Três VaLiSeS como ponto de ParTiDa

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Uma valise à partida I

por Herman Melville

 

Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parando involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam… então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é meu substituto para pistola e a bala.

 

***  **  ***

 

Uma valise à partida II

por Marco Aqueiva

 

Há um desenho conhecidíssimo de Mário de Sá-Carneiro, de autoria do também órfico José de Almada Negreiros, que se notabiliza talvez por desvelar mais a imagem e a condição de poeta deste dileto confrade de Fernando Pessoa do que os inúmeros retratos que dele se fizeram em vida. Cabeça exageradamente pendida para trás, assume a figura representada ar perdido e contemplativo – o ar perdido e contemplativo de uns olhos vazios, fugidios, talvez em fuga da realidade, alçando-se da sensação ocasional e exterior, estimulada pelo meio circunstante, a correr no azul à busca da beleza.  Uma partida depois da outra Sá-Carneiro atualizou até certo ponto o nobre Xavier de Maistre.

 

***  **  ***

 

Uma valise à partida III

por Flávio Viegas Amoreira

 

Um filme de ação que inclui todos elementos de incerteza e desespero contemporâneos: assim é o último ´´Batman´´. Parece incrível que indústria do cinema exponha de modo tão surreal as mazelas dum mundo que sucumbe ao consumismo e à auto-destruição entorpecido por tentativas irracionais de redenção.

A corrupção entranhada nos interesses de oligopólios, a economia desapegada de qualquer consideração humanística, o convívio antropofágico e ultracompetitivo nas metrópoles e o conformismo das massa alienadas são barril de pólvora ao pior dos horizontes: o niilismo, o momento em que a humanidade dará de ombros ao futuro e dirá ´´ mais nada a fazer…´´ Vendo Heath Ledger no papel do Coringa reporto a outros clássicos do bizarro ou patético: Charles Laughton no ´´Corcunda de Notre-Dame´´, Glória Swanson´Crepúsculo dos Deuses´´), Betty Davis (´´Baby Jane´´), Jack Nicholson (´´Iluminado´´) ou Anthony Hopkins (´´Silêncio dos Inocentes´´); Ledger  é magistral interprete do ´´Anticristo´´ de Nietzsche ou do ´´Homem Revoltado´´ de Camus. Profético momento em que o homem com rosto marcado de dor incinera pilhas de dinheiro roubado: Batman é super-herói fragilizado diante da onipresença de interesses mesquinhos e da ausência de utopias; só  o Coringa é capaz de colocar a nu a farsa das instituições, a impotência da Lei e as grandes corporações tomando lugar do Estado. A ambígua inteiração entre Bem e Mal e o fracasso dum projeto coletivo para o planeta são palco certo para Coringas aguardando o circo pegar fogo. Uma frase lapidar de Ledger, o palhaço das sombras: ´´A chave do caos é o medo.´´ Com o fim da guerra fria, convivemos não mais com uma hecatombe nuclear, mas vários estados paralelos, bombas sujas, conflitos pelo que resta de recursos naturais e o estilhaçamento do terror: a fobia é onipresente sem acordos bilaterais ou força de dissuasão ‘a anarquia. Quem negocia com quem? Qual última instância para tanta irracionalidade maquiada de ordem? As novas crenças servem ao bem-estar do indivíduo e sua prosperidade financeira: em cada esquina um bezerro de ouro é exaltado em nome da moral e da concorrência : as patologias agoram falam em Deus como drogas anti-desespero. O capitalismo é um fascismo em conta-gotas: o homem é livre só para querer! Não mais basta ser, nem mesmo ter, mas querer incessante. Quando todos ´desejarem´ querer, viveremos um cenário de ´´O Reino do Amanhã´´, livro premonitório de J.G. Ballard: ´´Os subúrbios sonham com a violência´´, diz esse mestre da ficção que antevê totalitarismo para conter a desordem numa sociedade sem perspectivas de compra ‘as suas inutilezasHeath Ledger ganhará o Oscar póstumo como ícone duma juventude sem rebeldia: vejo nos que chegam só desmotivação e desassistência. Ballard luta contra um câncer legando um documento sobre um mundo perigoso e transtornado.

Nessa passagem de ano as comemorações em Paris não tiveram luz e fogos de sempre: os afortunados temiam distúrbios das periferias. Vendo Heath Ledger e o sorriso deformado volto ‘a Albert Camus e o que sobrará para essa nossa ´´Gotham City´´: ´´revolta absoluta, insubmissão total, sabotagem como princípio, humor e culto do absurdo´´.  O caos só será vencido sem a cínica gargalhada do medo: Heath Ledger merece estatueta dourada do paraíso. Os visionários não passam do Sinai.

Cultura pop ou erudita me dizem o mesmo: o ser humano parece programado para sua auto-destruição.

Publicado primeiramente em http://revistapausa.blogspot.com/

 

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Arte: Marco Aqueiva 

 

 

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2 Respostas to “Três VaLiSeS como ponto de ParTiDa”

  1. I. Texto enxuto, com suspense à excelente finalização.
    II. Interessante, muito bem escrito.
    III. Muito bom, talvez menos analógico ficaria melhor ainda.
    (Heath Ledger deixou uma estatueta póstuma, bem ao estilo hollywoodiano. Sua atuação foi ótima, mas que coisa maluca antecipar um prêmio, desconhecendo outros excelentes concorrentes. DEAD POWER).
    Abração!

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