SonhoS reBuçaDoS na VaLiSe

Salvador Dali_nino

 

por BELMIRA BESUGA 

 

O meu Pai sonhava rebuçados ao sábado de manhã, e contava histórias ao sábado ao serão, também nos outros dias, às vezes. O meu Pai, assava batatas-doces para nos dar de prenda na noite de Natal, e na festa anual lá na terra, comprava uma camioneta de brincar cheia de bonecas em fios de pendurar ao pescoço – a camioneta, para o João, único rapaz, os fios, para nós as raparigas.

O meu Pai, que sonhava rebuçados e contava histórias e assava batatas-doces e comprava uma camioneta de brincar carregada de bonecas de enfeitar, agora, é a estrela mais brilhante e segura do céu. É de lá que continua a ensinar-me a sonhar.
Desde sempre, também, fomos habituados a conviver com todos os que, de passagem mais ou menos breve, sempre nos deixavam qualquer novidade em termos de experiência de vida. Aos “Ciganos de passagem” o meu pai fazia a barba, para eles preparava uma açorda que lhes reconfortava a existência andante, e seguiam caminho, acompanhados ainda de um talego onde cabia um pão, linguiça, azeitonas e o calor da atenção com que todo este processo se desenrolava.

 

publicado em A minha travessa do Ferreira

http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com/

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imagem: Salvador Dali

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3 Respostas to “SonhoS reBuçaDoS na VaLiSe”

  1. “SonhoSreBuçaDoS na VaLiSe”

    Sonhar rebuçados era uma forma doce de o pai nos oferecer o proveito do jogo de cartas do serão anterior. No tempo em que rebuçados e outras guloseimas representavam um “luxo” o pai ganhava-os nos jogos de cartas com os amigos. Manhã seguinte, respondendo ao chamado, haveríamos de encontrar como que por magia os rebuçados “sonhados”.

    É de memórias como esta que a minha “valise” se carrega, Marco. Obrigada por publicar aqui este excerto.

    Um beijo
    mariabesuga

  2. Ao autor do espaço:
    Saúdo-o e cumprimento-o, com amizade, pela sensibilidade que o levou a decidir colocar aqui este excerto de um texto que por ser tão singelo e profundo é especialmente belo.

    À autora do texto:
    Que bom é ver como as memórias que te construíram e, hoje, te são tão queridas se espalham no espaço como estrelas que brilham em firmamentos de luz que são, por sua vez, estrelas noutros espaços que enchem o mistério para onde caminhamos.
    Para ti, um beijo de carinho
    antónio

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