Arquivo de abril, 2009

De uma VaLiSe AtLâNtiCa, o AlenTejo Cá

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Garção, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Nicolau Saião, poesia, Poetry, semiótica on 30 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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por Nicolau Saião e João Garção

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xviii

Posted in Antonio Miranda, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 29 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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Poética

 

         Para Trina Quiñones

 

 

por Antonio Miranda

 

 

Um menino me disse

– mas estava enganado –

gostar de poesia porque

ele lia tudo rapidinho.

 

Ledo engano: quanto menor

o poema, mais denso

requer pausas, releituras

cruzar os pensamentos.

 

Ler no espaço das palavras

além das formas/ideias

não ler as palavras

mas sua tessitura interna.

 

A poesia é mais de quem lê

do que de quem escreve

– o poema circunscreve

um universo qualquer.

 

Todo poema é hermético

requer um certo desvendar

porque o poeta-ventríloquo

fala pela boca de outrem.

 

Palavras-coisas, lapidais.

Palavras-pessoas, além

de si mesmas – outras

– palavras homologais

 

mesmo as circunstanciais

cifradas no eu-mesmo

da poesia do circunlóquio

que se liberta e ganha

 

espaço.

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xvii

Posted in Crítica, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 27 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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Insistência

por Betty Vidigal

 

Poetas são ficcionistas.

Poesia é só ficção.

Se insisto em repetir isto,

é porque pensam que não.

 

Poesia nasce sozinha,

sem dor nem inspiração.

Se insisto em repetir isto,

é porque dizem que não.

 

Poesia é ritmo e rima.

O resto é pura invenção.

Se insisto em repetir isto,

é porque insistem que não.

 

 

Hamlet na VaLiSe

Posted in Hamlet, literatura, literature, Magritte, poesia, Poetry, semiótica, Shakespeare, teatro on 23 abril, 2009 by Marco Aqueiva

magritte

 

Valise ficcional baseada na cena em que Hamlet e Horácio

observam o coveiro trabalhar.

 

por Régis Closel


Hamlet diz:
Que ofício mais nobre tem aquele senhor, Horácio.
Prepara o último quarto que deitamos para dormir.
Um leito para onde nada levamos, nem somos nós
Perdoados pela terra, que nos oferece aos vermes.

Nascemos com um grande grito e muita alegria,

Despedimo-nos em total silêncio e choro ao redor.

Morrer é apenas isso? Entregar tudo que temos

Àqueles que não cuidarão como nós, enquanto vamos
a Terras da viagem sem volta, o descanso desconhecido.

Quem lembrará que o nobre Hamlet viajou às pressas
Com as despesas pagas pelo próprio irmão??
O que ele carregou para a terra? Nada além do silêncio?
Ou aquilo que não pôde levar junto deixou comigo?

E sem dormir e sem agir não consigo dar a meu pai o descanso.

Somos aquilo que eles deixam em nós: muito mais que bens,
muito mais que posses e criados, meu querido Horário.
Carregamos na vida tudo aquilo que os outros nos deram para suportar.
Faremos isso quando for a nossa vez, como foi feito através dos tempos.
Um homem não é nada sem que deixe para o outro, algo para que ele possa ser lembrado.
Sem essa bagagem, de que viveriam grandes homens? Não de ossos nem de pó.
Vivem de algo mais que o ser humano. Algo mais discreto que o silêncio…

 

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Imagem: Magritte

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xvi

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 22 abril, 2009 by Marco Aqueiva

nestor

 

METÁFORAS DE DENTRO

UMA PESQUISA DE SABER QUE TUDO REINA DEVAGAR

NO OCIDENTE  OU ORIENTE  DE CADA POETA

 

 

 

Penso quando escrevo que a metáfora mete fora todos os medos. O sensível vem. Reinvindicar uma estrutura que quero contar, ou cantar. Depois a correção. Depois os maneios da razão vem alicerçar o poema.

 

Ele liberta-se como um cão com fome. Somos atores, mais ou menos. Somos todos leitores de nós mesmos… Pássaros que dialogam com bocas que falam. Um ouvido na multidão escuta. A intolerável solidão do grau- zero da escrita.

 

É natural para mim o versejamento. O transbordamento do uso da palavra nem atende a precisão de um vocábulo. Absurdo, comento, a  meu ver, que as pessoas levem para casa livros. E os livros levem para o espaço as cobertas, urnas mortuárias de outros. Estes outros os poetas que fizeram palavras mais belas (como nos aponta Drummond) e iludindo chegam sem corpos ao zênite…

 

Tive a nítida confiança quando estudei Baudelaire e sua pluripenetração entre os sentidos. O olho que ouve, a pele que mira. O ouvido gosta de provar, a boca permanece assim presa à liberdade de esperar a hora de tocar. Não acordeões, mas a pele de uma criança, de um cipreste, de uma lembrança.

 

Me desempenha ainda um papel interessante o poeta Carlos Pessoa Rosa, ao me avistar e bisbilhotar meus poemas, quando ele me disse que precisava de uma visão global, de uma atitude de construtor. Não do engenheiro de João Cabral- que deveria ser mais arquiteto que o empilhador de tijolos. Uma atuação que devia desaguar no oceano da precisão das palavras. Fi – lo. Porque deveria e era oportuno. A concepção da obra como construção amoldada pelo pouco de loucura que tínhamos em mente e que agora se transfigura em arte.

 

A arte de poetar refere-se a uma louca escapada pelos tendões do mundo que não cansa de ser cruel. De ser visceral. Quem me acompanha na lida de presenciar o louco órfico homem que repete trinta vezes que  “a mosca não é elefante, mas mato – a, e é interessante….”. Imaginaram se poesia e loucura fossem antípodas. Só a conta bancária sussurrada pelo bancário faria a música necessária para os custos da chuva…

 

Rilke e seus anjos- gostava disso, até que matei um com uma pedrada na auréola. Depois desisti, porque me falavam que eles, anjos, eram a o espírito das pedras. Eles que tanto me pescaram, desigual, que me penetraram nos pensamentos  e me fizeram ver coisas cujas asas não cansavam de mostrar.

 

 

Estou disposto em rever a estrutura das palavras naquilo que liberta de enxurrada de procustos. Amoldando a visão do mundo na forma suscetível de ser contramão.

 

As imagens- não preciso falar muito da minha satisfação em tê – las na algibeira. Peco se minto que não são verdadeiras. Mais que as verdades. O dedo do pintor, desenhista consegue vislumbrá – las do chão, onde nascem. Germinação de prosódias e legumes, lentos em todo o caso? Como com gosto: frutas frescas.

 

Manuel de Barros e as coisas que são tão ínfimas que se miram de microscópios translúcidos. É verdade que se atiram pérolas aos porcos. Não se conta que comemos os porcos, depois. Em salaminhos de pequenos poetas que sabem o que resolvem. Senão nascerão outra vez poetas, e outra vez poetas, e outr…

 

 

 

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Imagem e texto Nestor Lampros

 

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xv

Posted in literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Orides Fontela, poema, poesia, Poetry on 19 abril, 2009 by Marco Aqueiva

cegueira_iluminismo

 

Poema

por Orides Fontela

 

 

Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
– habitar sua estrela
impiedosa.

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

– e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras.

Jocasta por dentro da VaLiSe

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, semiótica on 17 abril, 2009 by Marco Aqueiva

imperishable-life

Jocasta Traída

por Pedro Du Bois

 

Estou ao seu lado na descoberta da liberdade:

ensejo e vergonha de ser prisioneiro. Alçado à mira

disparo conhecimentos: confiança necessária ao embate.

Encontro na rua minha visita. A casa em traços ilusórios.

 

Jocasta me visita em lar despovoado.  Melhor assim,

diz em segredo. A justiça entranha o termo. Abdico

verdades e me dedico com satisfação e voragem.

Jocasta no sofá: repasso o burlesco da tragédia

e a convenço do pergaminho da pele ao desgaste.

 

Arvoro milagres, distraio ensaios na paisagem:

o dia encerra no cantar do galo. Sossegam

em sair de casa e pegar o ônibus ao trabalho.

 

Passo entre grades e me dedico ao ensejo

de ver galos transitarem seus territórios.

 

Jocasta olha a desgraça estampada. Estampilha.

Estampa. O vestido rasgado sob a barra: costureiro

com linhas e agulhas refaria ao barro o crime.

Obreiro dos horários e a tesoura em minha mão

em serviços menos nobres. Profícuos verbos.

Errei pronomes em resquícios de enormidades.

 

Ao prumo ergo em paredes minha história. A trajetória

vivenciada do operário. A lerdeza providencial da vida.

A escuridão conceitual do labirinto. A tentativa

de me ver na liberação de tempos significados.

 

Receio nada fazer para ajudar Jocasta. Seu trauma treme

conceitos: a perda no apodrecer das relações acidentais.

Desorientada, nega sua sina em movimentos circulares.

 

Jocasta reafirma o pacto que a leva à morte. O amor

esvaído em carnes. A ignorância desconsidera laços

familiares. A paixão desencontra equilíbrios.

A morte involuntária. Inglória passagem.

 

No início, inocentes desprazeres. A sobrevivência

em dias insuportáveis. Na caverna desenho

acidentes. A caça. A raça. A mitologia concretada

aos descendentes. O entendimento não permite

a violência entre desiguais. Satisfeito, durmo.

 

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Imagem: Mariú Súarez, Imperishable life