VaLiSeS meta-PoéTicAs XxiX

ambiguidade_gaiaterra

 

À Mãe Poesia

por RUBENS DA CUNHA

Inspirado em minha mãe e pelo dia que dizem ser seu.

 

            Poesia, teu filho anda sem esperas, anda com esporas sobre o lombo. Cavalo do tempo. Melhor dizendo, muar do tempo: daqueles que carregam cestos cheios de pedra à beira dos precipícios. Tenho sentido tua falta, Poesia. Tuas ternuras, teus aprofundamentos de mãe que tanto me apetecem.

            Não que eu tenha te abandonado, bem sabes das minhas visitas constantes, dos meus esforços em te honrar. Eu sonho é com algo mais livre, mais liberto das rotinas, das obrigações. Morar sempre contigo, nunca esquecer dos teus aconchegos. Sentar naquele sofá-estrofe no canto da página. Beber um verso-café feito na hora e nada ouvir além da chuva teimosa compondo um outono frágil. Chegar em ti é bom e fácil. O que dificulta tudo é o sair, o ausentar-se.

            O mundo me chama, me exila dentro de uma casca-homem. Cumpro meu destino, meu desatino diário. Uso neste cumprimento o que tu me ensinaste: não ser tão reto, nem tão áspero ou pontiagudo, preferir sempre as formas curvas, as obliqüidades, os desníveis. Acredito em ti, mãe, mas o mundo, esta vasteza de solidões, exige-me o contrário, exige-me aquilo que não me ensinas. Aprendo, é certo, mas a que preço?  Apesar deste conflito com o mundo, há em mim cisternas de agradecimentos. Eu sou teu filho. Excessivo, cheio de rebuscamentos, pretensioso. Eu sei que tu desprezas um pouco os enfeites na linguagem, os excessos. Perdoa-me, mãe, que sou criança e desconheço limites e perigos. Tento a cada dia ser menos expansivo, escrever menos bonito e mais cerne.

            Não, Poesia, não reclamo demais, mas é contigo, é em ti que desaperto as algemas, que desengasgo a garganta. Tu vives de palavras. As minhas estão aí, amargas quase todas, não que eu queira, mas assim elas se fazem em mim, assim elas acontecem neste teu filho. Às vezes, vejo meus irmãos tão apegados à felicidade. Eles te visitam sempre com poemas tão leves, tão descarregados de dor, tão feitos de algodão e açúcar. E tu recebes a todos. Nós, os amargos, acreditamos intensamente que temos a tua preferência, mãe. Que nenhum poeta venceu o mundo cantando a felicidade. Foram apenas os que se apoiaram sobre as mazelas humanas, os desvios, as reverberações do ser, que tiveram honra e glória. E ainda fazemos listas, desafios, apontamos cânones para comprovar a nossa verdade. Tu ris, passas a mão sobre minha cabeça, agasalha-me em teu colo. “Ah! Menino tolo, tenho por todos os meus filhos o mesmo apreço. Apenas olho mais de perto os frágeis”. E assim, tonto de fraqueza, deito-me em teu colo e sereno.

 

 

  

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2 Respostas to “VaLiSeS meta-PoéTicAs XxiX”

  1. carmen silvia presotto Says:

    Aqueiva, que boa leitura!

    Quanta verdade nesta carta, um filho assim liberta…
    Que boa leitura.

    Abraços carinhosos,
    Carmen Silvia Presotto

    http://www.vidraguas.com.br

  2. obrigado Marco por mais esta…

    abraços
    Rubens

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