Arquivo para junho, 2009

Rajadas soldados ausência and tango & mazurcas

Posted in Guerra, Liberdade, literatura, Literatura Brasileira, literature, poema, poesia, Poetry, semiótica on 29 junho, 2009 by Marco Aqueiva

ernst

 

O Retrogesto

por PEDRO DU BOIS

 

O soldado assenta o fuzil ao ombro e dispara

a esmo, o tiro pela culatra destrói seu corpo:

o defeito como negócio rende ao dono

lucros para corromper o burocrata

que em refrigerado escritório aspira

se tornar gerente e garante

ao vendedor astuto a metade na divisão

escabrosa das atividades

 

o soldado sofre a explosão do osso

sob a carne exposta ao relento

e a primeira mosca se aproxima

 

o chefe em carro oficial – ar refrigerado

e motorista – segue ao encontro do assessor

do ministro (que também viaja)

 

nenhuma viagem tem por destino o ambulatório

do hospital improvisado onde o corpo

exausto do soldado não lhe permite saber

a extensão da perda: o braço e parte

do pulmão em retro-descarga

 

a família do ministro honrada com o convite

do alto escalão: a festa nos salões do palácio

 

o médico trata os ferimentos do soldado e sonha

palácios encantados intercalados em monstros

e florestas habitadas por gnomos: a droga cessa

o efeito: a cabeça estala e o mundo cai sobre os ombros

em depressão: treme as mãos e os olhos embaçam

 

fogos de artifício iluminam a comemoração

pela guerra em laços de vitória:

 

mais algumas ações de alcance limitado

e os soldados voltarão para casa

 

ilesos como saíram

inúteis como se foram

imersos como estavam

no que não havia

 

o brinde transmitido pelas ondas de rádio

chega ao soldado aos poucos acordado

na ausência de sua parte

 

o médico acode aos gritos desencontrados

 

o brinde explode bebidas em taças cristalizadas

de imaculadas imagens

 

o soldado geme a perda

o médico repensa a armadilha

o filho do fabricante das armas que explodem

ao contrário agita a bandeira desfraldada em papel

e madeira: pátria conquistada.

 

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Imagem: Max Ernst

VaLiSe poéTica doS TímidoS

Posted in crônica, literatura, Literatura Brasileira, literature, semiótica, Valises on 28 junho, 2009 by Marco Aqueiva

manet_dejneur

 

 

por NILZA AMARAL

Fulgêncio, morador do segundo andar, recorta anúncios de culinária e fotos de sexo explícito, que esconde dentro de uma valise com fechadura metálica, gosta de frango com polenta que come quase todos os dias na mesmice de sua rotineira vida solitária quando se entrega à tarefa de retirar a carne branca de junto dos ossos, misturar  com a polenta, e  observar o casal que se beija sob a árvore defronte ao prédio, imaginando que gosto teriam aqueles beijos  se de polenta ou de frango, pelo motivo óbvio de que Fulgêncio jamais havia beijado uma mulher, pois Fulgêncio tão fora de moda quanto o seu nome, mais feio a cada dia que passa, jamais sentiu  a carícia aveludada de um olhar feminino, nunca se aproximou o bastante de uma mulher para sentir o seu perfume, nem experimentou a tortura do amor não correspondido, nem a dor de uma separação, ou o êxtase de uma entrega, visto que Fulgêncio sai de casa “a las cinco de la tarde”, todos os dias para comprar a sua imutável  refeição, sem olhar para os lados, quase se enterrando à parede na sua caminhada até o mercado. Porém as noites existem para os tímidos. Catarse. Encontros com os desejos mais escondidos, com as palavras impensadas, com o surrealismo da vida banal de um Fulgêncio qualquer. Nas noites Fugêncio ousa. Nada de frango com polenta, nada de voyeurismo atrás de cortinas, não, nos imensos espaços da mente de Fulgêncio, desfilam gourmets estrangeiros, comidas exóticas servidas, com a flor da paixão – a tulipa – , sobressaindo rainha no jardim do éden, enfeitando as iguarias servidas no corpo maravilhoso e nu da menina que beija o namorado escondida sob as árvores do jardim de seu prédio, onde o frango com polenta e a valise tentadora o aguarda  assim que ele se desliga do seus momentos oníricos.

 

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Imagem: Manet

Artistas Provocadores

Posted in ação social, Arte engajada, Coletivo, Dulcinéia Catadora, Ensaio, literatura, Literatura Brasileira, literatura latino-americana on 25 junho, 2009 by Marco Aqueiva

dulcineia

 

por Marco Aqueiva

Capa e papelão preparando olhos do futuro? Sabe-se lá do papelão que sai das árvores como papel, transita nos frutos por entre as mãos dos homens que vacilam. O papelão é hoje dos loucos, das putas e dos poetas.

Mas então que loucura e delírios resistem às capas? Tu tens idéia do que fazemos, ou deixamos de fazer?

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Leia texto na íntegra em Cronópios

http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4048

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxxiI

Posted in Crítica, Crítica Literária, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Manuel Alegre, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 22 junho, 2009 by Marco Aqueiva

__VALISE_metapoéticas

 

O homem sentado à mesa

por MANUEL ALEGRE

 

Eis o homem sentado à mesa 
Diante da folha branca. 
Um longo, longo caminho, 
Da vida para a palavra. 

Decantação, purificação 
Para chegar ao pássaro. 

O homem que está à mesa 
Atravessou muitos desertos 
Virou do avesso a certeza 
Naufragou nos mares do sul. 

Entre ditongo e ditongo 
Para chegar ao pássaro 
Tu próprio terás de ser 
Cada vez mais substantivo. 

Irás de sílaba em sílaba 
Ferido por sete espadas 
Diante da folha branca 
Serás fome e serás sede 
Como o homem que está à mesa, 

O homem tão despojado 
Que a si mesmo se transforma 
No pássaro que busca a forma. 

Este é tempo do homem 
perdido na multidão 
Como ser desintegrado 
Na folha branca da cidade. 

Tempo do homem sentado 
À mesa da solidão. 

Há palavras como asas, 
outras mais como raízes. 

O pássaro voa por dentro 
Do homem sentado à mesa. 
Vai de fonema em fonema 
Sobre as cordas dos sentidos. 
  
Se vires o homem que passa 
Como se fosse no ar 
Já sabes: é o homem que está 
Diante da folha branca. 
  
Às vezes levanta vôo 
Para outro espaço, outro azul 
E deixa dentro das sílabas 
Um rastro como de sul. 
  
Quando recordas, 
Quando a tristeza 
toca demais as cordas do coração 
  
Quando um ritmo começa 
Dentro das palavras, 
  
Um sapateado inconfundível 
(Malagueña, malagueña!) 
E a folha branca é uma Espanha 
Para cantar, para dançar 
Para morrer entre sol e sombra 
Às cinco em sangue… 
  
Então verás chegar 
O homem sentado à mesa 
Às cinco en sombra de la tarde 
Malagueña, Malagueña! 
Diante da folha branca 
Como por terras de Espanha. 
  
Nos descampados deste tempo 
Nos aeroportos auto-estradas 
Nos anúncios sob as pontes 
Talvez no marco geodésico 
  
No fumo do lixo ardendo 
No cheiro do alcatrão 
Nos dejectos de lata e plástico 
Nos jornais amarrotados 
Nas barracas sobre a encosta 
Na estrutura de betão 
Sobre o gasóleo e a tristeza 
Sobre a grande poluição 
Onde nem folha ou erva cresce 
  
Seco, duro, estéril tempo 
Diante da folha branca 
Da solidão suburbana 
Onde a multidão se perde 
Entre tristeza e tristeza 
  
Às vezes um coração: 
Talvez um pássaro verde 
Ou talvez só a canção 
Do homem sentado à mesa 
  
O homem que está à mesa 
Tem qualquer coisa que escapa 
Qualquer coisa que o faz ser 
Ausente quando presente 
  
Às vezes como de mar 
Às vezes como de sul 
  
Um certo modo de olhar 
Como atravessando as coisas 
Um certo jeito de quem 
Está sempre para partir. 
  
O homem sentado à mesa 
Não está sentado: caminha 
Navega por sobre os mares 
Ou por dentro de si mesmo. 
  
Vem de longe para longe 
Do passado para agora 
De agora para amanhã 
Está no avesso da hora! 
  
Solta o pássaro, não pára, 
Tem outro espaço, outro azul 
Às vezes como de mar 
Às vezes como de azul 
  
E não se tem a certeza se está do lado de cá 
Ou se está do outro lado, deste lado onde não está. 
Mesmo se sentado à mesa 
Não é possível detê-lo 
O homem que tem um pássaro 
É sempre um homem que passa. 
  
Tem qualquer coisa que nem se sabe 
O quê nem de quem 
  
É talvez um mais além 
Algo que sobe e que voa 
Entre o Aqui e o Ali 
Algo que não se perdoa 
Ao homem quando ele tem 
Um pássaro dentro de si… 
  
Há um tocador a tocar 
As harpas de cada sílaba 
  
Diante da folha branca 
Tudo é guitarra e surpresa. 
  
Escutai o pássaro e o canto 
Do homem sentado à mesa!

SonhoS reBuçaDoS na VaLiSe

Posted in conto, crônica, literatura, Literatura Portuguesa, semiótica on 21 junho, 2009 by Marco Aqueiva

Salvador Dali_nino

 

por BELMIRA BESUGA 

 

O meu Pai sonhava rebuçados ao sábado de manhã, e contava histórias ao sábado ao serão, também nos outros dias, às vezes. O meu Pai, assava batatas-doces para nos dar de prenda na noite de Natal, e na festa anual lá na terra, comprava uma camioneta de brincar cheia de bonecas em fios de pendurar ao pescoço – a camioneta, para o João, único rapaz, os fios, para nós as raparigas.

O meu Pai, que sonhava rebuçados e contava histórias e assava batatas-doces e comprava uma camioneta de brincar carregada de bonecas de enfeitar, agora, é a estrela mais brilhante e segura do céu. É de lá que continua a ensinar-me a sonhar.
Desde sempre, também, fomos habituados a conviver com todos os que, de passagem mais ou menos breve, sempre nos deixavam qualquer novidade em termos de experiência de vida. Aos “Ciganos de passagem” o meu pai fazia a barba, para eles preparava uma açorda que lhes reconfortava a existência andante, e seguiam caminho, acompanhados ainda de um talego onde cabia um pão, linguiça, azeitonas e o calor da atenção com que todo este processo se desenrolava.

 

publicado em A minha travessa do Ferreira

http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com/

+_+_+_+_+_    

imagem: Salvador Dali

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxxI

Posted in Art, arte, artes plásticas, José Carlos Breia, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Metalinguagem, Nicolau Saião, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 19 junho, 2009 by Marco Aqueiva

Saião para Breia

 

Dicionário

por JOSÉ CARLOS BREIA

 

 

Este é o livro

onde as palavras

cristalizam.

 

Do livro agora aberto

–         do preciso rigor das suas linhas,

retiro algumas dessas formas frias.

 

Rodeio, lento, a sua geometria.

Paciente, procuro, ponto-a-ponto

a cruz axial em que se animam.

 

Os pequenos cristais

revelam ângulos, planos

que a sua dura forma escurecia.

 

Secreto,

fecho depois o livro em que o poema,

recomeçado sempre,

ausente fica.

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Imagem: Nicolau Saião

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxx

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 17 junho, 2009 by Marco Aqueiva

Nestor_Ponto de Ônibus[1]

 

A palavra

Poema e imagem por NESTOR LAMPROS

  

Para a palavra ser bem escavada

não se pode apenas esperar o dado

no desígnio aleatório da jogada.

 

Como touro no trabalho dos dias

ferido de ferro a palavra é faca

que desfaz antigas missões já concluídas.

 

É falar  deste cão irritante que escapa,

no encanto elíptico da palavra,

não nos omitindo mas presentes.

 

Em cada azul dentro dos céus que chama,

fixa conquista dos significados:- Ata

este labor sobre a terra transparente.