VaLiSeS paRa OLhAR DançAR e foLgAR

Textos por José do Carmo Francisco      

_a-grande-viagem1

João Garção, A grande viagem – cartão para tapeçaria

 

Olhar o monte 

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas. 

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

 

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.  

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

 

Vejo o monte quando olho para ti.

 

 

 

_lucifer-no-alentejo

Nicolau Saião, Lúcifer no Alentejo

 

Dança comigo

 

(sobre um óleo de António Carmo)

 

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

 

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiro, soltos, e o olhar que os comanda, firme. 

 

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

 

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

 

 

Anúncios

3 Respostas to “VaLiSeS paRa OLhAR DançAR e foLgAR”

  1. Muito legal, os 2 e os cartões. Sempre no capricho…
    Abraço e bom findi!

  2. Queridos Poetas!

    Ao ler esta Valise, sinto o vento a perfurar os cílios do pensamento e num dobrar de pés, recorto o tempo para dançar no Baile de suas imagens…

    Um abraço a mais Poesia, esta Dança infinita com oOutros universos!!!

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

  3. Acho que a respeito do mesmo óleo do António Carmo:

    “DANÇANDO
    (A um quadro de António Carmo)

    Os corpos muito juntinhos
    As mãos e os braços trocados
    Os passos acertadinhos
    Os olhares bem fixados

    E temos um par a dançar
    Dentro de um quadro de esperança
    Que fixa os seres que deslizam
    Assim, ao jeito da dança

    Ritmados, ao som da música
    Os corpos se vão soltando
    Sem querer, deixam os sentidos
    Trocarem-se assim, dançando.”

    M Belmira A Besuga

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: