UMa VaLiSe para queM nãO vai LOnge cOrrendO

Nicolau Saião_Primavera[1]

 

UM POEMA

por PEDRO MOTA REIS

 

Não se vai longe correndo

não se vai longe

a carne é fraca

o vento quebra ao nosso lado   as visões  os sinais

as presenças de gente e de lugares  de grandes

árvores solitárias

de portas que se abrem e de rostos sobre o seu

rodapé   de suas cicatrizes na madeira em que se bate

não se vai longe

dói por dentro a memória

o desejo

os grandes passos  as passadas ferindo lume

chispas mordentes de cavalo ou de avestruz no deserto

nas ruas imprecisas

mortalmente atentas

 

Não

não se vai longe

o peito ressoa

a mão grita

o olho soluça

e é por dentro um motor sufocando nas bermas

o nosso crescimento implume

 

Por isso é necessário

e vivente como andar de coruja ou leopardo

como rapariga apaixonada num café de vila remota

ir devagar

passo a passo

devagarinho como um ribeiro na pradaria   entre

árvores de fruto e plantas campestres

pé ante pé

com os dedos adejando  com os lábios

rebrilhando

e soletrar fragmentos de uma palavra serena

sonora

breve

 

Ir devagar

como se adormecêssemos

como se habitássemos um bosque

 

como se de novo chegássemos à primeira luz.

 

De Arte Fluvial. Coimbra, 2007.

*)*)*)*)*)    ****   (*(*(*(*(*

Imagem:  Nicolau Saião

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