VaLiSe para que ninguém a ouvisse

delvaux2Paul Delvaux The Village of the Mermaids

por dirce lorimier fernandes

 

Hoje retiro de minha valise um velho baú, o vestido de noiva amarelado…

 

Vejo-a sozinha olhando pela janela parecendo observar a paisagem correndo, misturando cores e perfumes… perguntando por quê?

Aquilo era só o início. O noivo a deixara ali para ir conversar com o prefeito e o delegado, moradores da mesma cidadezinha, sentados ao fundo, uns dez bancos atrás.

 

O trem estava quase vazio.

 

Sem ter feito reserva, desceram, ela e o marido, numa cidade a 60 km do ponto de partida e depois de muita procura, esbarrando na aurora, foram alojados num depósito de hotel… roupas usadas amontoavam-se aqui e ali, mercadorias para limpeza, baratas, muitas baratas esvoaçavam atordoadas pelo calor reinante.

 

Logo ao amanhecer, iniciaram o percurso de mais uns 400 km e se alojaram num hotel com mais estrelas… ela foi tomar banho no final do corredor e, inadvertidamente, abriu ao mesmo tempo as duas torneiras provocando uma enorme explosão…  ficou perdida, nua, no meio da névoa que procurava escapar pelo corredor afora.  

 

À noite ele a mandou ao bar do hotel buscar “uma cerveja bem gelada”. Ali, sentiu-se objeto de olhares e sussurros pouco lisonjeiros. Mesmo assim, voltou calada para o quarto, com a cerveja.

 

Ao final da semana, iam arrastando as malas quando ela deparou numa vitrine uma reluzente panela de pressão e decidiu comprá-la; ninguém a obsequiara com tal troféu.

 

Atravessava o grande parque abraçada à dita panela, quando foi despertada de seu devaneio com um grande berro, alertando-a para andar mais depressa. Na esquina, tomaram um ônibus com destino à cidade mais próxima onde ele tinha um velho amigo.

 

Foram instalados no quarto da bagunça… uma enorme cama de casal os esperava em meio a brinquedos velhos espalhados, baús, enfim, a história da família era mal conservada ali. Ela percorreu o olhar por tudo aquilo, pensou… de sua garganta uma enorme bola de desencantos se evadiu pelos seus olhos tristes. Ele apertou a cara dela contra o travesseiro para que ninguém ouvisse aqueles soluços guardados há sete dias.

 

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Vestida e tida como a segunda dama da cidadezinha, tornara-se objeto do olhar ressentido das moças porque se casara com o “melhor partido” da cidade.

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Uma resposta to “VaLiSe para que ninguém a ouvisse”

  1. Dirce!

    E não é que o viram?
    Sob pressão, se faz muitas coisas, até mesmo casar com o melhor partido da cidade.

    Que bom te ler.

    Abraços.
    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

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