Arquivo de maio, 2009

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxv

Posted in artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 31 maio, 2009 by Marco Aqueiva

shwidkiy andrey                 

 

Subterfúgios

 

por CARMEN SILVIA PRESOTTO

 

rios de olhos

me contam gotas

nada, nada, nada

diz a menina dos dias

e feito remo

derivo meus braços a palavras

um mar navegável a todas as marés

:

poemar

ao tempo um colírio

na carne

chagas invisíveis

                

e para não me afogar de mim mesmo

nado, nado, nado

quando mais fácil seria saltar

:

trampolim

lembro um conto árabe

retiro a cabeça d’agua

para que outro ar seja minha  margem

e nado, nado, nado…

 

.

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iMAGEM:   Shwidkiy Andrey

                       

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxiV

Posted in liberdade de expressão, literatura, Literatura Brasileira, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica, Torquato Neto on 30 maio, 2009 by Marco Aqueiva

TORQUATO

 

Pessoal e intransferível

Por TORQUATO NETO

“Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino e maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, para quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.

Adeusão.”

 

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iMAGEM: Marco aQUEIVA

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxiii

Posted in Crítica, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 27 maio, 2009 by Marco Aqueiva

__VALISE_metapoéticas

 

o nó Torquato

por CAMILO LARA

 

  

poema feito de citações

partidas e chegadas

         

ou melhor: uma palavra

transparente em sua orla

 

vida que esconde outra

um texto: uma insígnia

 

e, no entanto, é preciso.

 

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+)+)+)+)     _____     (+(+(+(+

LARA, Camilo; NOVAIS, Carlos Augusto; DOLABELA, Marcelo. Antologia Dezfaces. Belo Horizonte, 2008.

 

 

UMa VaLiSe para queM nãO vai LOnge cOrrendO

Posted in Art, arte, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 25 maio, 2009 by Marco Aqueiva

Nicolau Saião_Primavera[1]

 

UM POEMA

por PEDRO MOTA REIS

 

Não se vai longe correndo

não se vai longe

a carne é fraca

o vento quebra ao nosso lado   as visões  os sinais

as presenças de gente e de lugares  de grandes

árvores solitárias

de portas que se abrem e de rostos sobre o seu

rodapé   de suas cicatrizes na madeira em que se bate

não se vai longe

dói por dentro a memória

o desejo

os grandes passos  as passadas ferindo lume

chispas mordentes de cavalo ou de avestruz no deserto

nas ruas imprecisas

mortalmente atentas

 

Não

não se vai longe

o peito ressoa

a mão grita

o olho soluça

e é por dentro um motor sufocando nas bermas

o nosso crescimento implume

 

Por isso é necessário

e vivente como andar de coruja ou leopardo

como rapariga apaixonada num café de vila remota

ir devagar

passo a passo

devagarinho como um ribeiro na pradaria   entre

árvores de fruto e plantas campestres

pé ante pé

com os dedos adejando  com os lábios

rebrilhando

e soletrar fragmentos de uma palavra serena

sonora

breve

 

Ir devagar

como se adormecêssemos

como se habitássemos um bosque

 

como se de novo chegássemos à primeira luz.

 

De Arte Fluvial. Coimbra, 2007.

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Imagem:  Nicolau Saião

Uma valise em pele e osso

Posted in Armindo Trevisan, Crítica, literatura, Literatura Brasileira, literature, poesia, Poetry, semiótica on 23 maio, 2009 by Marco Aqueiva

 

Roberto_Edwards_-_Ofelia_Dammert_

 

EM PELE E OSSO: CARTA AO BRASIL

por Tânia Du Bois

 

          I

           Te escrevo  Brasil / com o osso / mais velho / que te sustentou.

           II

          Te escrevo / no olho da luz / antes da primeira / fome / com a fome / de tua boca…

          VI

          Te escrevo / com o berro / de qualquer coisa / com o coice / que devastou no  ar /

          perseguição da palavra / para tamanha / falta de vida

          VIII

           Te escrevo / com o couro / aninhado / na balas / com a bala / fugida / da ignorância

          com o estouro / dos miolos

          IX

          Te escrevo / com o sol / esvaziado sobre os ossos / com a corda / do soluço

          XIV

         Te escrevo / porque somos / tua própria / geografia

         XV

        Te escrevo / porque ardemos / nas veias / de tua / indecisão

        XVI

        Te escrevo / porque / já não és / um gemido / de mundo / mas o próprio / mundo /

        a apalpar-se / em nós.

 

Carta ao Brasil é um poema do grande escritor Armindo Trevisan, contido no livro “Em Pele e Osso”. Nesse poema o poeta fabrica a pele do impossível por onde vai costurando a língua e a poesia e depois, ponto por ponto, a transforma em pele maior para ser engolido pelo mundo. Deixa o presente e o futuro na pele da liberdade. E diz  que “o poeta nasce para fabricar a pele.”

Em Pele e Osso, a Carta ao Brasil mostra todo o luxo de uma poesia que deixa o homem nu em sua polidez, na cama, nos escritos, no louvor e na luz: “Perder a pele / para o poeta / é fado / o poeta anda sem pele”

Armindo Trevisan é escritor que valoriza o neologismo sem medo de levar a ideia até o fim. É poeta do deslumbramento e da sabedoria da vida: “desencaderna livros que deixa o presente / antes do futuro”.

Seus poemas são impulsivos, eróticos e um dos principais elementos desse mundo poético é o corpo. Sua inventividade verbal é a maneira como o poeta vê o futuro ao qual aspira, sempre através da grandeza da sua poesia social.

Segundo Maria T. L. Martinez, “a poesia de Armindo Trevisan é um caminho de busca da palavra e da transcendência do ser, e, às vezes, um tom de exultante canto à existência”.

Dante Milano conclui: “Louvo em Trevisan a complexidade de seu pensamento-sentimento e a capacidade de se entregar a si mesmo sem lembrar ninguém…Poeta, para mim, é aquele que faz da sua Poesia a sua Verdade.”

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Imagem: Roberto Edwards

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxii

Posted in João Cabral, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 20 maio, 2009 by Marco Aqueiva

João cabral

 

Murilograma a João Cabral de Melo Neto

por Murilo Mendes

 

2

 

Sim: não é fácil chamar-se
João Cabral de Melo Neto.
Força é ser engenheiro
Mesmo sem curso & diploma,
Pernambucano espanhol
Vendo a vida sem dissímulo;

Construir linguagem enxuta
Mantendo-a na precisão,
Articular a poesia
Em densa forma de quatro,
Em ritmos de ordem serial;
Aderir ao próprio texto
Com o corpo, escrever com o
Corpo;
Exato que nem uma faca.

Força é abolir o abstrato,
Encarnar poesia física,
Apreender coisa real,
Planificar o finito;

Conhecer o vivo do homem
Até o mais fundo do osso,
Desde o nove de um Mondrian
Até o zero dum cassaco
Espremido pelos homens
Na sua negra engrenagem;
Radiografar a miséria
Consentida, estimulada
Pelos donos da direita,
Levantar-se contra a fome
Sem retórica gestual;

 

Descobrir o ovo, a raiz,
o núcleo, o germe do objeto;

Ter linguagem contundente,
“A palo seco”; e portar
– Sem nenhum superlativo –
Olho e mão superlativos
Com o suplente microscópio.

 

                   Roma 1964

 

(*(*(*(*(*(*)*)*)*)*)*)

 

A um poeta

 

         A Yhana Riobueno

 

por Antonio Carlos Secchin

 

Há poemas que transportam

num tapete rente ao chão.

Poemas, menos que escritos,

bordados, talvez, a mão.

 

Outros há, mais indomados,

que são contra e através,

coisa arisca e tortuosa,

versos quebrados pelos pés.

 

E há poemas muito impuros,

onde não vale a demão.

Deles brotam versos duros,

poemas para ferro e João.

 

(*(*(*(*(*(*)*)*)*)*)*)

 

Esmero

por Edson Cruz

 

retocar a canção

chegar até

 

a imperfeição

 

de mero josé

a impossível joão

 

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Collage por Marco Aqueiva

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxi

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Cabral, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Paul Klee, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 17 maio, 2009 by Marco Aqueiva

Paul Klee_highway_valises copy

 

A Lição de Poesia

por JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

1

Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

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Imagem: Paul Klee tratado à base de Valises por Marco Aqueiva