VaGaBONdageS, andaNÇaS & VaLiSeS

van-gogh_feu

(Texto original em francês seguido da tradução ao português)

 

Vagabondages

por Jules Morot

 

 

  Mes voyages sont faits d’hasards et d’ombres. Ou d’ombres et d’hasards, car la somme et la séquence des facteurs c’est parfois arbitraire. Ou ce ne sera pas ainsi?

   Au moment cela n’importe pas, maintenant ce qu’il faut d’évoquer sont les grandes présences des forêts en passant par moi, sur moi, sur ma tête, mes pieds, mes mains et mes épaules. Le vêtement qui m’habille et que de temps en temps  me laisse à nu, la mer dont je me rappelle toujours dans cet après-midi ensoleillé, à cette fin d’après-midi quand une étoile brillait déjà dans le ciel, le banc de jardin où je me suis assis un jour dans une petite terre d’Espagne, les grands feux allumés dans la montagne, les buchers qui me fascinaient, qui me laissaient surpris, car je n’connaissais pas encore le feu et son innombrable architecture pleine de terreurs et d’enchantements, la voix du vent là dehors, par les chemins de la montagne solitaires comme des fleurs dans un bois qu’on ne sait bien où il se place.

  Mes voyages sont faits d’amertume parce qu’ils ne tourneront plus jamais. Les voyages sont comme un rocher dans une forêt en silence au matin. Une forêt où des animaux sont nés et des animaux sont morts, la douceur d’un rayon du soleil ou du clair de lune sur le dos d’un loup ou d’une inconcrète apparition.

  J’ai ta main et j’n’ai pas ta main. Des images m’encerclent et sont des choses qu’ existent, du pain et de l’eau apportée des places plus éloignés et qui nous habitent. C’est mon eau intérieure, l’eau qui tu exsudes, l’eau que j’ai bu dans ton coeur, ce sont tes yeux que maintenant je ne reconnais pas, la lueur du passé.

  Les maisons qui courent à mon contour, le roulement soudain de tambours d’un train perdu et cette voix de femme en disant à l’autre, la plus jeune, la plus voyante: “C’était là notre chambre, te rappelles-tu? Ont été tant des fois que nous avons nous placé à la fenêtre, le père était encore vivant”. La mémoire qui se cache pour toujours dans un petit recoin du cerveau, comme un portrait humble au coin d’une table dans une salle très ancienne.

 

  Mes voyages sont faits de tout ce qui nous soutient et nous abandonne dans les grandes randonnées, au long d’un fleuve ou d’un désert.

  Mes voyages sont comme des livres aimés et égaux aux crimes d’un autre, quelqu’un qu’existe et n’existe pas, quelqu’un qui habite à mon intérieur et dans la poitrine que je conserve encore plongé dans ce temps, dans l’autre temps, dans tous les temps de l’univers.

in “Le mardi gras”

 

                            +_+_+_+_+_+_                   +_+_+_+_+_+_

 

 

Andanças

Tradução de Nicolau Saião

 

 

  As minhas viagens são feitas de acasos e de sombras. Ou de sombras e de acasos, pois a soma e a sequência dos factores  por vezes é arbitrária. Ou não será assim?

  Não importa de momento, agora o que é preciso evocar são as grandes presenças das florestas passando por mim, por sobre mim, por sobre a minha cabeça, os meus pés, as minhas mãos e os meus ombros. A roupa que me veste e que de tempos a tempos me desnuda, o mar que sempre recordo, naquela tarde ensolarada, naquele fim de tarde quando uma estrela já luzia no céu, o banco de jardim onde me sentei um dia numa pequena terra de Espanha, os grandes lumes acesos na serra, as fogueiras que me deslumbravam, me deixavam surpreso, pois ainda não conhecia o fogo e a sua incontável arquitectura plena de terrores e de encantamentos, a voz do vento lá por fora, pelos caminhos da montanha, solitários como flores num bosque que não se sabe bem em que lugar fica.

  As minhas viagens são feitas de amargura por não mais voltarem. São como um rochedo num bosque silente na manhã, um bosque onde animais nasceram e animais morreram, a doçura de um raio de sol ou de luar sobre o dorso de um lobo ou de uma inconcreta aparição.

  Tenho a tua mão e não tenho a tua mão. Imagens rodeiam-me e são coisas que existem, o pão e a água trazida dos lugares mais remotos e que nos habitam. A minha água interior, a tua água que ressuma, que bebi no teu coração, os teus olhos que já não reconheço, o fulgor do passado. As casas que correm ao meu redor, o rufar repentino de um combóio perdido e aquela voz de mulher dizendo para a outra, a mais nova, a mais vistosa: “Ali era o nosso quarto, lembras-te? Tantas vezes que nos pusémos ali à janela, ainda o Pai era vivo!”. A memória que se esconde para sempre num recantozinho do cérebro, como um retrato humilde ao canto de uma mesa numa sala muito antiga.

  As minhas viagens são feitas de tudo o que nos ampara e desampara nas grandes caminhadas, ao longo dum rio ou dum deserto.

  As minhas viagens são como livros amados e iguais aos crimes de outro alguém que existe e não existe, um alguém que mora dentro de mim e do peito que ainda conservo mergulhado neste tempo, no outro tempo, em todos os tempos do universo.

 

+_+_+_+_+_+_

Arte: Marco Aqueiva ao fogo de Van Gogh

 

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5 Respostas to “VaGaBONdageS, andaNÇaS & VaLiSeS”

  1. Memoráveis viagens, que servem para dar rumo ao presente, com certeza! E como… Sempre alto nível dos posts por aqui.

    Marco, estava perdido… hoje o relaxado aqui foi no google: esqueci que era wordpress… colocava sempre blogspot… Abração! (qq hora me aproxego mais, guenta aí)

  2. Ricardo, bom contar com leitores como vc; torço para que venha flanar por aqui mais vezes…
    Marco

  3. A propósito, vou procurar no dicionário sadomasô: vagaBONDAGES… (criativo o moço – hehe)

  4. Marco……
    Tudo bem. Não faço mais graça sobre as músicas que faço.
    😉 … Bom saber que você gostou.
    Venha me ouvir mais. Aqui: http://www.myspace.com/vanluchiari
    E me ler um pouco aqui: http://www.vanluchiari.com.br

    Beijucas e muito prazer.
    😉

  5. Van, não há como esconder: visitei e quase fui abduzido janelas e janelas a dentro…
    Prazer, pode acreditar, foi meu 😉
    Marco

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