Arquivo para abril, 2009

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xiv

Posted in literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 15 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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Um anjo que cai

por Carlos Augusto Novais

 

 

3.

ser o resto que a ausência

de todos os outros restos

completa diante da vida

 

ter o gesto que a urgência

de todos os outros gestos

atropela diante do risco

 

ler a treva que a sentença

de todas as outras trevas

soletra diante do abismo

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LARA, Camilo; NOVAIS, Carlos Augusto; DOLABELA, Marcelo. Antologia Dezfaces. Belo Horizonte, 2008.

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xiii

Posted in literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 14 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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A coisa nervosa

por Álvaro Andrade Garcia

 

essa coisa pé

que não larga da gente

 

essa coisa pó que coça

 

essa coisa incômodo feita do nó

do pó de mico do pó da coca

 

essa coisa ôca

que anda sempre de ré

 

essa coisa nervosa

que estipula os dias de calor

 

faz zoarem bigornas e buzinas

os nervos automóveis

 

as ruínas, os ruídos por toda parte

 

tenho cinco dedos

e mãos de guaraná tirano

 

zinem os tímpanos

as baquetas que não param

 

coço os cílios

os vidros do meu cenário

 

sou um canário reluzente

lotado de pó

 

tenho cinco sentidos insanos

e coceiras por toda parte

 

que gesto me trouxe essa régua

 

essa medida toda nervosa

da cabeça aos pés?

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LARA, Camilo; NOVAIS, Carlos Augusto; DOLABELA, Marcelo. Antologia Dezfaces. Belo Horizonte, 2008.

Uma VaLiSe que nos apreSSa

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, literature, poesia, Poetry, semiótica on 12 abril, 2009 by Marco Aqueiva

_a-grande-viagem

por Neuza Pinheiro

Dividir-se em mil
despedaçar-se
morrer para uma parte
de si mesmo
nascer da casca de uma árvore
sempre morrer
morrer
e renascer
 
deixar brotar anêmonas do sangue
provar o gozo efêmero das coisas
 
e vário de paixão
e langue
amortecer a dor
Adônias
 
descer aos infernos de Perséfone
voar nos braços de Afrodite
 
a juventude
Adônias
só um clic
 
ramas, folhagens
no seu corpo
feridas
já flores abertas
 
A Festa da Paixão
Adônias!
 
A Festa da Paixão
 
apressa!…

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Imagem:  “A Grande Viagem”  por João Garção

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xii

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 10 abril, 2009 by Marco Aqueiva

bolha-de-sabao_mais_piedra

 

pedra sobre sabão

por Lau Siqueira

 

sem voz nenhuma
nego apelos
         ao silêncio

 

(                                    )

 

vivo porque
em mim fazem pouso
as palavras e o universo
oco dos sentidos

 

de onde a poesia sempre
parte como um pássaro
imprevisto

e some como um risco

    

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Arte: Marco Aqueiva à base de Fábio Teles. Em:

http://www.flickr.com/photos/fabiopoeta/276756157/

 

Da VaLiSe de FeRnanDo PeSSoa

Posted in Art, arte, Crítica, Crítica Literária, Fernando Pessoa, literatura, Literatura Portuguesa, literature, semiótica on 10 abril, 2009 by Marco Aqueiva

_fernando-pessoa

por Natali Mazuchelli Camargo

 

A marca registrada de Fernando Pessoa consiste em sua heteronímia. À medida que vou conhecendo suas obras e seu desdobrar-se em outras personalidades, cada vez mais me encanto com seu universo particular.

Partindo de Fernando Pessoa ele-mesmo, passando pelos poemas do mestre Alberto Caeiro, lendo as odes de Ricardo Reis e encontrando Álvaro de Campos ao fim desta “trilogia heteronímica”, alcançamos uma concepção muito ampla do que é ser um poeta: livre. Sim, um poeta é livre para criar, não somente a partir de suas próprias emoções ou julgamentos, mas principalmente através da imaginação.

Pessoa, ao criar seus heterônimos, faz isso: liberta-se de suas próprias concepções para ir além, explorando todas as possibilidades. Neste que chamo de universo particular, há a criação de mais de setenta heterônimos! Isso é o mais fascinante em Pessoa, ele não pára de surpreender. Em cada heterônimo encontramos um novo autor, como se fosse de fato uma outra pessoa.

O poeta não revolucionou somente a literatura lusitana, mas tornou-se, sem dúvida nenhuma, um autor universal justamente pela sua inovação. Não tentemos buscar explicações psicológicas que expliquem o seu universo, mas intentemos enxergar em cada heterônimo a manifestação de um poeta que ousou criar e reinventar-se em cada autor que concebia.

Sendo assim, de sua valise, o poeta consegue trazer ao leitor obras tão diferentes entre si, mas que são de somente uma alma: a de Fernando Pessoas

_________

Arte:Marco_Aqueiva                                                                                                                                                                                             

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xi

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 8 abril, 2009 by Marco Aqueiva

2009_frog2

O poeta desperto

por Carmen Silvia Presotto

 

não era belo

não tinha sonhos

não conhecia princesas

morava na praia

dormia na ponte

andava nu.

 

bebia cachaça

jogava na sena

ganhou!

 

Vieram mil beijos…

 

O Sapo Poeta

vestiu-se de homem

comprou a praia

teve filhos

milhões de amigos

incontáveis festas.

 

Desperto…

bebe uísque em suas águas

surgem palavras

desenha no horizonte uma travessia

nessa solitude vê sua antiga ponte.

 

Sonhou…

 

e sem um único beijo,

adormeceu… 

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Collage:  Marco Aqueiva a partir de  http://www.superstock.com/stock-photos-images/1538R-24049

VaLiSeS meta-PoéTicAs X

Posted in Adolfo Casais Monteiro, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 8 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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Aurora

por Adolfo Casais Monteiro

 

A poesia não é voz – é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

nada se acrescenta a nada, somente

um jeito impalpável dá figura

ao sonho de cada um, expectativa

das formas por achar. No verso nasce

à palavra uma verdade, que não acha

entre os escombros da prosa o seu caminho.

E aos homens um sentido que não há

nos gestos nem nas coisas:

 

vôo sem pássaro dentro