Arquivo para dezembro, 2008

VaLiSe do eTERno MareAR

Posted in 2009, Art, arte, poesia, semiótica on 24 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte e texto: Marco Aqueiva

Tirar da valise a última saída.

De olho no objetivo não viu a pedra no meio do caminho.

De olho nas pedras não viu a poeira e as nuvens de água santa, os férteis e elevados campos do Jordão, a rotatória, a placa de advertência “Retorne agora ou perca a vez !”, os muros altos, a redoma de vidro, o queijo lá dentro e seus olhos sem fome que do opaco não escapam.

– Como então tirar da valise outra fantasia sob medida?

 

Rodemos. Caminhemos. Se é mesmo preciso caminhar, caminhemos do cerne oculto da palavra, da obscura sombra que a linguagem carrega, à vida que, mal ainda à luz, certamente será.

 

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ET: Em breve, a valise nos trará de volta. 

Uma VaLiSe ao Capitão

Posted in Art, arte, poesia, semiótica, Tradução, Walt Whitman on 19 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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                                  Walt Whitman (1819 – 1892)

                                  Tradução por Jean Cristtus Portela

OH CAPTAIN! MY CAPTAIN!

 

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,

The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,

The port is near, the bells I hear, the people all exulting,

While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;

But O heart! heart! heart!
          O the bleeding drops of red,

    Where on the deck my Captain lies,

      Fallen cold and dead.

 

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;

Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,

For you bouquets and ribbon’d wreaths–for you the shores a-crowding,

For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;

Here Captain! dear father!

  This arm beneath your head!

    It is some dream that on the deck,

     You’ve fallen cold and dead.

 

My Captain does not answer, his lips are pale and still,

My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,

The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,

From fearful trip the victor ship comes in with object won;

Exult O shores, and ring O bells!

  But I with mournful tread,

    Walk the deck my Captain lies,

      Fallen cold and dead.

 

 

 

Ó CAPITÃO! MEU CAPITÃO!

 

Ó Capitão! Meu Capitão! Nossa temerosa jornada é finda,

A nau resistiu à ruína, a recompensa almejada foi recebida,

O porto está perto, o tocar do sino é certo, o povo exulta,

Enquanto olhos seguem a sólida barcaça, nave intrépida e impoluta;
         Mas Ó coração! coração! coração!

   Gotas de sangue em fio.

      No convés repousa meu Capitão,

         Tombado morto e frio.

 

Ó Capitão! Meu Capitão! Levanta e ouve os sinos;

Levanta – por ti a bandeira está posta – por ti o clarim ressoa,

Por ti buquês e flores em coroas – por ti a praia de gente se abarrota,

Por ti eles clamam, a massa rude, suas faces ansiosas se voltam;

Aqui Capitão! Amado pai!

   Os braços lhe acenam aqui de baixo!

      Estás no convés ou em algum sonho ou desvario?

         Estás tombado morto e frio.

 

Meu Capitão não responde, seus lábios estão pálidos e imóveis,

Meu pai não sente meu toque, ele não tem mais pulso nem querer,

A nau está ancorada sã e salva, sua viagem encerrada, finda,

Da temerosa jornada a nau vencedora vem com sua missão cumprida.

Exultem Ó gentes, e toquem Ó sinos!

   Mas eu com passos pesarosos caminho

      Pelo convés onde meu capitão repousa,

         Tombado morto como em fria lousa.

 

.

 

 

Arte: Marco Aqueiva

A VaLiSe dos CãEs

Posted in Art, arte, poesia, semiótica on 17 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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(aos que lutaram e morreram por isso,

 mesmo que continuem vivos)

 

Tantos se arriscaram por nós;

saíram de suas casas, de suas vidas,

jogaram pela janela o que tinham,

seus futuros, suas mordomias,

suas vidas burguesas e pequenas.

 

Não participaram do falso milagre,

não tiveram tempo para aplaudir a seleção,

não viveram para saudar a reconstrução nacional.

 

Caminhos infames, flores sem estames,

luta, ódio, morte, fuga. O que possível foi.

 

Nós que ficamos assistindo televisão,

cuidando das nossas carreiras,

mentindo a luta que não fizemos

em mesas dos bares da vida,

agora, vemos surgir a pior das classes,

a dos que mentirosamente

tentam reescrever a história

como não a vivenciamos,

na esteira dos interesses espúrios,

nos míseros trinta dinheiros de nova traição.

 

Perdedores eternos, imorais, sem ética,

almas penadas do inferno, cães malditos.

 

(Pedro Du Bois, em OS CÃES QUE LATEM)

 

PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !

Posted in Antropofagia, Art, arte, Belo escatológico, conto, escatológico, literatura, literature, narrativa, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 14 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Os assassinos e o juiz

por Carlos Pessoa Rosa

 

Atentos aos cantos e às imagens santas, poucos peregrinos reparavam o conteúdo da banca improvisada. Os não tão fiéis, diante da carne em início de putrefação, faziam o sinal da cruz sussurrando cruz-credo e seguiam o séquito em veneração às imagens cristãs, mais devotos que antes.

O que poderiam fazer ali três sanguinários, frios assassinos, com as partes de duas – que me permitam os mais pudicos – putas que encontraram na rua e esquartejaram como não se faz nem com um animal, com as mãos ainda sujas de sangue, distantes da fé que escorria diante dos olhos, fiéis nunca os mesmos, como as águas de um rio?

Procuravam o diabo segundo a receita do sujeito dos batuques do terreiro que frequentavam, único modo de expurgarem a praga que caíra sobre eles. Disse-lhes o mirrado de branco e charuto vagabundo na boca, em transe: vai fio, pega duas muié de rua, separa as parte e dê de cumê aos rato, a sobra coloqui na rua onde vai passá a pocissã, o que o diabo aparece…

A carne apodrecia quando um dos sectários aproximou-se dos três, observou atentamente os pedaços, remexeu até encontrar o que procurava. Os companheiros entreolharam-se e, tal como falavam a mesma língua, tiveram idêntico pensamento: afinal, o que faria o diabo com a buceta de duas putas?

Quando a coisamá, sem chifre ou rabo, perguntou-lhes o preço, o mais velho foi logo dizendo, como haviam sido orientados no terreiro, que Era de graça, pagamento de dívida, prá não si preocupá. O comprador seguiu, então, sentido contrário ao culto, sendo observado pelos três que ainda acreditavam ver o rabinho balançando no ar, mas que um longo casaco não permitiria enxergar. Satisfeitos, assim que o diabo desapareceu na dobra da rua, certos que haviam liquidado a dívida com o capeta, jogaram todo o resto no bueiro próximo e saíram dali para um boteco, onde tomaram algumas pingas e o acerto foi uma dezena de balas no corpo do dono.

Não saberiam, nem precisava, que o sujeito era um fiel respeitador do dízimo, assíduo nas missas, respeitado publicamente e profissionalmente, dono de um martelo que fazia cumprir a lei com rigor, mas que tinha lá sua perversão. Leitor de Guillaume Apollinaire, não o pensador, mas o escritor de “As onze mil varas”: Aqui jaz o príncipe Vibescu/ Único amante das onze mil varas/ Valeria, melhor, passante, saiba disto, / Desvirginar as onze mil virgens.

Como o livro chegara até ele, já não sabia, mas era certa, à época, a timidez e a dificuldade de se aproximar das mulheres. Aquele parágrafo no livro, despertou-lhe estranhas fantasias com cadáveres: Mony espancou então aquele traseiro que se revolvia e cujos lábios da buceta engoliam e vomitavam celeremente a coluna cadavérica.

Muitos crimes cometidos em causa própria, enterrou no calabouço, com réu julgado e condenado por ele mesmo, mas inocente. Foi a oferta de venda de cadáver plastificado pelo médico alemão Gunther Von Hagens que levantou a possibilidade de não correr tantos riscos diante de uma tara que se transformara em uma possessão, com necessidade diária de satisfazê-la. Conseguiu, então, junto aos pares, argumentando interesse científico e médico legal, um estágio no serviço do patologista, o que lhe permitiu conhecer toda a técnica.

Voltou decidido a plastificar vaginas, teria seu problema resolvido, o que não esperava era encontrá-las à venda na rua, durante a procissão, vendida por três sujeitos de índole assassina, conhecia-os pelo cheiro e a expressão que carregavam no rosto, aquele ar de sujeito sem tempo, tão própria dos coveiros, mas que, diferentemente destes, nada lhe cobraram para ter o objeto de desejo. Em casa, retirou o casaco, levou as duas vaginas para uma oficina no fundo do quintal, retirou o ar presente na carne e plastificou o sexo das duas putas.

Os marginais foram presos meses depois, incertos de terem vendido a carne ao diabo, dúvida desvendada no dia do julgamento. Tinham diante deles, dando o veredicto, aquele que pensavam ser o capeta…

Moral da história: Um cu deve ter cheiro de cu/ E não de água de colônia…

 

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Perversões na VaLiSe – quando o desfecho?

Posted in Antropofagia, Art, arte, escatológico on 13 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Quem sabe, saberá mesmo de perversões?

A vida sabe,  saberá do opalão que guincha no asfalto bruto?

Sabe saberá dos três brutos homens que em mesas bem toalhadas estendem a formosura fendida esquartejada aos convivas engravatados?

— Domingo, 14, a conclusão desta short story.

Perversões na VaLiSe IV

Posted in Antropofagia, Art, arte, conto, escatológico, literatura, literature, Perversão, semiótica on 12 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

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Arte: Marco Aqueiva à base de olhares focados em Buñuel, Santa Maria Egipcíaca e Opalão.

(3) Sob os olhos do terceiro

por Carmen Presotto

       ———————-

Um abraço insuspeito nossa amizade.

 

Triste, no entanto, no corpo apenas as marcas do duelo…

 

Éramos três

era um Opala Preto

era um domingo à noite

 

Nas ruas, apenas os que abominam o Fantástico

ou enrolam as bandeiras suadas do futebol…

 

É!

 

Como dizer a eles que, mesmo sofrido, pior era nossa Solidão dividida a três.

 

Ela, nem mesmo Opala tinha para recontar os mal-ditos encontros de lataria.

Isso mesmo!

eles são os mesmos que em segundos a delatariam, ou mulher não seria isso: um tiro alvo ao serial 3d?

Então,mesmo que doa, assim, ela Existe…

 

Bem, há os que não assistem o sempre-fantástico e preferem outras peladas, mas desses não temos mais do que rastros dos amortecedores… e quer saber?

 

Já está tarde, amanhã, é uma palavra sempre de nativaIdade e numa época em que o sexo não tem mais réu…, deixemos tudo com Nelson Rodrigues.

 

Sim!

 

Ao escrever, guisadinho e feijoada d’elas, ainda faremos canapés de olas bem calçadas, em Ondas Fantásticas…

 

Perversões na valise III

Posted in Art, arte, conto, escatológico, literatura, literature, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 10 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

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(2) Sonhos do segundo

Cunhé cunhé cunhé cunhé. Minha vó, dá perninha de moça pra mim comer. Só tem papo de anjo, filhinho. Mas falta calda de fruta. Assim, fiozinho, quando serpente der o bote no descampado verde, traga melão, melancia, moranguinho. Antes vá lá no chão batido e pegue uns trocinhos de carvão. Não se esqueça de pôr seu narizinho de ciclope e levar a klaxon de seu avô carcamano. Põe dez real de gasosa que ninguém segura o opalão.

 

Alegria, alegria, não vim ao mundo pra ser pedra. Ninguém segura este opalão. Cracatá cracatá cracatá – melão melancia moranguinho – asa de galinha miúdos e toucinho. Cracatá cracatá cracatá. Não vim ao mundo pra ser pedra. Ninguém segura este opalão.

 

Encontrou dois enormes melões com olhos de crack, mais um figura de falências e protestos. Foi em frente dispensando a ambição robusta.

 

A melancia caiu-lhe no capô ameaçando a visibilidade. Deitou-lhe fora já na floração da vulva. Como ir além se as paisagens não se vêem tamanho o pandeiro aberto?

 

A terceira invadiu-lhe a mata resumida da tela. Sorriso, lagartixo e espadachim, fartando-se atracado a moranguinho. Chupou-lhe o penacho os bigodes e os pêlos de onde saiu ainda menino ainda pálido e magro, ainda em seu opalão preto, atrás de sua história. Atrás das frutas, com olho torto nos passarinhos e no pomar.

 

Alegria, alegria, sempre diz Eros. Pão com ovo ou banana no pão.

Não vim ao mundo para ser pedra. Cunhé cunhé cunhé cunhé.

Texto e Arte: Marco Aqueiva

Perversões na Valise II

Posted in Art, arte, Belo escatológico, conto, Francis Bacon, Pós-antropofagia, semiótica on 7 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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(1) Relato do primeiro homem

 

  

O girão dos dentes na clausura de uma malha que, inexcedível, não pode ser mais apertada. Pouco sei de arte de mão. Muito pouco mesmo. Mas o serviço é exatamente este: arrume um desses petizes bem tronchos de gordo. Desses bem lácteos a ninho. Desses petiçotes bem nutridos a danoninho e ovos de pata com leite condensado. Ah sim. Tem que ser bem branquinho, bem fornido de polenguinho, pufe e games. Desses. Não lhe dê nada pelos gorgomilos por uns dois ou três dias. Depois só uma carnezinha bem magra com água de macarrão e aquele chá de Valéria que os antigos tão bem conheciam. Pois bem. Depois de uns quinze dias apanhe de uma boa maçaroca, o fio firme e necessário. Veja que o volumoso do corpo diminuído deve ter bem reduzido o riso fácil do gordinho.

Esteja ciente de que não é fácil vestir o manequim com um número muito menor. Para a manobra é então conveniente talvez auxílio de mãos fortes e uma boa infusão de folhas de jacundá com mel. Mesmo dopado, ainda assim não é tarefa fácil. Uma vez vestida a malha é ainda bastante conveniente continuar por uns dias com a dieta inicial. O choro então nem sempre é brando. É preciso vedar bem o ambiente. Depois podem-se começar os testes. Pode-se começar com um bom regime de engorda: carboidratos, óleos vegetais e as pastas mais calóricas. Mais o que de bom hábito já consumia: iogurte, chocolates e merengues. O resultado não tarda. O girão do corpo na clausura de uma boa malha sempre nos pode arrancar um bom suspiro de contentamento. Mas particularmente prefiro fotografar e filmar os efeitos rombóides no girão dos lábios finos e doridos. É questão de mor sutileza. A dor que causamos quando tanto mais muda nos dá carreiras à alegria. E é nos olhos abatidos pela maceração que se pode alcançar o mais elevado gozo. Ademais não me faz muito bem encarar de frente embutidos, mortadela, lingüiça. Tenho estômago delicado. Sem falar que os sul-asiáticos com ar blasé sempre me pagam mais pela matéria, boa produção, quando sutilmente sugerida.

 

Texto e Arte: estudo de Francis Bacon por Marco Aqueiva

Perversões na Valise I: – Os três HoMeNS, suas VaLiSeS e o OpaLÃO PREto

Posted in Art, arte, conto, escatológico, Pós-antropofagia, semiótica on 5 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Valise de onde a CID-11

A Carlos Pessoa Rosa

por Marco Aqueiva

 

Os três homens entraram no Opalão preto. Cada um deles com sua valise. Recolheram a primeira vagabunda logo na Aurora. Deram a volta e, no mesmo lugar, abordaram a segunda, que, resistindo, obrigou o maior deles a dar-lhe um pescoção e jogá-la para dentro. São João à frente, rodaram muito até o Tremembé. Pararam num galpão abandonado. Um dos homens abriu sua valise e tirou dela um sonho voraz que lhe estendeu uma banqueta, uma enorme lona preta e um alicate. Um por um os dentes de cada uma das putas foi retirado. O mais velho não perdeu tempo. Sentado na banqueta, tirou da valise a câmera digital. O terceiro, que carregava a maior das valises, trancou as duas no porta-malas com dúzia e meia de famintos filhotes de ratazana por uns bons vinte minutos.

 

Já caía o crepúsculo, quando, com um triste sorriso de mártir, os três artífices da paixão retornaram ofertando o que semelhava vagamente a ventre sexo vísceras seios, em praça pública, numa barraquinha de lona preta, aos peregrinos em romaria à gruta de Santa Maria Egipcíaca.

 

Ao fim, discretamente, o Opalão preto seguiu em frente atirando para trás as continhas finais, dentes, artelhos, orelhas, narizes, rosário de sobras de nudez e santidade, à turba de zumbis viciosos, isolados em frente a simuladores 3D de prazer em tempo real.

Arte: Marco Aqueiva à base de Españoleto, Monica Piloni e brinquedos.

A VaLiSe de uma personAGEM quASe aNÔNIMa

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa on 2 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva à base de Magritte e Paul Delvaux

por Carmen Silvia Presotto

 

13h00, 20 de outubro de 2006. Do outro lado do continente, escuto sons diversos. Miro meus olhos nos passantes. São diversos, também em cores e tamanhos. São diferentes e, como se eu fosse uma lente, objetivo meus olhos até me deparar com três pessoas.

Miro melhor, ao fundo está a personagem que acabo de conhecer.

Ela se veste com um casaco preto. Na cabeça, usa um chapéu tipo bolo de noivas, em várias camadas. Em suas mãos está uma sacola, que de quando em quando é aberta. Aparenta uns 80 anos, algo no ar me sopra seu nome: Simone.

Seus olhos buscam escapar dos meus. Parece saber que um escritor é uma porta que se desvia do senso comum, alguém que se deseja ao trocar de tempo.

Na catedral toca o sino.

E Simone me faz lembrar de quando ela era uma jovem de 19 anos, que ficava horas sentada, sempre no mesmo banco, talvez desta mesma praça à espera de seu amado, listado para as forças da SS…

Aproximo mais meus ouvidos e a escuto murmurar que começaram a namorar quando assistiam Cantando na Chuva, por ironia, um filme americano que depois a fez desistir de todos seus sonhos.

Sim, porque eles, certamente, eram os mocinhos que unidos aos ingleses desembarcaram na Normandia e que depois, quando tudo já estava findando, vieram pelo sul da Itália para salvar a Europa… É, provavelmente, encontraram-se com Sergei no Front.

Enquanto meus olhos a focavam, caíam algumas lágrimas. Pergunto-lhe o motivo e ela conta que por muito tempo deixou de ir ao cinema. Fala Nada de Novo no Front, Julgamento em Nuremberg  e eu lhe falo de Mediterrâneo.

Com filmes, atualizamos nossas telas, fronteiras sob os reflexos que choviam de seus olhos. Juntas recordamos quando na  guerra Spencer Tracy, entre outros, cortaram os arames farpados para comemorarem um natal, assim como os italianos que nunca chegaram à Guerra, para das margens do mediterrâneo nos mostrarem como a guerra tem hora, data e agenda marcada.

Simone se alegra, segue conversando, conta-me que há pouco seu terapeuta recomendou que revesse ao Desembarque da Normandia, pois isso a ajudaria a lembrar do esquecimento. Congelando Dunquerque, todos seriam europeus e que tudo vivido seria como um filme, uma tela feita de vidas.

Ao sentir um longo suspiro, pergunto-lhe por sua família. E ela me fala que depois de Sergei, não se encantou por mais ninguém, que ainda guarda suas cartas e abraça a bolsa que segura em seu colo. Olhando longe, fala que a última recebida, fora em Janeiro de 1944.

Desconfiada, curiosa para ver sua sacola, ela me pressente e a agarra com as duas mãos, dizendo-me que ali está sua vida.

Como assim, pergunto?

A minha família, o meu grande amor, a minha esperança, tudo está aqui entre estas alças.

Espero uns minutos. Ofereço-lhe um cigarro. Ela aceita. Ficamos mudas, esperando o tempo acontecer. Ao terminarmos o cigarro, entre fumaças, ela vagarosamente abre a sacola e dela vai desvelando seu templo.

Primeiro, mostra uma moça junto a um jovem de olhos azuis e cabelos negros em lindos trajes. 

Ao mirar a cena, deduzo serem eles, olho para ela e sinto seu olhar amargurado, confirmando o que depois a despiria: uma menina de trança e com sardas num lindo avental xadrez que segue falando, e esta é Íris, minha irmã menor.

Aos poucos, vai abrindo suas comportas, expondo a mim suas entranhas, até chegar a foto de um casal mais maduro, seus pais.

No exato momento da foto que me mostrara, pergunto o que fazia aos 19 anos. Ela responde que estudava para ser arquiteta e, então, estourou a guerra e teve que ir trabalhar como voluntária da Cruz Vermelha.

Convido-a para outro café. Desta vez, sentamos em uma mesa e percebo que ela puxa uma cadeira a mais, e ali deposita sua sacola.

Ossos, penso eu… Vida me diz ela, parecendo ler meus pensamentos.

Ao me ver anotando, retrai-se. Falo-lhe que é para lembrar mais tarde do que ela deseja esquecer e juntas sorrimos.

Nesse momento, já estávamos cúmplices.

Chega o café, enquanto Simone me fala que nascera perto de Nuremberg, em Wolkersdorfen, 30 quilômetros do centro da cidade e que sua gente era de uma família tradicional de tecelãs, faziam tecidos para chapéus.

Bávaros, brinco eu?

Sim, diz ela, bávaros, em camadas e segue recontando sobre sua vida. Diz que teve duas irmãs e um irmão, sendo ela a mais velha e  que com a vinda da guerra foram morar em Luxemburgo, nas terras que eram de seus avôs maternos.

Lá, começaram a viver da colheita de aveia. Mas, que em 1939, viera para cá, aponta a praça da Catedral, onde conhecera Sergei, um francês-judeu, que também estudava arquitetura e que começaram a namorar.

Emudece uns segundos, logo diz que a SS terminou com tudo.

Surpreendo-me com uma alemã falando mal do que viveram, digo isso a ela e escuto: eu sempre fui européia, humana… porém, durante um tempo, este ser alemão foi algo maior, até o chegar dos norte-americanos.

Pergunto o porquê do banco da praça?

Ao que me responde, que nunca mais quis casar, pois passou a se dedicar à família e que ali  é como o corredor de sua casa, ali corre toda a sua vida, todo o tempo, o vivido e o que sempre esteve por vir e não veio.

Como?

Sim, diz ela!

Sento-me aqui neste banco para viajar como se meu corpo fosse a máquina de outro tempo, onde meus olhos pilotam as horas junto a sacola que carregam minhas mãos.

Chega um pombo, ela o alimenta e, como se eu não existisse, segue falando a ele, que talvez devesse anotar meu endereço, perguntar meu nome, mas para quê?

 

Levanto-me, tem momentos que somos demais. A uma história, às vezes, somos um simples vento…