Arquivo para novembro, 2008

Uma VaLiSe para o Tempo

Posted in Art, arte, crônica, literatura, literature, semiótica, Tempo on 9 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

jacek_yerka_06

Jacek Yerka

               

por Solange Lemos

Uma das coisas mais preciosas que tenho aprendido é a me desvencilhar do que não me serve mais. Melhor dizendo, mais do que o mero descarte, tenho aprendido e aceitado que o tempo de tudo chega ao fim, exatamente como afirma o Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. (…) Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora”. O que pressupõe, claro, uma boa faxina, de papéis e de sentimentos.

Vivemos falando do tempo. Que ele cura todos os males, que devemos dar tempo ao tempo, que precisamos “de um tempo”. Que temos pouco ou todo do mundo, dependendo da vizinhança e da situação. Que só ele dirá.

Santo Agostinho lançou o enigma famoso: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu o sei; se desejo explicar a quem o pergunta, não o sei”. Estaria o santo filósofo variando? Caetano saiu-se com a bela mas não mais esclarecedora metáfora: o tempo, “compositor de destinos”.

Tamanho seu sucesso no hit parade ao longo dos séculos, ele, por fim, virou mercadoria. Vendemos nosso tempo à vida moderna, mas é como se, com essa operação, comprássemos um título de um clube exclusivo. Somos tão mais conceituados quanto menos tempo temos, de preferência porque trabalhamos muito, porque somos utilíssimos neste mundo em que as individualidades são facilmente descartadas e podemos perder rapidinho nosso posto. Às vezes, damo-nos conta de que o tempo está passando e de que não fizemos nada – casar, comprar bicicleta (o que seria uma medida muito inteligente e ecológica, diga-se de passagem), casa, carro, carrão, computador, celular.

Em lugar disso, alguns de nós perdem(os) tempo disparatadamente curtindo o ócio. Tomando café mais devagar, jogando conversa fora, apurando o leite na panela até ele virar doce, ralando mandioca para fazer um bolo, que dureza…

Foi meu amigo Carlos quem me chamou a atenção para minha relação diferenciada com o tempo, justamente por causa de um bolo de macaxeira, feito na véspera para sua visita. Não que eu não seja uma paulistana neurótica, que não sabe viver sem fazer pelo menos duas coisas ao mesmo tempo, que vive correndo com prazos, trabalha bem sob pressão e está muito adaptada à loucura nossa de cada dia. Mas acho que cansei de correr e também de acumular coisas e passados inúteis. Estou ficando velha? Claro! Também.

A gente gasta uma energia enorme para manter tudo sob controle, trabalha muito para acumular cada vez mais e mantém relacionamentos aos quais não consegue prestar atenção (e não percebe como muitos são verdadeiras roubadas, que merecem um descarte imediato). Se houvesse tempo para olhar tudo com mais vagar, nossa qualidade de vida seria outra – e não estou falando só de menos poluição, alimentação mais saudável, menos barriga etc. Refiro-me à qualidade das relações – com os outros e consigo.

Por isso acho tão bonito quando o Renato Teixeira (ou o Almir Sater, ou a Bethânia) canta o sabor das massas e das maçãs, já sem nenhuma pressa. E embora quase todo mundo siga um ciclo parecido – amar, chorar, chegar, partir -, é reconfortante lembrar que cada um compõe a sua história e tem o dom de ser feliz. Cada um na sua hora e vez, cada um a seu tempo.

 

CEGO ADERALDO: a VaLiSe por dentro

Posted in Art, arte, Cego Aderaldo, literature, poesia, semiótica on 9 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

cego-aderaldo_1

por Pedro Du Bois

 

 

 

ADERALDOS

 

Digo ver

aderaldo cego

como lembra

o que nunca viu

mas sabe das cores

nuances e detalhes

da visão perdida

aderaldo cego

no que digo ver

o pássaro sobre a árvore

enluvada mão sobre o ombro

o rosto da mulher contra o vidro

 

aderaldo cego

cantor da saudade e da terra

no que não viu nem lembra

e sabe as cores e mete o nariz

 

os cheiros da terra trazem a paisagem

fechada no escuro do que não vê

aderaldo cego

que me vê no que digo

e sabe da minha face.

 

Arte: Marco Aqueiva

A VaLiSe do PROFESSOR II

Posted in Art, arte, concurso, narrativa, semiótica on 7 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

valise-professor-das-primeiras

Arte: Marco Aqueiva

 

 

Dando continuidade à publicação dos vencedores do concurso “O que há na valise do professor?”, temos o prazer de anunciar os alunos, do Colégio Atibaia, autores dos melhores textos na categoria NARRAÇÃO, segundo avaliação do júri. São eles:

 

– Ana Paula Scoparo – 9° ano

– Rodrigo Grosso Bourganos – 9º ano

 

É assim com imensa satisfação que parabenizamos os vencedores pela expressividade de seus textos, bem como todos os participantes pela disposição e empenho na atividade.

 

Por fim, cabe a nós agradecermos em especial o acolhimento da proposta pelos membros do júri, integrado por  

 

– Carlos Pessoa Rosa

– Carmen Presotto

– Nilza Amaral

– Pedro Du Bois

– Tânia Du Bois

 

que de pronto se dispuseram a pôr seus sobejos talentos a serviço da descoberta de novos talentos.

  

O diário do professor

 

por Ana Paula Scoparo – 9° ano

       _____________________

 

 

Roberto entrou na sala de aula, com a cara amarrada de sempre, largou sua valise sobre a mesa e disse:

– Abram seus livros na página trezentos e dezoito.

         Carolina, que estava dormindo até então, levantou a cabeça inconformada.

– A não… Aula de história!

Roberto ignorou, sabia que seria assim até o fim da aula. E foi. Mal conseguiu fazer a turma copiar o quadro e deu uma explicação longa e cansativa.

         Finalmente o sinal do recreio tocou. Roberto saiu da classe, mas deixou sua valise lá. Carolina estranhou: o professor não largava de sua valise!

         – Olha só gente, a valise do professor!

         – Vamos aproveitar e ver as notas. – disse Marcelo, o aluno mais esperto da sala.

         – Deixa de ser bobo! Nós vamos procurar coisas mais interessantes…

         Gabriela pegou a mala com força e a abriu. Lá no fundo ela encontrou um caderninho preto. Carolina, entusiasmada, arrancou-o da mão de sua amiga e começou a ler:

“Dois de outubro de 2008

Eu não sei o que dizer, os meus alunos não me respeitam e acho que também não me suportam. Se a vida tivesse me dado outra maneira de eu conseguir dinheiro… Mas apesar de tudo eu adoro os meus alunos. Isso não importa mais, eles tiram notas muito baixas e eu acho que vou ser demitido em breve.”

 

         Os alunos abriram suas bocas até onde elas nunca haviam chegado antes. Eles perceberam, finalmente, que a maneira com que tratavam o professor o havia  afetado mais do que o esperado.

         No dia seguinte, haveria prova. Eles elaboraram um plano.

                                              

                                                         ***

 

         Uma semana depois, Roberto entrava na sala de aula sorrindo pela primeira vez. Um sorriso que até doía de olhar para o branco dos dentes.

         – Turma, estou muito satisfeito com o resultado da classe na prova.

         Carolina sorriu também.

         – Que bom, professor! Espero que o senhor saiba que gostamos muito de você, e não queremos que vá embora.

Diante do resultado da prova e da postura do professor, ela viu que valera a pena ter estudado tanto com seus colegas. Deixaram de ir a uma superfesta que um amigo de outra sala organizou, mas o seu professor era mais importante.  Apesar de não terem prestado atenção em todas as aulas, todos aprenderam muito com ele.  Além de coisas como a Segunda Guerra Mundial, aprenderam uma lição que vão levar para o resto de suas vidas.

         Roberto lembrou de seu diário e teve uma visão. Agora ele era o professor mais feliz do mundo.

 

 


Professor – Profissão ou Missão

 

por Rodrigo Grosso Bourganos – 9º ano

      ________________________________

 

 

Era o primeiro dia depois das férias do meio do ano em uma escola particular do estado de São Paulo. Os alunos se encontravam e ”colocavam o papo em dia”, pois não se viam desde Junho.

         Todos entraram na sala de aula logo que ouviram o som do sinal, avisando que a primeira aula estava prestes a começar.  Eles sentaram em suas carteiras e tiveram uma surpresa.

         Um tipo baixinho e esquisitinho, portando uma valise surrada e fora de moda, entrou na sala. Usava óculos ”tampa-de-garrafa”, tinha uma peruca na cabeça e um bigodão na cara. Sim, era muito estranho. O homem abriu a boca e disse, sorrindo, com uma voz esganiçada:

         – Bom dia! Sou o novo professor de matemática e meu nome é professor Barbosa.

         A reação de todos já era esperada. Começou a zoação’, todos falavam da sua estatura e da sua peruca, e principalmente da voz esganiçada, que, logo do fundo da sala, Zezinho começou a imitar. A classe continuou caçoando do pobre professor, que,  parado, olhava a todos.

         Permaneceu em silêncio por alguns poucos minutos, e apenas com um olhar, conseguia, pouco a pouco, ganhar o silêncio. Então disse:

         – Pessoal, caçoem de mim à vontade, sei que sou estranho, mas quero que pensem um pouco, antes de caçoarem de mim, que estou aqui para ajudar a todos! Estou aqui para que no dia em que vocês terminarem a escola, consigam passar em um bom vestibular para poderem conquistar um bom emprego! Estou aqui para passar meus conhecimentos para vocês não para torná-los em repetidores de informações, mas sim formadores de idéias! Seres capazes de raciocinar e optar pelas melhores atitudes! Estou aqui para ajudar. Pronto, agora, se quiserem, podem continuar caçoando.

         A classe não esperava ouvir algo assim daquele homem de voz esganiçada. Desde aquele dia, eles mantiveram um ótimo relacionamento com o professor, e conseguiram extrair dele tudo o que ele estava pronto a lhes dar para crescerem como indivíduos melhores.

 

Uma VaLiSe para ÍCARO

Posted in Art, arte, Ícaro, poesia, semiótica on 4 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

__queda_icaro

por Carmen Presotto

Ícaro!

 

Impossível

tombar os passos do silêncio.

 

Eles pensam!

 

O risco de cada momento

me espelha choro

de mil texturas, sou os olhos brocados

vida que enruga a alma.

 

Novela Cinza

desato cada ponto como se desamarrasse cadarços,

inundando meus pássaros

asas serão cenas

aves

desvirando os números de meus rastros…

Arte: Marco Aqueiva

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

Posted in Art, literatura, literature, poesia, semiótica on 2 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

FAÇA A SUA VALISE 

COM PROVOCAÇÕES AO FUTURO

 

Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

 

As palavras PROJETO e PROVOCAÇÃO contêm em si uma mesma idéia: a de lançar algo à frente. A partir desta data lançaremos uma nova modalidade de VALISE, aquela que pretende PROVOCAR o FUTURO.

 

ACERTEMOS AS CONTAS COM A HISTÓRIA

 

O empenho por fazer o inventário de todas as realizações e ações humanas sempre acompanhou a trajetória do homem neste pequeno globo. A aspiração por recenseá-las a fim de dar legibilidade ao patrimônio universal resultou em projetos como a enciclopédia setecentista. Fruto desta mesma aspiração pelo que possa tipificar e exemplificar o humano, dando-lhe certa legibilidade, são as cápsulas da memória em que todo o conhecimento humano relevante armazenado em CD-ROM já segue e seguirá universo afora.

 

Quando o homem substituiu o nariz pelo olho, limitou-se severamente a cultura. O elevado excluiu as baixezas e baixarias. Tal como registra aquele que se arriscou a tirar da valise toda nossa natureza luciférica.

 

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.

 

É HORA ENTÃO DE DARMOS VISIBILIDADE ÀS NOSSAS BAIXEZAS, ainda que seja a dos outros: políticos e governantes, autoridades incivilizadas, policiais, o comerciante da esquina, aquele mendigo ali. Nós mesmos.

 

Hoje, e quinzenalmente aos domingos, nos propomos a publicar VALISES de PROVOCAÇÕES ao FUTURO.

 

Para esta nova orientação, valem textos éditos, já publicados. Que está esperando? Esperar é ter esperança Encaminhem seus textos e colaborações. Não se acanhem quanto às dúvidas. Como este projeto é coletivo, sua continuação depende de você. Estamos no escuro. Somos todos aprendizes, quer assim se deseje ou não.

 

Começamos com o despedaçamento da ordem e subordens menores em

UMA VALISE AO FOOLTURO *,  por Márcio Almeida

O homem não começou ainda a descobrir o futuro.

O que se conhece são vestígios do tempo no espaço,

migalhas de infinito em ritmo easy rider por dimensões sem olhos,

muralhas de galáxias no interior de grandes vazios

de matéria escura de um Universo em expansão.

E já é muito para tanta teimosia e rabugice.

Já é um êxtase à “Terra inescapável”

que dá o que pensar, previu Wislawa.

Como tudo que se conhece,

“hoje é o amanhã que já vai embora”.

E, possivelmente, já vai tarde com seu “futuro fictício”,

diria Felinghetti.

Para o que nem se esboça no tempo imaginário,

não há nem realidade nem recurso.

Tudo é fantasia de uma história em branco

na escuridão do imponderável,

ou de cor nenhuma, na qual, para se entrar, diria Camus,

é preciso “estar na legitimação de uma tirania.”

Sempre se estará longe, muito longe do futuro:

nunca chega o que estará sempre prestes a acontecer

e começa em todos os instantes.

Quem pode com ele é a poesia,

porque, para ela, o vir a ser não estranha a porfia por um fio,

o silêncio visual de paisagens pósteras.

Ninguém se interessa muito pelo que não faz sentido:

o futuro não permite a hipótese de salvação.

Futuro é não o que se interroga,

mas o que antepõe limite ao preconceito,

o que, diáfano, carimba a duração em míseros momentos

cosmológicos.

Ninguém quer saber o futuro: ele pré-significa o que não será

por não permitir (ainda) a testemunha de si mesmo.

Por ter a vantagem de não imortalizar nada,

não idolatrar sombras, de se recompor em mímesis,

de ir além de suposições-húmus

que se esvaem em lucidez utópica

ou em loucuras veneráveis,

de “reserva” como alimentos que esperam a hora de iludir

o gosto pelo inusitado.

 

Futuro é “janela da vulnerabilidade”,

“acidentalidade fugaz”, descontinuidade vagamente pressuposta

como “necessidade de reduzir o visível

à imposição política do dizível.”

“Exercício experimental da liberdade”

que se fragmenta em sua própria desmistificação.

No máximo, evidência em perspectiva de sonho

que “morre na nudez das manhãs”.

Tudo, portanto, condizente ao futuro,

É recorrência e make old new, futuro do pretérito,

ou “tudo o que dizia respeito às provas externas de uma Duração

única estava arruinado. O mundo não oferecia garantia

de convergência para novas durações individuais,

vividas na intimidade da consciência.”

 

Não se pode comparar o futuro

senão em relação ao passado;

o presente é apenas a sua “praga da abstração”

com sua “tortura contínua”.

Dá o que pensar:

“o tempo e o espaço, a sucessão e a continuidade

são apenas acidentes do pensamento?”

Ou que “o palpável é nada. O nada assume essência.”

Todo presumível nasce velho.

Futuro é móvel que se move.

Movediço.

Presente inesperado como a aquarela “O tecido do espaço”

de Greg Mort.

Algo que crispa, queria Blake, os “sentidos dúcteis”

de quem perdeu a “memória da sua vida eterna”

com nenhuma “solidez isenta de mudança”.

O que só agora chega, por mais longínquo,

é o passado do Universo, infância da luz,

não o que ela ilumina.

Todo futuro zera o precedente,
porque não há um rosto,

um espelho refletor da própria imagem,

porque o futuro não está.

Ele é Singularidade Nua.

Futuro é a Navalha de Occam –

corta da teoria tudo que não pode ser observado.

Não oferece um telos.

Não santifica a falência, a derrocada até então irreversível.

Futuro será quando houver platônicos Otis e Efialtes

ousando de fato “escalar os céus”,

porque então a Terra será a casa proibida,

de impossível prodigalidade.

Futuro não existe.

Ele é o que sempre falta e se ausenta.

A corda heterótica onde supor travessia para outro abismo.

O último nome a morrer, por isso, esperança.

Ou seja, a certeza finita de uma eterna ilusão.

Futuro é o que apanha o Universo

em flagrante delito de mistério,

o que faz agir quando se pensa que

“só é novo o que está esquecido”,

é a “informação concomitante”,

uma “palavra-acontecimento”

com sua certeza, probabilidade e imaginação,

é o estado de vigília,

a projeção de uma sombra à frente do acontecimento

à “ligação não-causal”, a “jubilação dos acasos”,

uma “história invisível.”

 

 

Rastros

 

Carlos Zílio – Carlos Drummond de Andrade – Ítalo Calvino – Oscar Wilde

Goethe – Louis Pauwels – Mlle Bertin – Charles Fort – Wolgang Pauli – Paul Claudel

 

* Publicado como “O futuro não existe” em FOOLTURO, premiada obra de Márcio Almeida. Conheça este livro, na íntegra, em Germina

http://www.germinaliteratura.com.br/2008/booksonline_marcioalmeida8.htm