Tomando café mais devagar, jogando conversa fora, apurando o leite na panela até ele virar doce, ralando mandioca para fazer um bolo, que dureza…

Foi meu amigo Carlos quem me chamou a atenção para minha relação diferenciada com o tempo, justamente por causa de um bolo de macaxeira, feito na véspera para sua visita. Não que eu não seja uma paulistana neurótica, que não sabe viver sem fazer pelo menos duas coisas ao mesmo tempo, que vive correndo com prazos, trabalha bem sob pressão e está muito adaptada à loucura nossa de cada dia. Mas acho que cansei de correr e também de acumular coisas e passados inúteis. Estou ficando velha? Claro! Também.

A gente gasta uma energia enorme para manter tudo sob controle, trabalha muito para acumular cada vez mais e mantém relacionamentos aos quais não consegue prestar atenção (e não percebe como muitos são verdadeiras roubadas, que merecem um descarte imediato). Se houvesse tempo para olhar tudo com mais vagar, nossa qualidade de vida seria outra – e não estou falando só de menos poluição, alimentação mais saudável, menos barriga etc. Refiro-me à qualidade das relações – com os outros e consigo.

Por isso acho tão bonito quando o Renato Teixeira (ou o Almir Sater, ou a Bethânia) canta o sabor das massas e das maçãs, já sem nenhuma pressa. E embora quase todo mundo siga um ciclo parecido – amar, chorar, chegar, partir -, é reconfortante lembrar que cada um compõe a sua história e tem o dom de ser feliz. Cada um na sua hora e vez, cada um a seu tempo.

 

CEGO ADERALDO: a VaLiSe por dentro

Posted in Art, arte, Cego Aderaldo, literature, poesia, semiótica on 9 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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por Pedro Du Bois

 

 

 

ADERALDOS

 

Digo ver

aderaldo cego

como lembra

o que nunca viu

mas sabe das cores

nuances e detalhes

da visão perdida

aderaldo cego

no que digo ver

o pássaro sobre a árvore

enluvada mão sobre o ombro

o rosto da mulher contra o vidro

 

aderaldo cego

cantor da saudade e da terra

no que não viu nem lembra

e sabe as cores e mete o nariz

 

os cheiros da terra trazem a paisagem

fechada no escuro do que não vê

aderaldo cego

que me vê no que digo

e sabe da minha face.

 

Arte: Marco Aqueiva

A VaLiSe do PROFESSOR II

Posted in Art, arte, concurso, narrativa, semiótica on 7 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva

 

 

Dando continuidade à publicação dos vencedores do concurso “O que há na valise do professor?”, temos o prazer de anunciar os alunos, do Colégio Atibaia, autores dos melhores textos na categoria NARRAÇÃO, segundo avaliação do júri. São eles:

 

– Ana Paula Scoparo – 9° ano

– Rodrigo Grosso Bourganos – 9º ano

 

É assim com imensa satisfação que parabenizamos os vencedores pela expressividade de seus textos, bem como todos os participantes pela disposição e empenho na atividade.

 

Por fim, cabe a nós agradecermos em especial o acolhimento da proposta pelos membros do júri, integrado por  

 

– Carlos Pessoa Rosa

– Carmen Presotto

– Nilza Amaral

– Pedro Du Bois

– Tânia Du Bois

 

que de pronto se dispuseram a pôr seus sobejos talentos a serviço da descoberta de novos talentos.

  

O diário do professor

 

por Ana Paula Scoparo – 9° ano

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Roberto entrou na sala de aula, com a cara amarrada de sempre, largou sua valise sobre a mesa e disse:

– Abram seus livros na página trezentos e dezoito.

         Carolina, que estava dormindo até então, levantou a cabeça inconformada.

– A não… Aula de história!

Roberto ignorou, sabia que seria assim até o fim da aula. E foi. Mal conseguiu fazer a turma copiar o quadro e deu uma explicação longa e cansativa.

         Finalmente o sinal do recreio tocou. Roberto saiu da classe, mas deixou sua valise lá. Carolina estranhou: o professor não largava de sua valise!

         – Olha só gente, a valise do professor!

         – Vamos aproveitar e ver as notas. – disse Marcelo, o aluno mais esperto da sala.

         – Deixa de ser bobo! Nós vamos procurar coisas mais interessantes…

         Gabriela pegou a mala com força e a abriu. Lá no fundo ela encontrou um caderninho preto. Carolina, entusiasmada, arrancou-o da mão de sua amiga e começou a ler:

“Dois de outubro de 2008

Eu não sei o que dizer, os meus alunos não me respeitam e acho que também não me suportam. Se a vida tivesse me dado outra maneira de eu conseguir dinheiro… Mas apesar de tudo eu adoro os meus alunos. Isso não importa mais, eles tiram notas muito baixas e eu acho que vou ser demitido em breve.”

 

         Os alunos abriram suas bocas até onde elas nunca haviam chegado antes. Eles perceberam, finalmente, que a maneira com que tratavam o professor o havia  afetado mais do que o esperado.

         No dia seguinte, haveria prova. Eles elaboraram um plano.

                                              

                                                         ***

 

         Uma semana depois, Roberto entrava na sala de aula sorrindo pela primeira vez. Um sorriso que até doía de olhar para o branco dos dentes.

         – Turma, estou muito satisfeito com o resultado da classe na prova.

         Carolina sorriu também.

         – Que bom, professor! Espero que o senhor saiba que gostamos muito de você, e não queremos que vá embora.

Diante do resultado da prova e da postura do professor, ela viu que valera a pena ter estudado tanto com seus colegas. Deixaram de ir a uma superfesta que um amigo de outra sala organizou, mas o seu professor era mais importante.  Apesar de não terem prestado atenção em todas as aulas, todos aprenderam muito com ele.  Além de coisas como a Segunda Guerra Mundial, aprenderam uma lição que vão levar para o resto de suas vidas.

         Roberto lembrou de seu diário e teve uma visão. Agora ele era o professor mais feliz do mundo.

 

 


Professor – Profissão ou Missão

 

por Rodrigo Grosso Bourganos – 9º ano

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Era o primeiro dia depois das férias do meio do ano em uma escola particular do estado de São Paulo. Os alunos se encontravam e ”colocavam o papo em dia”, pois não se viam desde Junho.

         Todos entraram na sala de aula logo que ouviram o som do sinal, avisando que a primeira aula estava prestes a começar.  Eles sentaram em suas carteiras e tiveram uma surpresa.

         Um tipo baixinho e esquisitinho, portando uma valise surrada e fora de moda, entrou na sala. Usava óculos ”tampa-de-garrafa”, tinha uma peruca na cabeça e um bigodão na cara. Sim, era muito estranho. O homem abriu a boca e disse, sorrindo, com uma voz esganiçada:

         – Bom dia! Sou o novo professor de matemática e meu nome é professor Barbosa.

         A reação de todos já era esperada. Começou a zoação’, todos falavam da sua estatura e da sua peruca, e principalmente da voz esganiçada, que, logo do fundo da sala, Zezinho começou a imitar. A classe continuou caçoando do pobre professor, que,  parado, olhava a todos.

         Permaneceu em silêncio por alguns poucos minutos, e apenas com um olhar, conseguia, pouco a pouco, ganhar o silêncio. Então disse:

         – Pessoal, caçoem de mim à vontade, sei que sou estranho, mas quero que pensem um pouco, antes de caçoarem de mim, que estou aqui para ajudar a todos! Estou aqui para que no dia em que vocês terminarem a escola, consigam passar em um bom vestibular para poderem conquistar um bom emprego! Estou aqui para passar meus conhecimentos para vocês não para torná-los em repetidores de informações, mas sim formadores de idéias! Seres capazes de raciocinar e optar pelas melhores atitudes! Estou aqui para ajudar. Pronto, agora, se quiserem, podem continuar caçoando.

         A classe não esperava ouvir algo assim daquele homem de voz esganiçada. Desde aquele dia, eles mantiveram um ótimo relacionamento com o professor, e conseguiram extrair dele tudo o que ele estava pronto a lhes dar para crescerem como indivíduos melhores.

 

Uma VaLiSe para ÍCARO

Posted in Art, arte, Ícaro, poesia, semiótica on 4 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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por Carmen Presotto

Ícaro!

 

Impossível

tombar os passos do silêncio.

 

Eles pensam!

 

O risco de cada momento

me espelha choro

de mil texturas, sou os olhos brocados

vida que enruga a alma.

 

Novela Cinza

desato cada ponto como se desamarrasse cadarços,

inundando meus pássaros

asas serão cenas

aves

desvirando os números de meus rastros…

Arte: Marco Aqueiva