Arquivo para abril, 2009

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xii

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 10 abril, 2009 by Marco Aqueiva

bolha-de-sabao_mais_piedra

 

pedra sobre sabão

por Lau Siqueira

 

sem voz nenhuma
nego apelos
         ao silêncio

 

(                                    )

 

vivo porque
em mim fazem pouso
as palavras e o universo
oco dos sentidos

 

de onde a poesia sempre
parte como um pássaro
imprevisto

e some como um risco

    

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Arte: Marco Aqueiva à base de Fábio Teles. Em:

http://www.flickr.com/photos/fabiopoeta/276756157/

 

Da VaLiSe de FeRnanDo PeSSoa

Posted in Art, arte, Crítica, Crítica Literária, Fernando Pessoa, literatura, Literatura Portuguesa, literature, semiótica on 10 abril, 2009 by Marco Aqueiva

_fernando-pessoa

por Natali Mazuchelli Camargo

 

A marca registrada de Fernando Pessoa consiste em sua heteronímia. À medida que vou conhecendo suas obras e seu desdobrar-se em outras personalidades, cada vez mais me encanto com seu universo particular.

Partindo de Fernando Pessoa ele-mesmo, passando pelos poemas do mestre Alberto Caeiro, lendo as odes de Ricardo Reis e encontrando Álvaro de Campos ao fim desta “trilogia heteronímica”, alcançamos uma concepção muito ampla do que é ser um poeta: livre. Sim, um poeta é livre para criar, não somente a partir de suas próprias emoções ou julgamentos, mas principalmente através da imaginação.

Pessoa, ao criar seus heterônimos, faz isso: liberta-se de suas próprias concepções para ir além, explorando todas as possibilidades. Neste que chamo de universo particular, há a criação de mais de setenta heterônimos! Isso é o mais fascinante em Pessoa, ele não pára de surpreender. Em cada heterônimo encontramos um novo autor, como se fosse de fato uma outra pessoa.

O poeta não revolucionou somente a literatura lusitana, mas tornou-se, sem dúvida nenhuma, um autor universal justamente pela sua inovação. Não tentemos buscar explicações psicológicas que expliquem o seu universo, mas intentemos enxergar em cada heterônimo a manifestação de um poeta que ousou criar e reinventar-se em cada autor que concebia.

Sendo assim, de sua valise, o poeta consegue trazer ao leitor obras tão diferentes entre si, mas que são de somente uma alma: a de Fernando Pessoas

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Arte:Marco_Aqueiva                                                                                                                                                                                             

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xi

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 8 abril, 2009 by Marco Aqueiva

2009_frog2

O poeta desperto

por Carmen Silvia Presotto

 

não era belo

não tinha sonhos

não conhecia princesas

morava na praia

dormia na ponte

andava nu.

 

bebia cachaça

jogava na sena

ganhou!

 

Vieram mil beijos…

 

O Sapo Poeta

vestiu-se de homem

comprou a praia

teve filhos

milhões de amigos

incontáveis festas.

 

Desperto…

bebe uísque em suas águas

surgem palavras

desenha no horizonte uma travessia

nessa solitude vê sua antiga ponte.

 

Sonhou…

 

e sem um único beijo,

adormeceu… 

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Collage:  Marco Aqueiva a partir de  http://www.superstock.com/stock-photos-images/1538R-24049

VaLiSeS meta-PoéTicAs X

Posted in Adolfo Casais Monteiro, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 8 abril, 2009 by Marco Aqueiva

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Aurora

por Adolfo Casais Monteiro

 

A poesia não é voz – é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

nada se acrescenta a nada, somente

um jeito impalpável dá figura

ao sonho de cada um, expectativa

das formas por achar. No verso nasce

à palavra uma verdade, que não acha

entre os escombros da prosa o seu caminho.

E aos homens um sentido que não há

nos gestos nem nas coisas:

 

vôo sem pássaro dentro

 

Sol, sou, ou uma valise meta-poética apenas que me será?

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 5 abril, 2009 by Marco Aqueiva

biblioteca_maria-helena-vieira-da-silva_collage-copy

A

António Ramos Rosa

do poeta Marco Aqueiva em seus anos *

Collage à base de Maria Helena Vieira da Silva tendo o sol obtido em

http://outramargemdemim.blogs.sapo.pt/51821.html

* aniversário deste e não daquele 🙂

VaLiSeS meta-PoéTicAs Ix

Posted in Art, arte, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 4 abril, 2009 by Marco Aqueiva

2009_regarder-copy

 

metonomásia 2 – Eu Et Outras Utopias

(Overture)

 

por Marcelo Dolabela

 

tento amarrar a memória que se esgarça

com o cadarço do roto tênis das horas

piso em falso náufrago em meu próprio barco

neste deserto de águas tórridas

 

e a Lua de lisa superfície me abraça

entre suas sangrentas esporas

como se a Utopia fosse um cancro sem marco

de uma carbonizada História

 

na grave gravura minha figura parca

no pus da luz me apago

em um ruído roído pela demora

 

tudo imprime no escudo o carma da marca

e na dor calcinante de cada fardo do afago

selo-me pelo espasmo da fome que devora.

 

 

LARA, Camilo; NOVAIS, Carlos Augusto; DOLABELA, Marcelo. Antologia Dezfaces. Belo Horizonte, 2008.

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Arte: Marco Aqueiva à base de Cézanne

… ou maLaS sem aLçaS

Posted in crônica, Liberdade, literatura, literature, provocações on 2 abril, 2009 by Marco Aqueiva

giorgiodechirico

Giorgio De Chirico

Viagem para o centro do poder, ou malas sem alças.

por Nilza Amaral

  

O Poder deslumbra, insinua, “ambush”, cativa, demanda, desmanda, vislumbra, domina, escraviza, corrompe, corrói, impele, repele, angaria,  arrecada, consome.

O Poder tem armas: mata, desnuda, estupra, desfigura, maquia, finge, dita, desdita, embrutece, humilha, dobra.

O poder elimina a sociedade, e o indivíduo. Anula o homem, estatela.

O poder reflete inércia, depressão, brutalidade. O mundo gravita em torno do Poder.

O trono do poder refulge, atrai, convida, alucina. Os meios para o poder são todos válidos: a usurpação, a enganação, as trocas, as armação, a religião, a fraqueza humana. A Natureza esvazia-se de sensibilidade, enche-se de hostilidade. Vinga-se. Transforma-se. O Poder é passageiro. O tempo do Poder não é o nosso tempo. É o tempo dos deuses. O Poder é o brinquedo dos deuses. Até que eles se cansem e transformem o Poder em Decadência. Essa substituta do Poder é a razão e a consequência dos poderosos. E chega-se a uma verdade: toda ação tem uma reação contrária. A reação é o Caos.

Porém, àquele estadista nada disso importava, ou achava que com ele  jamais aconteceria, afinal estava pensando no Povo, ignorando, ou querendo ignorar, que o Povo é a mola propulsora do Poder; é pelo Povo que os heróis se arriscam, se sobrepujam, é com  o aval dele, que se enfrentam.

Em se expondo, se infiltrando, trazendo para si a atenção do mundo, proclamando que sua única intenção era salvaguardar a cidadania de uma população sofrida e esquecida pela humanidade, apoiado pelos órgãos da paz mundial que talvez com a melhor das intenções buscavam um líder para seus propósitos  ou uma justificativa para sua existência.

Sua figura tornou-se conhecida da população, todos admiravam aquele homem desprendido, belo como um deus que largava o conforto de seu lar, a vida cômoda que conseguira, para dedicar-se a pessoas desconhecidas, do país desconhecido  apenas lembrado como um depósito de miseráveis.

Na verdade  o Estadista não percebia a manipulação de sua mente agindo sub-repticiamente,  muito menos desconfiava que seguia a máxima antiga de “em terra de cegos quem tem um olho é rei”. Não, ele  não se aproveitaria do Poder se o conquistasse. Pensava nas crianças abandonadas pelas ruas das cidades, órfãos da guerra sem sentido, que explodira naquela minúscula nação que morria de fome. Muitos lutavam  ali  pelo Poder de ditar as regras de como distribuir felicidade na terra de ninguém.

Impulsionado pela febre que acomete o corpo, pela excitação e pela ambição, inspirado pelas leituras shakespeareanas, pelas aventuras épicas de heróis medievais, julgou-se um novo salvador. E assim arregaçou as mangas. Escolheu adeptos, nacionalizou empresas estrangeiras, construiu centros médicos, oficializou o ensino e a saúde. O Povo não questionava porque aquele homem que passou a chamar de protetor lutava por ele,  e não pelos carentes de seu país tão necessitados quanto ele. Ele possuía a resposta: solidariedade entre irmãos da mesma raça.

O Povo entusiasmado pela expectativa de uma vida melhor, aclamava e aplaudia. Contra a massa não há resistência. Principalmente a massa sofrida e espoliada. O tempo ajudava. Tudo muito rápido.

Instala-se o novo Poder. Exalta-se o herói. As riquezas do país baseiam-se na produção de alimentos  e nas pedras preciosas que proliferam nos veios das montanhas. Em nome do Estado todo o extrativismo permanece no país.

O mundo exterior exige eleições. Querem o Poder da democracia. O Poder da economia baseada no valor faccioso do dinheiro. Na importação e exportação. A resistência provoca invasões e proclama direitos. A necessidade da guerra para a paz exige resposta.

O Poder enfraquece. O Povo exige direitos. O estadista está só. A solidão do Poder instala-se, e o herói perde o momento certo de dizer não. O país está à beira do Caos.

Novo salvador, novas regras. O Povo tem novas esperanças. Novas valises. Novas viagens.