VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxi

Paul Klee_highway_valises copy

 

A Lição de Poesia

por JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

1

Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

_+_+_+_+_     *****      _+_+_+_+_ 

Imagem: Paul Klee tratado à base de Valises por Marco Aqueiva

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Uma resposta to “VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxi”

  1. Um abraço Aqueiva!

    Obrigada por este poema, por este bom início de semana.

    Carmen Silvia Presotto

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