CARNAVÁRIO – Três VaLiSeS para a FoLiA

carnaval-di-cavalcanti

Di Cavalcanti – Carnaval

por MARCO AQUEIVA

 

 

 

No riso que

                    desce

                              sem saciedade

um riso que se autocoroa coletivo

exilado por quatro noites de sua dor

no carro abre-alas e o sorriso em show

o poeta dança enquanto vive

                                          morre

quando não dança voluntariamente

 

e ainda pergunta-se: com que samba

 

eu vou?  

 

bosch_129_2020-delicias Boscho Jardim das Delícias Terrenas

 

Por NILTO MACIEL *

A festa no balneário começou cedo da noite. Centenas de jovens da cidade e mais alguns visitantes. Todos em trajes de carnaval. Camisetas, bermudas e xortes coloridos. A orquestra tocava sem parar. Marchinhas antigas, em pupurri, misturavam-se a músicas baianas e frevo. Todos pulavam, saltitavam, dançavam, num frenesi contagiante. Tudo fremia cabeças, troncos, membros, cadeiras, mesas, latas, o chão. Cantavam e gritavam. Poeira e fumaça no ar. Eurico tocou as nádegas de uma garota. Gilberto, Jesonias e Carlos gingavam ao redor de uma mesa. Otávio chamou Noé a um canto. Alessandra, Cátia e Márcia sacudiam os quadris no meio do salão. Jesonias sentou-se para fumar. Aluísio, Orlando e Pedro bambaleavam perto do palco. Exaustas, Alessandra e Margareth puxaram cadeiras e arriaram.  Joice e Wellington requebravam-se junto a uma parede. Girão arrastou uma garota para fora do salão.  Cida, Eleide e Cynthia saracoteavam o tempo todo. Ocelo, Raul e outros rapazes acocoraram-se ao pé de uma parede. Carlos e Margareth agitavam-se próximo do palco. Orlando escorregou e caiu. Eurico, Otávio, Noé e algumas jovens rebolavam o corpo no centro do salão. Um rapaz passou a mão na bunda de Cátia, que sorriu. Raul, Dutra e duas moças bamboleavam nas proximidades do palco. Ocelo, Raul e outros rapazes acocoraram-se ao pé de uma parede. Girão, Ocelo e duas mocinhas meneavam-se em volta de uma mesa. Otávio chutou uma latinha. Toinha estremecia a um canto. Aluísio dirigiu-se à piscina. Noé estirou-se no chão. Pelos cantos das paredes amontoavam-se latinhas de cerveja.

Súbito Zuza apareceu, bêbado, a gritar. Subiu ao palco, tomou o microfone ao cantor. Os músicos tocavam os instrumentos. O rapaz se pôs a bradar: canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma, carvalha, canavialha, canavialma, bando de canalhas, macacos, cambada de farsantes. Algaravia, encontrões, mãos em nádegas e seios, palavrões, ingresia. Os foliões passaram a gritar, xingar, jogar latinhas na direção do palco. A orquestra parou de tocar.          

Quando as luzes se apagaram, todos se puseram a gritar, apupar, vaiar. E corriam para lá e para cá, derrubando mesas e cadeiras. Caíam rapazes e moças. Pisoteavam-se uns aos outros. Esbarravam uns nos outros. A voz de Zuza já havia sumido. Choravam, gemiam. Diziam-se obscenidades e barbaridades. Chiados, zumbidos, risos, choros, ais aqui ih ti bis si ri siri cá rica ricão cão canal carnaval carnal carnão não naco cu ui psiu cuspe pé ré bé pereba pá pai vá vai ai ah dá deu dó pó só sol dose doce oi doze dez um uns nuns nunca cá cala cama maca casa faca fá fé eh zé fez fiz fila figa gás jaz já olá chá chato jaó oh jó joá lá lama má mé meu eia beijo beijinho anjinho arminho minho minha minhoca mó moça mona nave naval nova nó nós nus nu uf ufa puxa nuca cano mano manopla plano palma pau sal sul tu vós voz vó vozinha alminha minha mim fim fino finos fins finis.

________________________ 

* Extraído de Carnavalha (2007), romance de Nilto Maciel

 

 

miro_carnival

Miro – Carnival of Harlequin

 

Samba quis

 

por CARLOS PESSOA ROSA

– 

  

Se aprecio Carnaval? Já curti, hoje prefiro pegar a valise, guardar uns poucos pertences de uso diário e desaparecer na estrada.

Foi-se a época que lança-perfume era um frasco transparente e inocente – estranha essa lembrança de infância, mostrassem um frasco semelhante, hoje, o que sentiria seria deslumbramento. Não me lembro de ter usado o momento para me esvaziar da tristeza ou me embebedar de alegria. Não! Estivesse triste, não perderia tempo com danças de salão ou desfile de escola, curtiria o momento, sempre fui assim, não fujo do que sinto; e a alegria apenas acrescenta à festa.

Álcool, éter, cocaína, ecstasy ou maconha não me resolvem quando triste nem me acrescentam quando alegre. Ou sou, ou não! Não estranharia de me descobrir na quarta-feira de cinzas dançando sozinho, sem uso de bombas ou contaminações de prazeres alheios. Caso a euforia também me pertença, compartilho, ao contrário, não me veste. Não coloco máscara nem deixo que me tapem os olhos como fazem com os animais, não me pergunto com que samba – ou mulher – eu vou, o escolhido para mim tem sempre a ver com algo muito pessoal.

Não esperem que pactue com quem carrega a culpa judaica e cristã, que acreditam que só podemos ser felizes se todos o são. Utopia infeliz… Caso a tristeza me toque, divido a dor, mas por justiça, não por sentimentos menores. E não importa se falo como cidadão comum ou poeta – como se poeta fosse algo diferente ou especial –, não canto para espantar males, estes se resolvem encarando-os.

E se alguém aí encontrar o lança-perfume em frasco transparente, fundo barroco, ligeiramente cor-de-rosa, por favor, guardem um para mim, que curto o deslumbramento, aquele vestígio-orgástico instantâneo que nos atinge em raros momentos, mas já vou apontando, terão de esperar o fim do Carnaval, até lá vai ser difícil me encontrarem, atualmente, no Carnaval, sou mais sambaquis…

 

SAMBAQUIS

Escrituras e outros fazeres

http://sambaquis.blogspot.com/

 

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