Arquivo para maio, 2009

Uma VaLiSe do Kasato Maru

Posted in Art, arte, artes plásticas, crônica, Kasato Maru, literatura, Literatura Brasileira, literature, semiótica on 5 maio, 2009 by Marco Aqueiva

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DÔ            (Caminho)

por LÓLA PRATA

 

Luas e sóis nos encontram a bordo. Água salgada até onde o olhar divisa. Caminhamos sobre essa água.  Lar azul-marinho. 

Mitiko, Shira e Yoko, pequenos rebentos de meus ramos, companheirinhas de tabi (viagem).  Marido de doce espírito caminhante abre as neblinas da tristeza, deitando em nós as sementes de futuro.  Enxuga nossas lágrimas com mãos jovens e calosas. Na sua face nada se nota, são como lágrimas nos olhos de peixe.

O tempo malvado traz fome. Traz sede. Traz saudades das cerejeiras, da cabana coberta de palha.  Dói.  Doeu deixar velho pai e velha mãe.

Estrelas da madrugada mexem-se no ritmo das vagas e das marolas inquietas.  Céu dançante que preenche a insônia das cento e sessenta famílias aventureiras, vindas da direção do sol-nascente.

O vento toca flauta nos mastros do Kasato Maru.  O vapor responde com as baforadas fumacentas.  O silêncio ardido de cada coração ouve o estranho diálogo enquanto se distrái vendo a lua em banho de mar, vaidosa, se sacudindo como espada em mão de samurai.

Desenho ideogramas na memória de meu nikki (diário) de bordo, para não deixar Mitiko, Shira e Yoko esquecerem da saga.  Será como makura-no-kotobá (palavras do travesseiro).  A gorda valise de nossa roupa, onde descanso a cabeça, dita cada lembrança.  Assim, faço para dentro de mim.

Pequenos rebentos querem liberdade, mas não podem correr.  Perigo.  Mar agitado pode engoli-las.  Todos os rebentos ficam prisioneiros, enxertados nas mãos de suas mães.  Brotos tenros têm que ser cuidados…

E, infinitamente, nuvens brancas passam em brancas nuvens.  Esperamos. Esperamos.  Esperamos.  Muita paciência. Muito incômodo. Sofrimentos. Em tudo, porém, se sobressai o sonho-esperança que ilumina a treva da preocupação.

Na manhã de mil flores, ao apito de alegria, atracaremos.  Deixaremos para trás o azul.  Para a frente, o verde que nos dará a sobrevivência.  Na terra marrom, pisaremos com reverência.  Com respeito. Com delicadeza. Quando a ferirmos, será para fecundá-la.  Assim, não zangada, gerará árvores que darão flores, que darão frutos. 

Chegaremos na nova terra quando ela estiver vestida de fuyú (inverno).  Inverno invejoso de nátsu (verão) quente e gostoso.  Sempre nátsu no Brasil de brasa, falam por aí.

Bendito o porto firme e seguro que nos receberá! Leva o nome dos iluminados cristãos: Santos.

 

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Imagem: Carlos KuboKasato Maru

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xix

Posted in Crítica, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 3 maio, 2009 by Marco Aqueiva

 

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POR ADRIANA VERSIANI

 

Cabeça mergulhada na banheira mediterrânea tentativa de poema procura objeto que concentra as forças o centro escondido na fresta do degrau onde tropeça o cego trespassado pela luz de todas as coisas.

Afundam cabeças n’água/espelho dessa rua que passa por dentro cego vê nas esquinas bichos estranhos mágicos potentes o mediterrâneo o ocupa.

Uma perna emerge da água mastro que sustenta em contato com outro elemento a experiência da perna que se eleva no ar sobre todas as formas/pensamento desejo de movimento enquanto cabeças se debatem para encontrar o orifício que escoa princípio segredo fundamento da matéria alfa e ômega.

Dedos movimentam-se no fundo porcelana tentáculos procurando a terra onde vermes lutam para fazer buracos e diluir e fertilizar e nutrir e permitir que a chuva carregue o resto para o centro onde espreita a luz de todas as coisas e o fogo queima e as chamas atingem o objeto escondido na fresta do degrau.

No sentido da água cabeças rolam seus perfumes pelo ralo emerge a mão direita e mediterrânea afunda na banheira a tentativa do poema.

O cego vê.