Arquivo para março, 2009

cOsmOs na VaLiSe

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, Metalinguagem, narrativa, semiótica on 31 março, 2009 by Marco Aqueiva

Arte: collage por Marco Aqueiva à base de gaia e imagem obtida em http://lacomunidad.elpais.com/atrapadordesuenos/2008/6/15/el-aleph-borgesgaia

 

Cosmos

por Fátima Brito

 

         Nurater, terranu, arunater, ertarun… Tantas foram as minhas tentativas infrutíferas de compreender o significado daquela palavra que optei por temporariamente desistir dela. Não me dizia nada. Ela não me dizia em absoluto NADA. Nada. NADA. Saltei as palavras que a sucediam, tropeçando em busca de alguma que me comunicasse algo, um fio qualquer de sentido. Mas nada, nada era o que me restava. Todas me eram insignificantes. Sim, eu as lia sem dificuldade e as pronunciava em voz alta. Algumas vezes tive a impressão de ouvi-las ecoando no apartamento semivazio no alto da avenida Paulista. Adquiriam forma, batiam nas paredes creme e voltavam ameaçadoras para mim. 

         Eu permanecia longas horas de meu dia exercitando-me nessa busca mesmo sem acreditar na possibilidade de sucesso. Quando cansado, sentava-me diante da TV, recostava-me nas almofadas do largo sofá azul e permanecia em silêncio bebendo as saídas das bocas daquelas figuras que também me eram estranhas. Transitava com dificuldade por todos os universos em que tentava me inserir. Quando essa verdade me caía como uma agulha penetrando todo meu corpo a partir do centro da cabeça, eu optava por desistir.  Dirigia-me, após longuíssimos passos, a uma das tantas janelas que me punham em contato com o mundo, e permanecia ali, parado, durante tanto tempo que me esquecia de mim até que o calor do dia nascendo, ou o frio da noite chegando anunciava a mim mesmo minha existência. Então me dirigia até a geladeira, o microondas ou o chuveiro, de acordo com a necessidade mais premente.

         Nessa rotina que durou longos anos, aprendi a contar os passos. Da sala de jantar ao quarto, do quarto à biblioteca, da biblioteca à cozinha, da cozinha ao banheiro social, do banheiro social à biblioteca, da biblioteca à área de serviço, da área de serviço à sala de visitas, da sala de visitas à de televisão, da de televisão para alguma das janelas daquele espaço assombrado que era só o que sentia meu.

         Por todos esses ambientes, palavras escritas desafiavam-me. Ao longo dos anos, fui preenchendo cartazes com centenas delas. Quando o sulfite e a cartolina acabaram, comecei a arrancar páginas dos livros e de tantos outros documentos que habitavam aquele universo. Arrancava-as ora com pesar, ora com raiva. Então, escrevia palavras quaisquer, ouvidas desatentamente nas emissoras de TV e de rádio, nos CDS, nos DVDs, na minha mente insistente, onde elas se reproduziam sem qualquer utilidade a não ser a de confundir-me sempre mais. Às vezes, por total falta de opção saía caminhando com o telefone sem fio, ouvindo a voz eletrônica abstrusa estranha abstrusa absurda. E ria, ria tanto, mas tanto e tanto e tão contente de  não ser mesmo de uma pessoa a voz metálica afinal assustadora que vinha dali. Ria para desafiá-la, afinal ela jamais me alcançaria. De verdade? Sabia ser inalcançável. Eu não queria isso. Mas não tinha como fugir. Nenhuma voz me alcançaria por um tempo tão longo tão longo… tão longo. E tantas vozes ressoavam soavam em mim sem significado. Olhava com ódio até os quadros na parede, e quanta ânsia tive de destruir cada um dos livros que ocupavam as prateleiras daquela biblioteca tão grande, herança de família. Sim, eu permanecia entupido de palavras. Mas era só. Não mais sabia as que me pertenciam. Permaneci angustiado por essa ignorância durante algumas longas vidas.

         Essa relativa escuridão poderia ter me garantido tranquilidade, paz e até alegria. Mas não. Não me deu nada disso. Jogou-me em uma jaula na qual de quase nada valiam minha visão e minha inteligência. Sim, lógico, era sempre possível contar os passos e até quantos carros ou transeuntes passavam lá embaixo.  Do silêncio de minha janela isso era sempre muito possível. Mas era pouco para mim. Assim, segui anos de minha longa existência tentando reencontrar verdadeiramente as palavras. Agora, quase no final da vida, não devo e não quero mentir. Não consegui, mas, ainda que piegamente (você sabe o que é isso?), orgulho-me de ter insistido sem outros receptores além de mim mesmo numa empreitada absolutamente inútil para o século. Quero carregar comigo palavras que afinal me pertencem. Nada mais tenho.  Obrigado.

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Viii

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 29 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Robert and Shana ParkeHarrison

 

Adivinhação

por Nelson Ascher

 

p/ d.p. aos 70

 

 

O que é o que é

que, quando se entrecruzam

à beira do silêncio

sintagma e paradigma,

 

obriga a língua a dar

com a linguagem nos dentes,

deixa as palavras todas

com a língua de fora?

 

O que é o que é

que, onde “o amor e, em sua

ausência, o amor” ou “manchas

solares confabulam”,

 

deixa a linguagem boqui-

aberta, sem palavras,

e obriga os linguarudos

a engolirem a língua?

 

O que é, o que é

que edípico e antropófago

bolina e morde, morde e

bolina a própria língua

 

materna até que doa

com gosto? – É a poesia

que o dolce software nuovo

contém. Pois é: poesia.

____________

Fonte: Nelson ASCHER. Parte Alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Neon na VaLiSe

Posted in Crítica, literatura, literature, poesia, Poetry on 28 março, 2009 by Marco Aqueiva

20061012

http://www.ultrafractal.com/showcase/samuel/20061012.html

 

Valise Luz Neon: POESIA VISUAL

por Tânia Du Bois

 

                                                           “NEON

 

                                             Quando triste

                                             penso na luz de neon

                                             que ilumina nas vitrinas

                                             os manequins.

 

                                             Entristecido

                                             sei que o clarão do neon

                                             atrai os olhares.

 

                                             Nada resiste ao neon

                                             das luzes das cidades:

                                                             derrubam muros

                                                             cativam almas

                                                             ávidas pela claridade.

 

                                              Triste

                                              fujo à aproximação

                                              do neon em luzes claras:

                                              armadilhas mortais

                                              em minha idade.”

 

          A poesia de Pedro Du Bois retrata a iluminação das fachadas dos estabelecimentos com luz de neon, que aos poucos foi substituída pelos painéis luminosos. O neon foi se tornando matéria prima para os artistas plásticos.

          Resgato o artista plástico e pioneiro em trabalhos especializados em luz de neon, o arquiteto e designer Jimmy Bastian Pinto. Ele produziu belas obras, buscou inspiração na sensualidade feminina, mostrando-nos as “belas luzes” que o mundo pode ver; revelou sua habilidade no criar “poético” em esculturas como, As Pernas de Tina Turner na Terra do Aladim, o perfil de Madonna e Silhuetas de Casais Dançando. Em todas as peças usou neon (direto ou indireto) em linhas continuadas e coloridas. Em algumas das esculturas o neon dá sensação de movimento, como se a luz estivesse saindo da peça. Suas esculturas foram recriadas em vários tamanhos que variam de 30 centímetros até 2 metros.

          Enfim, uma fantasia – poesia visual – que dispensa palavras quando nos referimos ao neon, luzes em aplicação nas esculturas.

          Fascinante, mas cada vez mais distante.

          Hoje, apenas considerado mais um estilo. 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Vii

Posted in António Ramos Rosa, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 27 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Fotografia de Robert and Shana ParkeHarrison, The book of life

 

Mediadora da escrita

por António Ramos Rosa

 

Precipita-se ou vacila cintilante

subterrânea selvagem

a transparente espuma atravessando.

Desenhando os obstinados traços

 

busca a figura do desejo e do repouso

numa superfície plana e verde.

Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,

interrompe, acumula, esquece.

 

forma a sua própria forma. Contornos

mais vibrantes do que o círculo.

A face que ela imprime é a do corpo.

 

________________

Fonte: António Ramos ROSA. Mediadoras. Lisboa: Ulmeiro, 1985.

VaLiSeS meta-PoéTicAs Vi

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, literature, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 25 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Collage à base de Michelangelo e Dali por Marco Aqueiva

Motivos para um poema

por Majela Colares

 

na frieza do papel nasce o poema

que há muito contornava minha mão

 

na incerteza dos dedos, o dilema

 

em fazer um poema sem razão…

mas o verso não surge por acaso

 

sempre tem um segredo, um senão

 

desenhado na face, no sorriso

que sorri outra face com ternura

 

– o rosto imaginado – só por isso

a razão do poema é razão pura

____________

Fonte: Majela COLARES.  Quadrante lunar. Rio de Janeiro: Calibán, 2005.

VaLiSeS meta-PoéTicAs V

Posted in Art, arte, Estela Guedes, literatura, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 24 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Linhas

por Evandro Maciel
 
leio o poema
o poema me vê

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Cesarianas e Casuarinas

por Maria Estela Guedes

 


Passeios nas tardes de domingo
Pelo Jardim de Teixeira Pinto
Empurrando o carrinho
Com o bebé da dona Otília
Nascido entre dores e cortes
De cesariana…
A estátua do militar no alto do outeiro
A dominar toda a cidade de Bissau
Mira ao longe as evoluções
Dos milicianos e da Mocidade Portuguesa
Diante do palácio do governador e do obelisco
Coroado com a legenda
“Ao esforço da Raça”.
Todas as raças se esforçaram,
Desde os muito brancos aos muito pretos
Passando pelos muito e quase nada mulatos.
As casuarinas do Jardim de Teixeira Pinto
Abrigavam olhares apaixonados
Na distância
Mais ou menos curta
O coração a pular no peito
Sempre o encontro anunciado
Pela melodia assobiada
Sempre a mesma
Para não a confundires com a de algum pássaro.
Ah, as cesarianas de domingo
Fechando-se como os frutos da casuarina…

De um livro sobre a Guiné-Bissau que ainda está a ser escrito.
 

.

__cesariana_pombo_interroga

 

 

 

Covardia

por Carlos Pessoa Rosa

há carne
em sangue saindo do vão da noite
há um hiato de noite
saindo das artérias da carne

meu dedo
covarde no gatilho
o mesmo dedo
covarde com as palavras
e que não me extermina

nem no poema

 

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs iV

Posted in António Ramos Rosa, Antonio Carlos Secchin, Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, literature, Magritte, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 22 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Biografia

por Antonio Carlos Secchin

 

O poema vai nascendo

num passo que desafia:

numa hora eu já o levo,

outra vez ele me guia.

 

O poema vai nascendo,

mas seu corpo é prematuro,

letra lenta que incendeia

com a carícia de um murro.

 

O poema vai nascendo

sem mão ou mãe que o sustente,

e perverso me contradiz

insuportavelmente.

 

Jorro que engole e segura

o pedaço duro do grito,

o poema vai nascendo,

pombo de pluma e granito.

 

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Eu vi entre as amendoeiras a formosa Astreia

por António Ramos Rosa

 

Escrevo não para saber mas para criar um espaço de palavras

que correspondam à ingenuidade da minha aspiração

que quer pisar um solo de claras pedras e vibrar

ao ritmo de uma duração monótona e solar

equivalente à hora e ao espírito do olvido e da ignorância aberta

É um momento apenas em que as minúsculas janelas subterrâneas

se abrem para o fulgurante repouso de uma matéria adorável

adormecida numa concha de pedra como um corpo imaginado

A graciosa visão do desejo ama este sossego luminoso

e para o prolongar reflui para o seu centro cego

onde recolhe as cintilações e as desenha repousadamente

para que a integridade respire com a indolência de um puro embalo

Tal é a invenção da palavra que se fende como um fruto vermelho

e oferece os gomos de onde escorre o seu sumo de leite e sangue

 

valise_chambre-decoute1

 

por Silvana Menezes

 

 

Quero escrever meus versos

No teu corpo nu

Que minhas mãos façam

Sonetos em ti

 

Que minha boca declame

Beijos na hora exata

Da entrega dos amantes

Que o desejo ultrapasse o frevo

 

De uma noite de carnaval em Olinda

E os confetes e serpentinas

Sejam os nossos poros abertos

No calor dos sussurros

 

Quero que você componha

Sua música em mim

E assim, nos tornaremos

Belos, simplesmente

 

Não quero mais saber

De escrever poemas em frios papéis

Quero sim, que minha palavra

Seja apenas esse ato de amor!

VaLiSeS paRa OLhAR DançAR e foLgAR

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Garção, José do Carmo Francisco, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 20 março, 2009 by Marco Aqueiva

Textos por José do Carmo Francisco      

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João Garção, A grande viagem – cartão para tapeçaria

 

Olhar o monte 

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas. 

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

 

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.  

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

 

Vejo o monte quando olho para ti.

 

 

 

_lucifer-no-alentejo

Nicolau Saião, Lúcifer no Alentejo

 

Dança comigo

 

(sobre um óleo de António Carmo)

 

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

 

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiro, soltos, e o olhar que os comanda, firme. 

 

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

 

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs iii

Posted in Art, arte, Eunice Arruda, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 18 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Poema

por Eunice Arruda

 

Areias, mar, navios

mergulho

jamais premeditado

 

Agora recebo meu corpo

como um pássaro

ferido

pesado de

incompreensão

 

Tantas coisas

alheias

desenham o caminho

 

 

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lagarta

 

por líria porto

 

ao sair do casulo tortura-se
não se dá conta das cores que carrega

 

esbarro em palavras na rima na métrica
impõe-se-me a poesia como tatuagem

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs ii

Posted in Art, arte, literatura, literature, Metalinguagem, Metamorfoses, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 15 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Cancro

por Carlos Pessoa Rosa

 

de que oceanos
estas pedras de ouro?
de que hortas
estes homens de ferro?
de qual poema
esta inspiração papoula?

e o carro
segue no desdentado da pausa
no tom ascendente de crimes estrelares
entre o riso do fruto
e o choro minguante de orquídeas prenhes
que o parto é logo ali
no debruçar do vento alijado de sopros

de que mina
estas águas empoçadas?
de que fonte
estes frutos em ferrugem?
qual papoula
o poeta serviu ao poema?

e a pausa
escorre nos segundos da neve
no frio cadavérico das mesas de alumínio
entre a náusea do feito
e o vômito de um corpo apodrecido
que o fim é logo ali
no tempero de flatos recheados de legumes

: de quando nascentes
aspiram regras de triângulos isósceles
se poema amorfo
não pega doenças venéreas?

 

 

 

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A Criação e o Criador

por Murilo Mendes

 

 

O poema obscuro dorme na pedra:

 

“Levanta-te, toma essência, corpo”.

 

Imediatamente o poema corre na areia,

Sacode os pés onde já nascem asas,

Volta coberto com a espuma do oceano.

 

O poema entrando na cidade

É tentado e socorrido por um demônio,

Abraça-se ao busto de Altair,

Recebe contrastes do mundo inteiro,

Ouve a secreta sinfonia

Em combinação com o céu e os peixes.

 

E agora é ele quem me persegue

Ora branco, ora azul, ora negro,

É ele quem empunha o chicote

Até que o verbo da noite

O faça voltar domado

Ao pó de onde proveio.

 

 

+_+_+_+_+_+_+_+_

 

 

 

A Inicial

por Murilo Mendes

 

 

Os sons transportam o sino.

 

Abro a gaiola do céu,

Dei vida àquela nuvem.

 

As águas me bebem.

 

As criações orgânicas

Que eu levantei do caos

Sobem comigo

Sem o suporte da máquina,

Deixam este exílio composto

De água, terra, fogo e ar.

 

A inicial da minha amada

Surge na blusa do vento.

Refiz pensamentos, galeras…

Enquanto a tarde pousava

O candelabro aos meus pés.