cOsmOs na VaLiSe

Arte: collage por Marco Aqueiva à base de gaia e imagem obtida em http://lacomunidad.elpais.com/atrapadordesuenos/2008/6/15/el-aleph-borgesgaia

 

Cosmos

por Fátima Brito

 

         Nurater, terranu, arunater, ertarun… Tantas foram as minhas tentativas infrutíferas de compreender o significado daquela palavra que optei por temporariamente desistir dela. Não me dizia nada. Ela não me dizia em absoluto NADA. Nada. NADA. Saltei as palavras que a sucediam, tropeçando em busca de alguma que me comunicasse algo, um fio qualquer de sentido. Mas nada, nada era o que me restava. Todas me eram insignificantes. Sim, eu as lia sem dificuldade e as pronunciava em voz alta. Algumas vezes tive a impressão de ouvi-las ecoando no apartamento semivazio no alto da avenida Paulista. Adquiriam forma, batiam nas paredes creme e voltavam ameaçadoras para mim. 

         Eu permanecia longas horas de meu dia exercitando-me nessa busca mesmo sem acreditar na possibilidade de sucesso. Quando cansado, sentava-me diante da TV, recostava-me nas almofadas do largo sofá azul e permanecia em silêncio bebendo as saídas das bocas daquelas figuras que também me eram estranhas. Transitava com dificuldade por todos os universos em que tentava me inserir. Quando essa verdade me caía como uma agulha penetrando todo meu corpo a partir do centro da cabeça, eu optava por desistir.  Dirigia-me, após longuíssimos passos, a uma das tantas janelas que me punham em contato com o mundo, e permanecia ali, parado, durante tanto tempo que me esquecia de mim até que o calor do dia nascendo, ou o frio da noite chegando anunciava a mim mesmo minha existência. Então me dirigia até a geladeira, o microondas ou o chuveiro, de acordo com a necessidade mais premente.

         Nessa rotina que durou longos anos, aprendi a contar os passos. Da sala de jantar ao quarto, do quarto à biblioteca, da biblioteca à cozinha, da cozinha ao banheiro social, do banheiro social à biblioteca, da biblioteca à área de serviço, da área de serviço à sala de visitas, da sala de visitas à de televisão, da de televisão para alguma das janelas daquele espaço assombrado que era só o que sentia meu.

         Por todos esses ambientes, palavras escritas desafiavam-me. Ao longo dos anos, fui preenchendo cartazes com centenas delas. Quando o sulfite e a cartolina acabaram, comecei a arrancar páginas dos livros e de tantos outros documentos que habitavam aquele universo. Arrancava-as ora com pesar, ora com raiva. Então, escrevia palavras quaisquer, ouvidas desatentamente nas emissoras de TV e de rádio, nos CDS, nos DVDs, na minha mente insistente, onde elas se reproduziam sem qualquer utilidade a não ser a de confundir-me sempre mais. Às vezes, por total falta de opção saía caminhando com o telefone sem fio, ouvindo a voz eletrônica abstrusa estranha abstrusa absurda. E ria, ria tanto, mas tanto e tanto e tão contente de  não ser mesmo de uma pessoa a voz metálica afinal assustadora que vinha dali. Ria para desafiá-la, afinal ela jamais me alcançaria. De verdade? Sabia ser inalcançável. Eu não queria isso. Mas não tinha como fugir. Nenhuma voz me alcançaria por um tempo tão longo tão longo… tão longo. E tantas vozes ressoavam soavam em mim sem significado. Olhava com ódio até os quadros na parede, e quanta ânsia tive de destruir cada um dos livros que ocupavam as prateleiras daquela biblioteca tão grande, herança de família. Sim, eu permanecia entupido de palavras. Mas era só. Não mais sabia as que me pertenciam. Permaneci angustiado por essa ignorância durante algumas longas vidas.

         Essa relativa escuridão poderia ter me garantido tranquilidade, paz e até alegria. Mas não. Não me deu nada disso. Jogou-me em uma jaula na qual de quase nada valiam minha visão e minha inteligência. Sim, lógico, era sempre possível contar os passos e até quantos carros ou transeuntes passavam lá embaixo.  Do silêncio de minha janela isso era sempre muito possível. Mas era pouco para mim. Assim, segui anos de minha longa existência tentando reencontrar verdadeiramente as palavras. Agora, quase no final da vida, não devo e não quero mentir. Não consegui, mas, ainda que piegamente (você sabe o que é isso?), orgulho-me de ter insistido sem outros receptores além de mim mesmo numa empreitada absolutamente inútil para o século. Quero carregar comigo palavras que afinal me pertencem. Nada mais tenho.  Obrigado.

 

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