PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !

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Os assassinos e o juiz

por Carlos Pessoa Rosa

 

Atentos aos cantos e às imagens santas, poucos peregrinos reparavam o conteúdo da banca improvisada. Os não tão fiéis, diante da carne em início de putrefação, faziam o sinal da cruz sussurrando cruz-credo e seguiam o séquito em veneração às imagens cristãs, mais devotos que antes.

O que poderiam fazer ali três sanguinários, frios assassinos, com as partes de duas – que me permitam os mais pudicos – putas que encontraram na rua e esquartejaram como não se faz nem com um animal, com as mãos ainda sujas de sangue, distantes da fé que escorria diante dos olhos, fiéis nunca os mesmos, como as águas de um rio?

Procuravam o diabo segundo a receita do sujeito dos batuques do terreiro que frequentavam, único modo de expurgarem a praga que caíra sobre eles. Disse-lhes o mirrado de branco e charuto vagabundo na boca, em transe: vai fio, pega duas muié de rua, separa as parte e dê de cumê aos rato, a sobra coloqui na rua onde vai passá a pocissã, o que o diabo aparece…

A carne apodrecia quando um dos sectários aproximou-se dos três, observou atentamente os pedaços, remexeu até encontrar o que procurava. Os companheiros entreolharam-se e, tal como falavam a mesma língua, tiveram idêntico pensamento: afinal, o que faria o diabo com a buceta de duas putas?

Quando a coisamá, sem chifre ou rabo, perguntou-lhes o preço, o mais velho foi logo dizendo, como haviam sido orientados no terreiro, que Era de graça, pagamento de dívida, prá não si preocupá. O comprador seguiu, então, sentido contrário ao culto, sendo observado pelos três que ainda acreditavam ver o rabinho balançando no ar, mas que um longo casaco não permitiria enxergar. Satisfeitos, assim que o diabo desapareceu na dobra da rua, certos que haviam liquidado a dívida com o capeta, jogaram todo o resto no bueiro próximo e saíram dali para um boteco, onde tomaram algumas pingas e o acerto foi uma dezena de balas no corpo do dono.

Não saberiam, nem precisava, que o sujeito era um fiel respeitador do dízimo, assíduo nas missas, respeitado publicamente e profissionalmente, dono de um martelo que fazia cumprir a lei com rigor, mas que tinha lá sua perversão. Leitor de Guillaume Apollinaire, não o pensador, mas o escritor de “As onze mil varas”: Aqui jaz o príncipe Vibescu/ Único amante das onze mil varas/ Valeria, melhor, passante, saiba disto, / Desvirginar as onze mil virgens.

Como o livro chegara até ele, já não sabia, mas era certa, à época, a timidez e a dificuldade de se aproximar das mulheres. Aquele parágrafo no livro, despertou-lhe estranhas fantasias com cadáveres: Mony espancou então aquele traseiro que se revolvia e cujos lábios da buceta engoliam e vomitavam celeremente a coluna cadavérica.

Muitos crimes cometidos em causa própria, enterrou no calabouço, com réu julgado e condenado por ele mesmo, mas inocente. Foi a oferta de venda de cadáver plastificado pelo médico alemão Gunther Von Hagens que levantou a possibilidade de não correr tantos riscos diante de uma tara que se transformara em uma possessão, com necessidade diária de satisfazê-la. Conseguiu, então, junto aos pares, argumentando interesse científico e médico legal, um estágio no serviço do patologista, o que lhe permitiu conhecer toda a técnica.

Voltou decidido a plastificar vaginas, teria seu problema resolvido, o que não esperava era encontrá-las à venda na rua, durante a procissão, vendida por três sujeitos de índole assassina, conhecia-os pelo cheiro e a expressão que carregavam no rosto, aquele ar de sujeito sem tempo, tão própria dos coveiros, mas que, diferentemente destes, nada lhe cobraram para ter o objeto de desejo. Em casa, retirou o casaco, levou as duas vaginas para uma oficina no fundo do quintal, retirou o ar presente na carne e plastificou o sexo das duas putas.

Os marginais foram presos meses depois, incertos de terem vendido a carne ao diabo, dúvida desvendada no dia do julgamento. Tinham diante deles, dando o veredicto, aquele que pensavam ser o capeta…

Moral da história: Um cu deve ter cheiro de cu/ E não de água de colônia…

 

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3 Respostas to “PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !”

  1. Caro Carlos Pessoa Rosa, que belo desfecho!

    Concordo com a tal da moral de tua história, por que vá que cu tivesse cheiro de água de colônia, viraria moda. Ai, em vez de nos empanturrarmos de águas de fontes,aqueiva!, logo estaríamos bebendo perfumes. Ou pior: fazendo competições dos cocôs mais perfumados…

    Bem, desvendado os lugares e atos, segui passeando com a idéia do Opalão e cheguei a Sylvia Plath com o Poema Manequins de Munique, onde ela sublima qualquer buceta platificada a seguir uma lingua viva…
    Marco, tomara que caiba, caso não me corta e aos dois, gracias!!!

    Os Mannequins de Munique

    A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
    Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

    Onde os teixos inflam como hidras,
    A árvore da vida e a árvore da vida.

    Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
    O jorro de sangue é o jorro do amor,

    O sacrifício absoluto.
    Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

    Eu e você.
    Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

    Esses manequins se inclinam esta noite
    Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

    Nus e carecas em seus casacos de pele,
    Pirulitos de laranja com hastes de prata

    Insuportáveis, sem cérebro.
    A neve pinga seus pedaços de escuridão.

    Ninguém por perto. Nos hotéis
    Mãos vão abrir portas e deixar

    Sapatos no chão para uma mão de graxa
    Onde dedos largos vão entrar amanhã.
    Ah, essas domésticas janelas,
    As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

    Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
    E nos ganchos, os telefones pretos

    Cintilando
    Cintilando e digerindo

    A mudez. A neve não tem voz.

    translated by Claudia Roquette-Pinto
    (in VERVE journal, issue 14,Brazil, 1988, p. 8)

    Abraços,
    Carmen Silvia Presotto

  2. Carmen:

    Não conhecia o poema, mas a Revista, sim. Ainda tenho algumas em casa. Pena seu desaparecimento – mas é o custo Brasil-cultura. Quanto ao texto, um pouco de Kafka e o lado depravado, e pouco conhecido, de Apollinaire: existem crimes horrendos escondidos debaixo de togas e títulos.

  3. Carmen e Carlos:

    Imensamente satisfeito estou com a adesão de ambos.
    Espero que possamos dar continuidade a aventuras semelhantes em 2009.

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