A VaLiSe de uma personAGEM quASe aNÔNIMa

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Arte: Marco Aqueiva à base de Magritte e Paul Delvaux

por Carmen Silvia Presotto

 

13h00, 20 de outubro de 2006. Do outro lado do continente, escuto sons diversos. Miro meus olhos nos passantes. São diversos, também em cores e tamanhos. São diferentes e, como se eu fosse uma lente, objetivo meus olhos até me deparar com três pessoas.

Miro melhor, ao fundo está a personagem que acabo de conhecer.

Ela se veste com um casaco preto. Na cabeça, usa um chapéu tipo bolo de noivas, em várias camadas. Em suas mãos está uma sacola, que de quando em quando é aberta. Aparenta uns 80 anos, algo no ar me sopra seu nome: Simone.

Seus olhos buscam escapar dos meus. Parece saber que um escritor é uma porta que se desvia do senso comum, alguém que se deseja ao trocar de tempo.

Na catedral toca o sino.

E Simone me faz lembrar de quando ela era uma jovem de 19 anos, que ficava horas sentada, sempre no mesmo banco, talvez desta mesma praça à espera de seu amado, listado para as forças da SS…

Aproximo mais meus ouvidos e a escuto murmurar que começaram a namorar quando assistiam Cantando na Chuva, por ironia, um filme americano que depois a fez desistir de todos seus sonhos.

Sim, porque eles, certamente, eram os mocinhos que unidos aos ingleses desembarcaram na Normandia e que depois, quando tudo já estava findando, vieram pelo sul da Itália para salvar a Europa… É, provavelmente, encontraram-se com Sergei no Front.

Enquanto meus olhos a focavam, caíam algumas lágrimas. Pergunto-lhe o motivo e ela conta que por muito tempo deixou de ir ao cinema. Fala Nada de Novo no Front, Julgamento em Nuremberg  e eu lhe falo de Mediterrâneo.

Com filmes, atualizamos nossas telas, fronteiras sob os reflexos que choviam de seus olhos. Juntas recordamos quando na  guerra Spencer Tracy, entre outros, cortaram os arames farpados para comemorarem um natal, assim como os italianos que nunca chegaram à Guerra, para das margens do mediterrâneo nos mostrarem como a guerra tem hora, data e agenda marcada.

Simone se alegra, segue conversando, conta-me que há pouco seu terapeuta recomendou que revesse ao Desembarque da Normandia, pois isso a ajudaria a lembrar do esquecimento. Congelando Dunquerque, todos seriam europeus e que tudo vivido seria como um filme, uma tela feita de vidas.

Ao sentir um longo suspiro, pergunto-lhe por sua família. E ela me fala que depois de Sergei, não se encantou por mais ninguém, que ainda guarda suas cartas e abraça a bolsa que segura em seu colo. Olhando longe, fala que a última recebida, fora em Janeiro de 1944.

Desconfiada, curiosa para ver sua sacola, ela me pressente e a agarra com as duas mãos, dizendo-me que ali está sua vida.

Como assim, pergunto?

A minha família, o meu grande amor, a minha esperança, tudo está aqui entre estas alças.

Espero uns minutos. Ofereço-lhe um cigarro. Ela aceita. Ficamos mudas, esperando o tempo acontecer. Ao terminarmos o cigarro, entre fumaças, ela vagarosamente abre a sacola e dela vai desvelando seu templo.

Primeiro, mostra uma moça junto a um jovem de olhos azuis e cabelos negros em lindos trajes. 

Ao mirar a cena, deduzo serem eles, olho para ela e sinto seu olhar amargurado, confirmando o que depois a despiria: uma menina de trança e com sardas num lindo avental xadrez que segue falando, e esta é Íris, minha irmã menor.

Aos poucos, vai abrindo suas comportas, expondo a mim suas entranhas, até chegar a foto de um casal mais maduro, seus pais.

No exato momento da foto que me mostrara, pergunto o que fazia aos 19 anos. Ela responde que estudava para ser arquiteta e, então, estourou a guerra e teve que ir trabalhar como voluntária da Cruz Vermelha.

Convido-a para outro café. Desta vez, sentamos em uma mesa e percebo que ela puxa uma cadeira a mais, e ali deposita sua sacola.

Ossos, penso eu… Vida me diz ela, parecendo ler meus pensamentos.

Ao me ver anotando, retrai-se. Falo-lhe que é para lembrar mais tarde do que ela deseja esquecer e juntas sorrimos.

Nesse momento, já estávamos cúmplices.

Chega o café, enquanto Simone me fala que nascera perto de Nuremberg, em Wolkersdorfen, 30 quilômetros do centro da cidade e que sua gente era de uma família tradicional de tecelãs, faziam tecidos para chapéus.

Bávaros, brinco eu?

Sim, diz ela, bávaros, em camadas e segue recontando sobre sua vida. Diz que teve duas irmãs e um irmão, sendo ela a mais velha e  que com a vinda da guerra foram morar em Luxemburgo, nas terras que eram de seus avôs maternos.

Lá, começaram a viver da colheita de aveia. Mas, que em 1939, viera para cá, aponta a praça da Catedral, onde conhecera Sergei, um francês-judeu, que também estudava arquitetura e que começaram a namorar.

Emudece uns segundos, logo diz que a SS terminou com tudo.

Surpreendo-me com uma alemã falando mal do que viveram, digo isso a ela e escuto: eu sempre fui européia, humana… porém, durante um tempo, este ser alemão foi algo maior, até o chegar dos norte-americanos.

Pergunto o porquê do banco da praça?

Ao que me responde, que nunca mais quis casar, pois passou a se dedicar à família e que ali  é como o corredor de sua casa, ali corre toda a sua vida, todo o tempo, o vivido e o que sempre esteve por vir e não veio.

Como?

Sim, diz ela!

Sento-me aqui neste banco para viajar como se meu corpo fosse a máquina de outro tempo, onde meus olhos pilotam as horas junto a sacola que carregam minhas mãos.

Chega um pombo, ela o alimenta e, como se eu não existisse, segue falando a ele, que talvez devesse anotar meu endereço, perguntar meu nome, mas para quê?

 

Levanto-me, tem momentos que somos demais. A uma história, às vezes, somos um simples vento…

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Uma resposta to “A VaLiSe de uma personAGEM quASe aNÔNIMa”

  1. Um abraço Marco!!!

    Obrigada pela divulgação, agora um momento de viagem saiu do canto do olho, dobrou os cílios da vida e deixpu de ser menos anônima.
    Logo, esta Valise estará reabrindo o Vidráguas!!!

    Carinho e gracias.

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

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