Arquivo para maio, 2009

Mais uma VaLiSe à InfÂncia

Posted in Art, arte, artes plásticas, conto, literatura, Literatura Brasileira, literature, Paul Klee, semiótica on 13 maio, 2009 by Marco Aqueiva

paul klee

 

CAIXA DE MEMÓRIAS – O BALÃO

Por HENRIETTE EFFENBERGER

  

No dia em que completei oito anos, meu pai me surpreendeu com um presente inesquecível: um balão enorme, nas cores amarela e preta, onde estava escrito o meu nome e a data 29.06.1960.

Estávamos no quintal da casa de meus avós quando ele me sugeriu que escrevesse uma cartinha a São Pedro e me disse que,  quando o balão chegasse ao céu, o santo porteiro ficaria tão feliz que atenderia todos os meus desejos.

E enquanto meu pai e seus amigos finalizavam os ajustes necessários no balão, sentei-me na soleira da porta da cozinha e redigi o que acredito tenha sido minha primeira correspondência (descontando-se, é claro, as cartinhas que já tinha escrito ao Papai Noel!).

Lembro-me de ter caprichado na letra e atendendo às freqüentes solicitações (!) de minha saudosa professora, D. Mathilde Teixeira de Moraes, pingado todos os is e cortados todos os tês. Desenhei florzinhas e patinhos nos cantos da página e mostrei a carta a meu pai aguardando, ansiosa,  que ele a lesse. No entanto, ele a dobrou e me disse: isso é uma correspondência particular, vamos deixar que São Pedro a leia. Não vou negar que fiquei desapontada, esperava um elogio se não pelo texto, pelo menos aos desenhos.

Percebendo meu desapontamento, meu pai me explicou que correspondência é uma coisa preciosa e ler a correspondência endereçada à outra pessoa é tão feio como espiar pelo buraco da fechadura ou ouvir atrás das portas.

Saímos todos: meu pai, seus dois amigos e eu, colocamos o balão na carroceria da camionete de três rodas e fomos até o aeroclube, que naquela época chamávamos de campo de aviação, para soltar o balão. Meu coração sacolejava mais do que a camionete que meu pai apelidou de “mamangava”, enquanto seguíamos pela estrada de terra poeirenta e esburacada.  Não sei se eu tremia de frio ou de emoção naquele início de noite de inverno. Sei que a estrela Dalva já faiscava quando o balão finalmente saiu do chão, começou a ganhar o céu e foi subindo, subindo, subindo, levando com ele meu recado a São Pedro.

Quando o perdemos de vista, retornamos à camionete e fomos jantar no Copacabana, agora só meu pai e eu.  Pedi frango a passarinho, ele bife à parmegiana e de sobremesa ambos tomamos sorvete de chocolate, com calda quente.

Há mais de dez anos meu pai morreu. Recentemente vasculhando em seus guardados alguma referência ao mesmo aeroclube, no qual ele se brevetou em 1945, encontrei a cartinha que escrevi a São Pedro: Querido São Pedro: Feliz aniversário pro senhor também estou mandando este balão de presente que foi meu pai que fez pra mim e pro senhor. Eu queria muito que o senhor fizesse o meu pai e a minha mãe morar junto comigo de novo e queria também aquela caixa de lápis de cor de 4 partes. Obrigada da sua querida Henriette

E eu, que até então imaginava que São Pedro não gostava de balões, entendi que ele não atendeu meu pedido porque minha cartinha tinha sido interceptada. Entendi também porque, no dia seguinte, meu pai me deu outro presente de aniversário: a caixa de lápis de cor, com quarenta e oito cores.

                        Do livro Linhas Tortas (2008)

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Imagem: Paul Klee

Uma VaLiSe cOrpO adEntrO

Posted in Art, arte, artes plásticas, Erotismo, literatura, Literatura Brasileira, literature, Paul Delvaux, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 12 maio, 2009 by Marco Aqueiva

Paul Delvaux

 

De Corpo e Verde

 

por ROSANI ABOU ADAL

 

Incendeie minha floresta

de cabelos negros

Reproduza paisagens e ideogramas

em meu deserto purpúreo

Plante uma flor na mãe-do-corpo

Molhe minha mata

com lágrimas lubrificantes

Faça a colheita

e germine frutos

Envolva de verde

todo o meu o corpo e floresta adentro

 

Escreverei um poema

em tua tez

Minha língua esferográfica

digitará a primeira palavra

em teu órgão auditivo

Um soneto nascerá em teu abdome

Vírgulas reticências

e pontos de interrogação

serão traçados em teu jardim

Um ponto de exclamação

pousará suavemente

em tua selva

         O verde e corpo

emoldurarão o poema e a paisagem

 

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Imagem: Paul Delvaux 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xx

Posted in literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 7 maio, 2009 by Marco Aqueiva

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TODA PALAVRA

por VIVIANE MOSÉ

 

 

Procuro uma palavra que me salve

Pode ser uma palavra verbo

Uma palavra vespa, uma palavra casta.

Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.

Ou palavra muda,

molhada de suor no esforço da terra não lavrada.

Não ligo se ela vem suja, mal lavada.

Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.

Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei

e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.

Penso em quanta fadiga me dava

o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.

Hoje imploro uma fala escrita,

não pode ser cantada.

Preciso de uma palavra letra

grifada grafia no papel.

Uma palavra como um porto

um mar um prado

um campo minado um contorno

carrossel cavalo pente quebrado véu

mariscos muralhas manivelas navalhas.

Eu preciso do escarcéu soletrado

Preciso daquilo que havia negado

E mesmo tendo medo de algumas palavras

preciso da palavra medo como preciso da palavra morte

que é uma palavra triste.

Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  

Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.

Toda palavra é bem dita e bem vinda.

 

 

Uma VaLiSe do Kasato Maru

Posted in Art, arte, artes plásticas, crônica, Kasato Maru, literatura, Literatura Brasileira, literature, semiótica on 5 maio, 2009 by Marco Aqueiva

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DÔ            (Caminho)

por LÓLA PRATA

 

Luas e sóis nos encontram a bordo. Água salgada até onde o olhar divisa. Caminhamos sobre essa água.  Lar azul-marinho. 

Mitiko, Shira e Yoko, pequenos rebentos de meus ramos, companheirinhas de tabi (viagem).  Marido de doce espírito caminhante abre as neblinas da tristeza, deitando em nós as sementes de futuro.  Enxuga nossas lágrimas com mãos jovens e calosas. Na sua face nada se nota, são como lágrimas nos olhos de peixe.

O tempo malvado traz fome. Traz sede. Traz saudades das cerejeiras, da cabana coberta de palha.  Dói.  Doeu deixar velho pai e velha mãe.

Estrelas da madrugada mexem-se no ritmo das vagas e das marolas inquietas.  Céu dançante que preenche a insônia das cento e sessenta famílias aventureiras, vindas da direção do sol-nascente.

O vento toca flauta nos mastros do Kasato Maru.  O vapor responde com as baforadas fumacentas.  O silêncio ardido de cada coração ouve o estranho diálogo enquanto se distrái vendo a lua em banho de mar, vaidosa, se sacudindo como espada em mão de samurai.

Desenho ideogramas na memória de meu nikki (diário) de bordo, para não deixar Mitiko, Shira e Yoko esquecerem da saga.  Será como makura-no-kotobá (palavras do travesseiro).  A gorda valise de nossa roupa, onde descanso a cabeça, dita cada lembrança.  Assim, faço para dentro de mim.

Pequenos rebentos querem liberdade, mas não podem correr.  Perigo.  Mar agitado pode engoli-las.  Todos os rebentos ficam prisioneiros, enxertados nas mãos de suas mães.  Brotos tenros têm que ser cuidados…

E, infinitamente, nuvens brancas passam em brancas nuvens.  Esperamos. Esperamos.  Esperamos.  Muita paciência. Muito incômodo. Sofrimentos. Em tudo, porém, se sobressai o sonho-esperança que ilumina a treva da preocupação.

Na manhã de mil flores, ao apito de alegria, atracaremos.  Deixaremos para trás o azul.  Para a frente, o verde que nos dará a sobrevivência.  Na terra marrom, pisaremos com reverência.  Com respeito. Com delicadeza. Quando a ferirmos, será para fecundá-la.  Assim, não zangada, gerará árvores que darão flores, que darão frutos. 

Chegaremos na nova terra quando ela estiver vestida de fuyú (inverno).  Inverno invejoso de nátsu (verão) quente e gostoso.  Sempre nátsu no Brasil de brasa, falam por aí.

Bendito o porto firme e seguro que nos receberá! Leva o nome dos iluminados cristãos: Santos.

 

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Imagem: Carlos KuboKasato Maru

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xix

Posted in Crítica, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 3 maio, 2009 by Marco Aqueiva

 

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POR ADRIANA VERSIANI

 

Cabeça mergulhada na banheira mediterrânea tentativa de poema procura objeto que concentra as forças o centro escondido na fresta do degrau onde tropeça o cego trespassado pela luz de todas as coisas.

Afundam cabeças n’água/espelho dessa rua que passa por dentro cego vê nas esquinas bichos estranhos mágicos potentes o mediterrâneo o ocupa.

Uma perna emerge da água mastro que sustenta em contato com outro elemento a experiência da perna que se eleva no ar sobre todas as formas/pensamento desejo de movimento enquanto cabeças se debatem para encontrar o orifício que escoa princípio segredo fundamento da matéria alfa e ômega.

Dedos movimentam-se no fundo porcelana tentáculos procurando a terra onde vermes lutam para fazer buracos e diluir e fertilizar e nutrir e permitir que a chuva carregue o resto para o centro onde espreita a luz de todas as coisas e o fogo queima e as chamas atingem o objeto escondido na fresta do degrau.

No sentido da água cabeças rolam seus perfumes pelo ralo emerge a mão direita e mediterrânea afunda na banheira a tentativa do poema.

O cego vê.