VaLiSeS à InFâNciA iv

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CAIXA DE MEMÓRIAS:  OS TACOS

por HENRIETTE EFFENBERGER

 

 

 

Poucas vezes ela se lembrava de seu passado. Não havia nada mais desgastante do que conversas nostálgicas, lembranças adormecidas que afloram, sentimentos esquecidos que retornam com força  vigor, a despeito de se terem passado mais de quarenta anos…

Sua vida é o presente – costumava dizer… Jamais permitiu que se falasse em coisas do nosso tempo. Nosso tempo é agora!  É hoje! É o tempo em que estamos vivendo, oras !

         Porém, naquele dia, começou a revirar a velha caixa de memórias. Escolheu, ao acaso, uma data muito remota, completamente amarelada pelo tempo. Aos poucos as cores foram voltando até se tornarem cada vez mais forte e adquirirem vida.

Lembrou-se de que tinha por volta de cinco anos de idade e um machucado no joelho, que sangrava e ardia. Podia sentir as grossas lágrimas escorrendo-lhe pelas faces; subitamente o nariz começou a respingar, a garganta doía, o peito apertava-se de dor e medo. Lembrou-se ainda de uma mão forte e ao mesmo tempo carinhosa lavando-lhe a ferida; recordava-se de como era fria a água, de como ardia o mercúrio-cromo e da suavidade do algodão…

Os soluços começaram a espaçar-se, as lágrimas estancavam-se pouco a pouco, a mesma mão forte ajudou-lhe a assoar o nariz com um providencial lenço de papel, surgido não se sabe de onde, e ela começou a respirar aliviada. Ouvia uma voz que lhe dizia: Antes de casar, sara! Encostou sua cabeça no peito amigo e enquanto seus cabelos eram acariciados, uma sonolência a invadiu e ela quase cochilou, desfrutando daquele momento de segurança, o qual, durante toda sua vida, nunca mais se repetiria com a mesma intensidade…

Sentiu, outra vez, grossas lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto, a garganta doendo, o peito apertado, além de uma insistente coriza.

Instintivamente, passou as mãos no joelho em busca da cicatriz, que já tinha desaparecido, assim como o frescor da água, o cheiro do mercúrio cromo, a suavidade do algodão e as mãos do seu avô…

 

Henriette Effenberger – do livro Linhas Tortas – 2008

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Uma resposta to “VaLiSeS à InFâNciA iv”

  1. Henriette!

    Como não revirar o tempo? Ás vezes pode ser chato, mas as cicatrizes feito palavras vivas, gritam, ecoam para existir a aí, bum, num gostoso relato viram mosaico, taco, bolita, fundo e moldura a mais Caixas de Memória.

    Um abraço.

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

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