Três VaLiSeS à InFâNciA i

campello-allegorie-ii-450Mario Campello

CAIXA DE MEMÓRIAS:  OS TACOS

por HENRIETTE EFFENBERGER

        

         O chão da sala de minha casa era recoberto por tacos de madeira pequenos, escuros  e cuidadosamente encerados. Talvez, pelos muitos anos de uso ou, quem sabe,  porque tenham sido mal colocados, alguns deles se soltaram e eu, menina, imaginava que debaixo do piso de cimento estaria enterrado um tesouro.

 Mas o cimento era duro e impossível de ser perfurado, apesar de todos meus esforços. E eu me utilizava  de pedaços de pau, pedra ou qualquer outro objeto pontiagudo que me caísse às mãos! Para mim continuava o mistério: e se  não fosse um tesouro e sim uma passagem secreta para o reino mágico de fadas e duendes minúsculos?

         Às vezes, acontecia de alguma formiga se refugiar sob o taco solto e  o fato aguçava minha imaginação e fortalecia minhas conjecturas de criança, imaginando  que poderia  montar o inseto como se fosse um cavalo e descobrir através das frestas e rachaduras do cimento os segredos tão bem guardados e as fadas que me realizariam as vontades. Chegava a me angustiar  ante a possibilidade de me ser permitida a expressão de apenas um desejo e me atormentava a  dúvida entre pedir a boneca “Amiguinha” ou uma  bicicleta (na qual nunca aprendi a andar).

         Mas eu tinha outros desejos  bem mais fáceis de serem atendidos: não precisar comer toda a comida que me punham no prato, livrar-me das botas pesadas que corrigiriam meus pés chatos” ou ter cabelos compridos que nunca precisassem ser desembaraçados…

         Fantasiava também que  a fada me daria o poder de fazer com que determinadas pessoas desaparecessem para sempre e eu já via  indo pelos ares a vizinha gorda de sorriso asqueroso, o homem da carrocinha que recolhia  cachorros e o dono do açougue com seu avental sujo de sangue…

         Jamais consegui localizar o tesouro secreto. As fadas e os duendes também nunca me apareceram. Nem mesmo, quando eu já não tinha nenhuma dúvida sobre qual seria meu único e definitivo desejo : ter meu pai, de novo, em casa.

 

___________________________

 

Do LIVRO  LINHAS TORTAS  – 2008

 

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Uma resposta to “Três VaLiSeS à InFâNciA i”

  1. Henriette!!!

    Que belo passeio pelos bosques imaginários e realMENTE infantil.

    Bem, que os tacos da memória, sigam cimentando mais andanças e viagens
    e sempre bom retornos a mais Valises…

    Abraços,
    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

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